Crítica | Mayans M.C. – 2X05: Xquic

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos demais episódios.

Xquic é um episódio muito interessante, até mesmo ousado ou, se preferirem, improvável em uma série de TV, especialmente uma tão complexa e com tão poucos capítulos. Afinal, em termos frios, se pararmos para pensar, ele acaba exatamente no mesmo ponto em que começa, ou seja, com Adelita ainda nas garras de Lincoln Potter, como a vimos ao final de Lahun ChanFiller? Roteiro preguiçoso? Temporada que se perdeu?

Nada disso. Mas nada disso mesmo.

Xquic realmente não é um episódio que impulsiona a narrativa principal de maneira vertiginosa, além de ser bastante econômico na ação e até mesmo classificável como lento, especialmente em seu começo. No entanto, ele é um belo e muito bem estruturado estudo de personagens que, aqui, são conectados de maneiras diferentes pela bela revolucionária grávida que, heroicamente, entregou-se à polícia para desviar a atenção de Miguel Galindo e, com isso, garantir a continuidade de seu grupo. Ela é a grande âncora que justifica a existência do capítulo e o roteiro de Debra Moore Munoz (do excelente Gato/Mis) faz bom proveito disso ao usar cada oportunidade para, muito singelamente, olhar para a psiquê de cada grande personagem.

O primeiro a ser foco desse exame é justamente Miguel, genuinamente perturbado pela captura de Adelita. Sua confissão puxada pela franqueza de sua esposa Emily, desconfiada que ele está apaixonado  pela líder do LO, é bonita, ainda que resvale de leve na pieguice. Temos, aqui, o clássico vilão que percebe que talvez seja muito melhor do que seu coração cruel o permite ser, um homem que deseja ficar perto de Adelita não porque a ama no sentido físico, mas sim porque admira a coragem da moça em enfrentar tudo e a todos para alcançar seus nobres objetivos. Por força do contraste – amplificado pela fotografia clara no exterior da casa em oposição à sua camiseta preta -, ele começa a perceber que talvez seu cartel não seja sua verdadeira vocação, ainda que Emily, novamente em demonstração de franqueza e sobretudo inteligência deixe claro para ele que ele vem se refestelando com o acordo insidioso e imoral com Potter. Esse conflito tem grande potencial para a frente, notadamente considerando que desconfio que Emily não ficou completamente tranquila que seu marido não sente algo a mais por Adelita.

Em seguida, temos o próprio Potter, aquela força do bem construída para odiarmos. Vemos nele lampejos de humanidade, como sua indignação em ver a muito grávida Adelita presa na jaula para cachorros pelos mercenários trogloditas (palavra dele, não minha!) com a mesma facilidade que vemos monstruosidade, quando ele, poucos minutos depois, diz para a moça o que pretende fazer com ela. Adelita não é sua inspiração, claro que não. Adelita é sua obsessão e sua captura é seu grande prêmio que preludia – para ele – o desmantelamento do LO e de todas as pessoas conectadas ao grupo, como Palomo. Diria até, considerando o diálogo dele com Miguel em frente à joalheria, que há algo mais ali, mais… doentio…

O grande significado de Adelita para Potter resulta em uma ação de guerra para contrabandeá-la para os EUA e, do outro lado, e pela mesma razão, uma ação na surdina armada por Miguel. Desde os primeiros segundos em que o plano de resgate é armado, notamos a reverência de todos a Adelita, especialmente por Palomo, com suas breve, mas eficientes palavras que transfere o pseudônimo de “anjo” para a amiga, talvez até guru. Essa reverência é ecoada por todos os Mayans e por Alvarez e isso fica constantemente no ar.

Finalmente, mas não menos importante, temos o efeito devastador da captura de Adelita para Angel. Tendo segurado seus sentimentos, sua felicidade por ser um futuro pai – sem esquecer da briga familiar em cima disso – ele estoura ao ser colocado de lado por Bishop, o que leva à revelação em uma bela e  visceral sequência que poderia ter acabado muito mal. Sua ansiedade é palpável durante toda a missão, o que exige muito de Clayton Cardenas, com o ator, para minha surpresa, entregando uma performance de se tirar o chapéu. Aliás, J.D. Pardo tem seus ótimos momentos também na conversa direta entre irmãos nos momentos que antecedem a ação.

A ação em si, antecedida pelas tomadas de drone em plongée na comunidade fronteirça, cortesia da direção de Rachel Goldberg (de Cucaracha/K’uruch), é a definição de anticlima. Mas, novamente, isso não é um aspecto negativo, assim como não foi o “caráter de filler” (olhem as aspas!) do episódio. Não só a progressão narrativa é lenta, mas cadenciada, como a ação ganha um passo em falso com a grávida errada no primeiro carro e, finalmente, quando os Mayans acertam, com direito a direção perigosa de EZ, vem o anticlímax para reinar por sobre todos os anticlímax: Adelita não vai com eles. Desespero total na sequência, algo que, de novo, Cardenas demonstra à perfeição e que a diretora trabalha com uma câmera nervosa e próxima no começo e, depois, afastando-se até deixar Adelita, sozinha, ao longe, prestes a ser mais uma capturada.

Xquic é um daqueles episódios que fica na memória do espectador. Inusitado e muito bem executado, ele é mais do que eficiente em trabalhar detalhes a partir da captura de Adelita que, nós descobrimos quando os créditos começam a subir, também significa muito para nós a ponto de sofrermos com seu destino.

Mayans M.C. – 2X05: Xquic (EUA – 1º de outubro de 2019)
Criação: Kurt Sutter, Elgin James
Direção: Rachel Goldberg
Roteiro: Debra Moore Munoz
Elenco: J.D. Pardo, Sarah Bolger, Michael Irby, Carla Baratta, Richard Cabral, Raoul Trujillo, Antonio Jaramillo, Danny Pino, Edward James Olmos, Emilio Rivera, Maurice Compte, Frankie Loyal Delgado, Joseph Raymond Lucero, Clayton Cardenas, Tony Plana, Michael Marisi Ornstein, Ray McKinnon, David Labrava, Melany Ochoa, Robert Patrick
Duração: 60 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.