Crítica | Mayans M.C. – 2X07: Tohil

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos demais episódios.

No dia seguinte à transmissão do sétimo episódio da segunda temporada de Mayans M.C., saiu a notícia de que Kurt Sutter, depois de 18 anos trabalhando na FX, havia sido demitido, notícia essa que veio não muito tempo depois de ele mesmo ter dito que, se a série fosse renovada, ele sairia do papel de showrunner, deixando tudo ao encargo de seu protegido Elgin James. Adiantando-se às fofocas, Sutter publicou uma carta sobre sua demissão basicamente assumindo toda e qualquer culpa pelo ocorrido que ele resume ter sido o resultado de ele ter se afastado um pouco da produção, por seu comportamento corrosivo e por ser um “babaca abrasivo” (na tradução mais direta que pude imaginar para “abrasive dick“).

Nas entrelinhas – a não ser que haja uma razão mais forte que porventura ainda não tenha sido revelada – a verdade é que, com a compra da Fox (que inclui a FX) pela Disney, Sutter talvez fosse a figura menos “mickeymouseável” de todas as que transitam pelos corredores da empresa e essa distância foi o que provavelmente catalisou sua demissão. Em outras palavras, no ambiente exacerbadamente politicamente correto de hoje em que tomar um esporro sério e repleto de palavrões é algo impensável, ter um produtor/showrunner sem papas na língua, que não é uma flor com todo mundo, é incompatível, por mais que esse produtor/showrunner tenha se provado brilhante reiteradas vezes. Chega a ser hilário que demoraram 18 anos para perceberem isso sobre Sutter…

Só me resta desejar a Sutter o melhor e que ele encontre uma nova casa para poder continuar seu invejável trabalho sendo ele mesmo, sem precisar transformar-se naquilo que as pessoas querem que ele seja. O mundo não precisa de mais outra pessoa moldada pelos cada vez mais exagerados e constantes mimimis alheios…

E sim, eu sei que isso aqui deveria ser uma crítica e não uma sessão de desopilamento de fígado, mas, como Sutter diria, isso aqui é meu site e minha crítica e eu escrevo o que eu quiser. Como ele, não sou uma flor e, como ele, não costumo reservar meus pensamentos mais “abrasivos” por medo de melindrar os mais sensíveis, o que deixa mais claro ainda porque sua demissão me deixou especialmente cabreiro.

De toda forma, se você, leitor, não ficou melindrado comigo, vamos à crítica!

Tohil faz algo que há muito não víamos em Mayans M.C.: o clube cuidando de seus próprios problemas. Diferente de Sons of Anarchy, Mayans sempre foi uma série estruturada de forma a transformar o clube em um braço do Cartel Galindo, o que é de se aplaudir justamente por não tentar fazer o mesmo pela segunda vez. Por outro lado, não era saudável esquecer dos outros afazeres territoriais que inevitavelmente existem e que não têm ligação com o cartel, algo que só vinha sendo abordado de forma segregada, normalmente com os irmãos Reyes a frente de situações pessoais e familiares, como foi toda a situação envolvendo Happy. Estava sentindo falta de uma ação independente de grupo e é isso que vemos aqui.

O estopim é a garota-problema Leticia, filha do Mata-Mãe Coco. Tentando ajudar uma família mexicana a imigrar ilegalmente para os EUA, ela envolve-se com o clube de motociclistas Vatos Malditos, lá do outro lado da fronteira que riem quando ela diz que seu pai é dos Mayans. Levando o problema para a mesa, onde aprendemos que os Vatos foram criados por um de seus membros, Bishop decide pela retaliação como uma lição territorial e, também, como uma mea culpa por ter deixado isso acontecer em razão de seu envolvimento e atenção quase exclusiva aos interesses do cartel.

Infelizmente, porém, apesar de lidar com assuntos relevantes como a imigração ilegal (tema recorrente da série, claro) e tráfico humano, a ação em si deixa a desejar por sua velocidade e facilidade. Tudo é planejado de qualquer jeito e executado da maneira mais atabalhoada possível, sem que haja tempo para que o espectador absorva a tensão e a dificuldade da missão. Se em Muluc sequência de resgate bem semelhante foi extremamente bem trabalhada, aqui a direção do eterno RoboCop Peter Weller não consegue muito mais do que uma ação de rotina como ir até a esquina dar uns tapas em algum traficante folgado.

É muito provável que os Vatos Malditos voltem e justifiquem a simplificação de sua introdução aqui, mas, como eu ainda não consigo prever o futuro, não posso julgar o episódio pelo que ele pode fazer pela série e sim pelo que ele faz. E, no quesito “ação”, ele acaba entregando algo banal que poderia ser muito bem explorado.

No entanto, é importante lembrarmos que Tohil não tem só esse momento relevante. Esse ponto focal é usado quase como uma forma de criar uma maneira de abordar o tenso final do episódio anterior sem mergulhar exclusivamente no assunto, o que é outra boa escolha narrativa. Não só temos uma montagem de abertura ao som de “Micael”, de Juana Molina, em que ficam evidentes as consequências do evento para EZ e também o cárcere de Adelita ao final de Xquic para Angel, imprimindo um ritmo melancólico que permanece pontuando o episódio.

O roteiro de Jenny Lynn, então, inteligentemente lida com a morte de Marlon como uma sub-trama, volta e meia retornando o assunto por meio de telejornais, das reações de Emily e da prefeita, das desconfianças de Miguel e do encontro secreto de Emily com EZ, que serve também para aumentar a tensão amorosa entre os dois e catapultar outra frente narrativa, com o passado dos Reyes e dos Galindo entrelaçando-se ainda mais com o favor que EZ pede à Emily. Nesse aspecto, a direção de Weller é precisa no trabalho de decupagem e montagem, com as entradas e saídas da narrativa principal sendo suaves e bem inseridas.

A segunda temporada de Mayans M.C. continua em um ótimo caminho que certamente pressionará os três episódios finais a lidar com as diversas pontas soltas que as tramas até aqui deixaram. Não creio que a ausência de Sutter será sentida nessa reta final em razão de a produção em si já estar encerrada, mas sua demissão certamente pesará negativamente nas chances de a série ser renovada. Tomara, porém, que eu esteja muito errado.

Mayans M.C. – 2X07: Tohil (EUA – 15 de outubro de 2019)
Criação: Kurt Sutter, Elgin James
Direção: Peter Weller
Roteiro: Jenny Lynn
Elenco: J.D. Pardo, Sarah Bolger, Michael Irby, Carla Baratta, Richard Cabral, Raoul Trujillo, Antonio Jaramillo, Danny Pino, Edward James Olmos, Emilio Rivera, Maurice Compte, Frankie Loyal Delgado, Joseph Raymond Lucero, Clayton Cardenas, Tony Plana, Michael Marisi Ornstein, Ray McKinnon, David Labrava, Melany Ochoa, Efrat Dor
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.