Crítica | Mayans M.C. – 2X10: Hunahpu

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos demais episódios.

A segunda temporada de Mayans M.C., spin-off de Sons of Anarchy, foi, primordialmente, sobre a conexão entre os irmãos Reyes. Isso fica evidente a partir dos títulos do primeiro (Xbalanque) e último episódios, que se referem a heróis gêmeos da mitologia maia, e com a progressão de toda a narrativa que começa com os dois separados e termina com eles mais juntos do que nunca, reunidos não só pelo amor que sentem um pelo outro, como também pelos terríveis segredos que compartilham e, claro, pelo ingresso definitivo de EZ no clube. E o trabalho de Kurt Sutter e Elgin James foi mais uma vez exemplar, com roteiros redondos que sabem inserir mistérios e intrigas que não deixam o espectador ver um futuro que não seja cataclísmico, mas que ganham resoluções sóbrias, realistas e que surpreendem tanto pelo que fazem quanto pelo que não fazem.

Hunahpu, por exemplo, é pródigo em frustrar as expectativas de quem acompanha a série. Mas é uma frustração boa, daquelas que levam à conclusão que o caminho mais fácil até poderia ser interessante, mas certamente também o mais vazio. No lugar de simplesmente começar uma guerra campal entre os Mayans e os Vatos Malditos pela morte de Riz, como fora prometido por Bishop ao final de Ytzam-Ye, a questão do dinheiro – do quanto o clube perderia com isso tanto financeira quanto moralmente, com a possível saída de duas filiais – volta à mesa e volta a atormentar Bishop, pressionado pelos outros dois “reis”. A revolta de Coco, que perdeu grande parte de sua valiosa visão no conflito, é novamente palpável e é muito fácil ficarmos do lado dele. No entanto, no mundo real, algo que a série se esmera em refletir, o dinheiro costuma falar mais alto e o roteiro da dupla de showrunners dialoga muito bem com essa questão, ao mesmo tempo deixando nas entrelinhas todas as pistas necessárias para que seja perfeitamente possível concluir que não havia como os Mayans deixarem isso barato, o que resulta no massacre na festa da abuelita de Palo, líder dos VM e na morte de um membro dos Sons. Quem exatamente só descobriremos na temporada que vem, já que a série, ainda bem foi renovada, mas, seja quem for, o problema é gigantesco.

O que não fica claro no episódio e é também outro aspecto que traz frustração, mas esta não tão boa assim, são as intenções exatas de Taza ao matar Riz. Ele então queria a guerra? Mas porque exatamente? E o que significou o destaque dado à fotografia em porta-retrato que ele observa de forma melancólica depois do massacre? A ausência de explicações mínimas para um mistério aparentemente de cunho pessoal introduzido no penúltimo episódio da temporada é um potencial problema a não ser que esse seja um dos grandes focos do próximo ano. Nenhuma explicação simples será suficiente para fazer com que essa trama seja encerrada de maneira crível e lógica, mesmo considerando que pouco – quase nada – saibamos sobre Taza. A sobrevivência de Palo e a morte de um membro do SoA parece indicar que esse será pelo menos um dos pontos focais futuros e fica a torcida para que, com isso, haja oportunidade para Elgin James, que ficará sozinho no comando da série, trabalhar os membros do clube que não sejam os Reyes, o único grande “defeito” macro de Mayans M.C. até agora.

Outro momento que não acontece do jeito que muita gente provavelmente esperava é o final de Dita, a mandante do assassinato de Marisol, esposa de Felipe e mãe de EZ e Angel. Nada de vingança, nada de guerra contra os Galindo, nada de ações impensadas. O roteiro é inteligentemente econômico em ação nesse aspecto, iniciando o episódio com a família Reyes junta na casa de Felipe e encerrando com os três também juntos na pira de morte de Dita depois que, em uma sequência poderosa, EZ enforca a matriarca dos Galindo com suas próprias mãos e deixando lágrimas escorrerem de seu rosto. É como ver o último traço de seu futuro brilhante escorrer em forma líquida. EZ, nesse momento de catarse – mas não de vingança, vejam bem! -, deixa para trás sua vida de outrora e abraça seu lado sombrio. Quando ele recebe seu patch, o episódio está apenas reiterando o que já havia ficado evidente, em uma redundância necessária.

Claro que não posso deixar de falar sobre quatro outras magníficas sequências do episódio que são intimamente conectadas: a conversa de EZ com Angel sobre o que fazer com as provas contra Potter que Emily havia entregado; o encontro efetivo com Potter; a raiva mortal que Adelita demonstra quando Potter ameaça retirar seu filho e a fatídica ligação de Potter para Angel. Não detalharei cada uma delas, porque quem viu certamente sentiu a força do texto de Sutter e James e, mais ainda, as espetaculares atuações. Fiquei particularmente surpreso pelo trabalho dramatúrgico de J.D. PardoClayton Cardenas, já que nunca os considerei acima da categoria “eficientes em seus papéis”. Aqui eles levantam o sarrafo dramático, com o diálogo entre eles que resulta na decisão de Angel de salvar o pai em detrimento de Adelita sendo o discreto ponto alto do episódio, com o segundo lugar ficando com o confronto deles e Potter embaixo do viaduto, com Ray McKinnon mais uma vez arrasando com os estouros de seu controladíssimo personagem que acaba rindo por último quando destrói Angel ao telefone. E o que dizer do mortal rosnar silencioso de Carla Baratta como Adelita? Não sei quanto a vocês, mas eu fiquei com medo…

Mayans M.C. entrega uma segunda temporada poderosa que resolve muita coisa e deixa outras tantas para um mais do que promissor terceiro ano. Entre a guerra entre Mayans, VM e SoA, o mistério de Taza, a vingança de Potter, a investigação de Marcus Álvarez sobre as circunstâncias exatas da morte de Dita, a dor de Miguel e a raiva incontida de Adelita, há muito a ser apreciado e desenvolvido nesse tenso e complexo universo criado por Sutter e James.

Mayans M.C. – 2X10: Hunahpu (EUA – 05 de novembro de 2019)
Criação: Kurt Sutter, Elgin James
Direção: Elgin James
Roteiro: Kurt Sutter, Elgin James
Elenco: J.D. Pardo, Sarah Bolger, Michael Irby, Carla Baratta, Richard Cabral, Raoul Trujillo, Antonio Jaramillo, Danny Pino, Edward James Olmos, Emilio Rivera, Maurice Compte, Frankie Loyal Delgado, Joseph Raymond Lucero, Clayton Cardenas, Tony Plana, Michael Marisi Ornstein, Ray McKinnon, David Labrava, Melany Ochoa, Efrat Dor,  Tommy Flanagan
Duração: 70 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.