Crítica | Mayans M.C. – 2X08: Kukulkan

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Até pode ter parecido que Tohil foi meramente um filler. Mas não só era importante que o clube lidasse com questões do clube, como Kurt Sutter e Elgin James já haviam demonstrado que não introduzem novos personagens à toa. Os dividendos do encontro mortal dos Mayans com os Vatos Malditos, de Tijuana são pagos até surpreendentemente rápido aqui em Kukulkan, com a promessa dessa linha narrativa continuar por pelo menos mais um episódio, ou seja, encostando no final da temporada.

Foi uma construção lenta, porém, com a introdução um tanto quanto conveniente demais da necessidade dos Sons of Anarchy de conseguir outro ponto de recebimento de carregamentos de armas dos irlandeses, com uma reunião convocada por Chibs (que bom ver Tommy Flanagan novamente!) com todo o grupo dos Mayans, mas sem avisar que os Vatos Malditos também participaria. Essa omissão, tratada como algo sem grandes consequências, simplesmente não faz sentido nenhum a não ser permitir um momento de surpresa quando Bishop e os demais recebem a notícia já sentados na mesa com Chibs e companhia.

E o roteiro de Sean Tretta não tem a menor pressa em desenvolver a narrativa até seu clímax, o que faz com que o episódio crie uma barriga no meio, ainda que ela seja suavizada com os cortes paras as preocupantes descobertas de Emily no depósito da família Galindo depois que EZ lhe conta suas suspeitas. Com isso, a óbvia (basta olhar para o rosto de cada um dos membros do grupo) traição dos Vatos demora demais para acontecer, mas, quando acontece, a simplicidade do que vimos em Tohil ganha em letalidade para os Mayans aqui, com Coco queimado (sem trocadilho) e potencialmente cego e Riz gravemente ferido.

Mas, como mencionei no começo, a ação não acaba aqui. Ou, pelo menos, espero fortemente que não acabe, pois os Vatos traíram não só os Mayans, que haviam aceitado até pagar reparações para as nove mortes infligidas e que tecnicamente foram “justas”, como também e talvez principalmente os Sons. Não vejo muita saída agora que não seja a reunião de um pequeno exército de motoqueiros de ambos os grupos para enfrentar o clube mexicano, com consequências pesadas para ambos os lados da fronteira.

Aos que acharem que essa linha narrativa não tem conexão alguma com a da temporada, lembro que, em tese, os Mayans são mais do que apenas um braço do Cartel Galindo e é isso que Sutter e Elgin vêm tentando mostrar. Mas, mais do que isso, é evidente que os problemas com os Mayans têm enorme potencial de sangrar para dentro da relação com Miguel, especialmente considerando que Marcus Alvarez é seu conselheiro. Há uma simbiose inafastável ali e parece-me que a direção tomada pela temporada leva a um choque desses dois mundos.

Ou três, se considerarmos como um mundo separado o drama pessoal dos irmãos Reyes com a nova chantagem do maquiavélico Lincoln Potter, que ameaça deportar Felipe/Ignacio se EZ e Angel não contarem tudo que sabem sobre o que ele tem certeza é a traição do cartel na conexão com Los Olvidados. Foi particularmente sensacional o confronto explosivo e ao mesmo tempo contido dos dois com Potter no meio deserto, com o agente federal chegando a mais uma vez perder seu famoso controle. Angel, por sua vez, também não resistirá muito tempo, já que além de seu pai, Adelita, futura mãe de seu filho (até prova em contrário, claro), está nas mãos do Departamento de Justiça americano. Tenho para mim que a desgraça se avizinha e ela tem o nome de Angel gravado em letras garrafais.

Paralelamente, temos as já mencionadas descobertas de Emily, que conectam não José ou Miguel Galindo à morte de Marisol, mas sim Dita. E o que ela faz com a informação? Corre para contar para Felipe em uma cena emocional que mostra como o carrancudo Edward James Olmos consegue ter grandes momentos dramáticos demonstrando confusão, surpresa, frustração e raiva – muita raiva – debaixo de um semblante sério, mas calmo. Foram poucos segundos, mas seu trabalho aqui é digno de premiação. Em outras palavras, este é mais um barril de pólvora a ser acrescentado ao paiol em ebulição que é essa temporada.

Kukulkan teve alguns momentos de lentidão que esticaram o episódio para além do que era necessário, mas o conjunto da obra continua forte, denso e também tenso, pavimentando o caminho para o encerramento da temporada (e quiçá da série, considerando a demissão de Sutter) em apenas mais dois episódios. Com certeza não faltarão sangue, suor e lágrimas.

Mayans M.C. – 2X08: Kukulkan (EUA – 22 de outubro de 2019)
Criação: Kurt Sutter, Elgin James
Direção: Allison Anders
Roteiro: Sean Tretta
Elenco: J.D. Pardo, Sarah Bolger, Michael Irby, Carla Baratta, Richard Cabral, Raoul Trujillo, Antonio Jaramillo, Danny Pino, Edward James Olmos, Emilio Rivera, Maurice Compte, Frankie Loyal Delgado, Joseph Raymond Lucero, Clayton Cardenas, Tony Plana, Michael Marisi Ornstein, Ray McKinnon, David Labrava, Melany Ochoa, Efrat Dor,  Tommy Flanagan
Duração: 55 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.