Crítica | Mayans M.C. – 2X04: Lahun Chan

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos demais episódios.

É, Kurt Sutter e Elgin James até podem derrapar às vezes, como foi o caso do episódio anterior, mas a dupla definitivamente tem um plano bem amarrado e não dá ponto sem nó. Nem chegamos na metade da temporada e a costura narrativa, em Lahun Chan, foi uma coisa linda de se ver, justificando cada escolha de episódios anteriores.

O maior exemplo disso é a ação final que culmina com a prisão de Adelita pelos mercenários de Potter. Ela só foi possível porque, em Xbalanque, Mini quase foi torturada por uma equipe de ex-soldados que, ato contínuo, foi morta pelos Mayans e por Alvarez. A partir disso, tivemos, logo em seguida em Xaman-Ek, algo que me incomodou e que mencionei na crítica: o uso de Mini mais uma vez como ponto focal. No entanto, tudo foi orquestrado com o objetivo de permitir a colocação de um rastreador no Bronco de Alvarez exatamente para tornar possível a interceptação do “passeio” de Miguel Galindo e Adelita para um encontro com Palomo, ativista política introduzida em Camazotz como alvo de Potter, em uma circularidade quase assustadora.

Mas o roteiro de Bryan Gracia tem muito mais a oferecer. A gangue dos motoqueiros bombados de Xaman-Ek também volta para mais uma vez atazanar a vida dos Mayans e oferecer bons momentos cômicos em que eles tentam mostrar toda sua “macheza” somente para quebrarem a cara com o revide violento dos veteranos. A bem-vinda ponta do eterno T-1000 Robert Patrick, novamente na pele de Les Packer, presidente do Sons of Anarchy de San Bernardino, é sem dúvida um bônus, mas o que fica de verdade é a decepção de Bishop com Angel e EZ, o que provavelmente terá consequências graves. Novamente, notamos como tudo se encaixa perfeitamente.

Aliás, as ações rebeldes dos irmãos Reyes parecem ter culminado com a captura de Happy em sua própria casa, para desespero de seu cachorro. Ainda que o plano deles tenha sido idiota, ele é compreensível diante da pessoalidade e gravidade do assunto, funcionando como uma inevitável vingança. Seja como for, finalmente aprendemos detalhes sobre o que aconteceu com a mãe dos dois, ainda que o mandante tenha sido mantido em mistério. Desconfio que se tratou de vingança de José Galindo, que provavelmente descobriu da traição de sua esposa com Felipe, então Ignácio, mas saberemos a verdade ainda nessa temporada, creio. Se Happy mantiver o acordo de cavalheiros entre a trinca, mesmo depois da tortura que sofreu, com direito até a esfolamento, pode ser que Angel e EZ escapem de consequências imediatas mais graves, mas, conhecendo bem a forma de pensar de Sutter e Elgin, tenho certeza que tudo ficará muito pior antes de esboçar melhora.

No lado feminino da família Galindo, a espertíssima Dita deu outro olé em seus guardas e encontrou-se com Felipe somente para confirmar aquilo que cantei logo na segunda crítica da temporada, ou seja, Miguel é mesmo meio-irmão de Angel e EZ. E Emily, que, por sua vez, tomará em breve um olé do funcionário que, como sua amiga, vendeu-se a outro concorrente na licitação, acaba estabelecendo a conexão de Dita com Felipe quando vê o Bronco (outro!) dele parado na esquina e, depois, a fatídica foto que a matriarca guarda de recordação. E quero crer que Emily também imaginou que Miguel é irmão de seu ex-namorado, pois ela de burra não tem nada…

Como EZ diz ao final para seu irmão, ele está olhando para a inevitabilidade. E é bem isso mesmo. O choque dessas linhas narrativas destruidoras é, sem dúvida alguma, uma inevitabilidade com um caminho tortuoso, mas certeiro que reforça esse universo muito próprio de Mayans M.C., mesmo que as citações à SoA sejam constantes. Estamos no conforto de um pano de fundo conhecido, mas sempre sendo presenteados por particularidades que desdobram esse mundo entre fronteiras – físicas e morais – que Sutter e Elgin tecem a cada novo episódio.

E essa tessitura também é sentida na fotografia da temporada que, na medida em que se desenvolve, ganha mais coerência e profundidade, com a manutenção de uma paleta de cores rígida que é muito bem utilizada, com sutis modificações, em sequências no meio do deserto mexicano, assim como em San Bernardino e até mesmo na casa de Happy. É como um quadro pintado com uma cor mestra – chamem-na de areia, marrom ou algo assim – que as lentes da fotografia de Lisa Wiegand sabem misturar e espalhar sem que se perca a sensação de desolamento, de secura, de impossibilidade de fuga de cada núcleo narrativo.

Mas, dito tudo isso, gostaria de abrir um breve parêntese que não tem conexão direta com esse episódio, mas sim com a temporada como um todo, quiçá a série toda até agora. É que estou sentido muita falta de um desenvolvimento maior de outros personagens que não os irmãos Reyes e aqueles que gravitam diretamente ao seu redor. Os demais membros dos Mayans, por exemplo, parecem só fazer figuração. E digo isso mesmo de Bishop e de Coco, este último tendo ganhado relevo na primeira temporada, mas sendo “esquecido” aqui. Pode ser que ainda seja muito cedo, mas tenho a impressão (mas minha memória é errática, só para usar um eufemismo) que eu sentia que conhecia mais de cada um dos Sons na mesma altura da série-mãe e, aqui, não percebo isso. Para Mayans M.C. destravar essa “fase final”, os showrunners terão que oferecer mais detalhes sobre os outros componentes do grupo com a maior brevidade possível. Fecha o parêntese.

Lahun Chan é uma excelente aula de roteiro televisivo que sabe aproveitar ao máximo tudo o que foi mostrado antes, literalmente até curando problemas detectados anteriormente. É assim que se planeja uma série!

Mayans M.C. – 2X04: Lahun Chan (EUA – 24 de setembro de 2019)
Criação: Kurt Sutter, Elgin James
Direção: Rebecca Rodriguez
Roteiro: Bryan Gracia
Elenco: J.D. Pardo, Sarah Bolger, Michael Irby, Carla Baratta, Richard Cabral, Raoul Trujillo, Antonio Jaramillo, Danny Pino, Edward James Olmos, Emilio Rivera, Maurice Compte, Frankie Loyal Delgado, Joseph Raymond Lucero, Clayton Cardenas, Tony Plana, Michael Marisi Ornstein, Ray McKinnon, David Labrava, Melany Ochoa, Robert Patrick
Duração: 53 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.