Crítica | Mayans M.C. – 2X06: Muluc

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos demais episódios.

Curto e com uma história básica de salvamento, Muluc mostra que não é preciso muito para se fazer um excelente episódio de série de TV. Não que falte qualidade à Mayans M.C., nada disso, mas é que, aqui, temos um exemplar de roteiro que, em mãos menos hábeis, poderia muito facilmente resultar em uma historinha qualquer, sem grande apelo, não mais do que uma sucessão de clichês do gênero. Mas estamos falando de uma obra comandada por Kurt Sutter e Elgin James, não é mesmo?

A premissa é simples: Marcus Alvarez é raptado pelos mercenários a mando de Lincoln Potter, que quer saber quem atacou o carro com Adelita ao final de Xquic. Como muito bem diz Miguel Galindo quando ele e os Mayans se juntam para localizar o conselheiro, Potter detesta mais não saber do que perder e Potter não sabe ou, pelo menos, não tem certeza do jogo duplo de Miguel e não se esquiva de ordenar a tortura de Marcus para extrair as informações que quer, mesmo que tenha que fazer isso “por debaixo dos panos”.

O roteiro de Andrea Ciannavei, em seu quarto trabalho para a série, é ele mesmo torturante para o espectador, já que Marcus Alvarez é um dos mais adorados personagens-legado de Sons of Anarchy com grande proeminência no spin-off e vê-lo ser interrogado na base do espancamento, unhas arrancadas e mãos furadas é de fazer qualquer um esconder o rosto sentindo dor por tabela. Mantendo o cárcere em sombras e emprestando ares de filme de horror, com mascarados de vozes distorcidas fazendo gato e sapato do ex-líder dos Mayans, a direção de Guy Ferland é precisa em cada fotograma e posicionamento de câmera para amplificar a tensão é para transformar o plano de resgate dos Mayans em um irretocável momento de ação sanguinolenta como há muito não se via na série.

Não só há um bom equilíbrio no uso de cada personagem – Coco e seu rifle sniper, Angel decifrando a mensagem de Marcus e mostrando coragem ao ir sozinho na frente como batedor e Miguel, que se recusa a ficar nos bastidores – como toda a sequência de salvamento é muito bem coreografada, com close-ups sendo intercalados com planos gerais e médios em uma sucessão de se tirar o chapéu. E, quando Marcus, cambaleante, recusa a pistola que lhe é oferecida para terminar de matar Hobart, ato contínuo aceitando o gigantesco alicate das mãos de EZ, foi impossível não soltar um sorriso de satisfação, o que me fez sentir-me imundo – mas feliz, não tem jeito – quando ele finalmente se vinga de seu algoz.

E, mesmo que tudo envolvendo o resgate de Alvarez tenha sido o foco do episódio, como não poderia deixar de ser, ainda houve espaço para lidar com pontas soltas e, claro, intensificar a linha narrativa envolvendo Emily. Tivemos Happy entregando o prometido para os irmãos Reyes, o que só confundiu mais a identidade do mandante do assassinato de sua mãe e o próprio personagem sendo tragado para a ação principal, como também começamos a notar um certo dissenso entre Potter e a agente Katrina, sua assistente.

Mas o desdobramento do projeto pessoal de Emily foi mesmo a proverbial cereja no bolo, pois não só sua necessidade de “dar uma dura” em Marlon a colocou em contato direto novamente com EZ, reacendendo a chama do antigo relacionamento dos dois, como abriu as portas para sérios problemas para a cada vez mais assertiva e amoral Emily. Afinal, quando EZ visita o corrupto funcionário da prefeitura – que o reconhece como colega de escola só para dar aquele sabor ao momento – a reação violenta do rapaz leva a uma luta daquelas que sabemos como acabará, mas que, mesmo assim, ficamos surpresos pela forma como tudo é executado. Marlon, para todos os efeitos, “se suicidou” e Ferland não esconde os detalhes de como isso acontece em uma outra pérola televisiva que só podia vir mesmo de algo criado por Sutter e Elgin.

Não tenho dúvidas que EZ tentará enquadrar tudo como um efetivo suicídio, provavelmente depois de hackear o computador de Marlon, mas essa morte poderá ter repercussões psicológicas para Emily, além de potencialmente afetar seu relacionamento com Miguel, já que ela mentiu para ele ao dizer que resolveu facilmente aquilo que ela queria falar com ele mais cedo. E, claro, a amiga de Emily ficará morrendo de medo, talvez até, quem sabe, procurando proteção da polícia.

Muluc foi mais um episódio da mais alta categoria na temporada que parece seguir o rumo certeiro para o mais completo caos, muito na linha do que foi a primeira. E não, isso não é um reclamação. Que venha o caos e a desordem, pois é para isso que acompanho Mayans!

Mayans M.C. – 2X06: Muluc (EUA – 08 de outubro de 2019)
Criação: Kurt Sutter, Elgin James
Direção: Guy Ferland
Roteiro: Andrea Ciannavei
Elenco: J.D. Pardo, Sarah Bolger, Michael Irby, Carla Baratta, Richard Cabral, Raoul Trujillo, Antonio Jaramillo, Danny Pino, Edward James Olmos, Emilio Rivera, Maurice Compte, Frankie Loyal Delgado, Joseph Raymond Lucero, Clayton Cardenas, Tony Plana, Michael Marisi Ornstein, Ray McKinnon, David Labrava, Melany Ochoa, Efrat Dor
Duração: 49 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.