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Crítica | McCullin (2012)

por Leonardo Campos
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O fotojornalismo permitiu, ao longo da turbulenta história do século XX, a visualização de representações imagéticas dos conflitos bélicos mundiais que muita gente apenas imaginava. No conforto de seus lares, muitos apoiavam o nacionalismo exacerbado de seus países de origem, na defesa de eventos que sequer tinham noção de como realmente funcionavam, situações de dor, miséria, perversidade, etc. As fotografias dos repórteres de redações jornalísticas foram os documentos que começaram a expor para a sociedade os horrores destes acontecimentos. Os conflitos do Vietnã, por exemplo, ganharam maior repercussão negativa depois que muitas imagens foram divulgadas em veículos de comunicação. São fotos que registram as celeumas descritas anteriormente, mas conectadas com padrões estéticos da arte. Don McCullin foi um desses fotógrafos que conseguiu transformar em belo, uma situação grotesca. Os seus fotografados, tais como as figuras nas pinturas de tom religioso de Goya, parecem clamar por ajuda divina, diante de tanto desespero.

Debates no senso comum e no meio acadêmico discutem essa apropriação da dor alheia, traduzida em arte por alguns premiados fotojornalistas, mas esse não é o foco de McCullin, documentário lançado em 2012, dirigido pelos irmãos Morris (Jacqui e David), produção com 91 minutos de reflexões sobre fotografia, representação imagética da guerra e os desdobramentos psicológicos destes profissionais que jamais esquecerão os testemunhos durante a realização de seus trabalhos mais marcantes. Isso tudo é delineado pelos depoimentos do próprio McCullin, sempre enquadrado no formato cabeça falante, com livros ou algum espaço de seu ambiente doméstico, desfocado pela direção de fotografia de Richard Stewart e Michael Wood, para ressaltar a figura do fotógrafo. Ele depõe sobre a sua trajetória nas entrevistas, algumas editadas de programas televisivos em que participou, geralmente tendo alguma foto sua marcante como ilustração. Ele viu e viveu situações infernais. O documentário não apenas conta, mas mostra um pouco dessa trajetória singular.

A foto que ilustra essa reflexão, por exemplo, é bastante famosa. O retrato peculiar de um combatente perplexo, enquadrado em cinco pontos diferentes, mas em todos eles, sem piscar por um segundo. Era alguém que segundo McCullin, estava em total estado de choque, tomado pela situação gravitacional de guerra ao seu redor, um dos momentos únicos de toda a sua carreira na fotografia. São fotos que exploram momentos angustiantes de nossa história, sem o glamour que o belicismo possui, por exemplo, em narrativas ficcionais cinematográficas, com heróis em suas jornadas pessoais e coletivas, na destruição do “outro” em prol da contemplação de seus ideais. Quando retornou de um conflito, ao ser rodeado por seus pares profissionais curiosos diante do material recolhido, ele deixou claro logo em seu tom: “não trago boas novas”. Era o registro das barbaridades entre estadunidenses e vietnamitas, conflito com potencial dramático e que até hoje rende filmes, séries, livros, etc. Além das cicatrizes psicológicas, o fotógrafo que quase sempre colocou a vida em risco entre granadas, bombas e outros recursos bélicos teve a sua câmera Nikon como escudo numa ocasião, ao ser atingido por uma bala, freada pela máquina. Tenso!

Ademais, durante um trecho do documentário, Don McCullin fala sobre a sua trajetória e comenta o atual estado do campo da fotografia. Ele demonstra aversão ao formato digital, haja vista a constante manipulação, algo que em seu ponto de vista, não é tão impactante no formato analógico. Somos obrigados, por uma questão de lógica, a discordar do depoimento, pois as fotografias oriundas de suportes analógicos também podem passam por processos de manipulação e representação, claro que num grau muito menor que a produção da era digital, mas ainda assim, possível. Isso, no entanto, não depõe contra o documentário linear, tranquilo, de reflexões amenas, com uma condução musical discreta, assinada por Alex Baranowski, acompanhamento das imagens editadas por David Fairhead e And McGraw, ambos eficientes na justaposição dos depoimentos, fotografias e imagens externas de programas televisivos ou arquivos de registros das guerras mencionadas no filme. É um documentário contemplativo, sem as badalações de uma linguagem sensacionalista, voltado ao tom mais reflexivo sobre o ato de fotografar, do “como” ao “quando” e o que resultado disso.

Para Harold Evans, editor do Sunday Times entre 1967 e alguns anos da década de 1980, McCullin foi um fotógrafo que fez a diferença na história relativamente recente do jornalismo britânico. Parte integrante da equipe produtora do documentário, Evans rasga elogios pertinentes ao profissional que ao longo de sua corajosa trajetória, registrou guerras, crises humanitárias de todo tipo, tal como a epidemia de AIDS em parte do continente africano, situações desagradáveis que nós geralmente queremos virar ao contemplar na página de uma revista, pois nos expõe uma situação aberrante provocada pelo próprio ser humano, mergulhado nas dinâmicas globais capitalistas de desigualdades, reflexo de longas eras de colonização exploratória. Como podemos explicar, além destas observações, as motivações das guerras registradas em imagens por McCullin? Não há coerência que dê conta da profunda miséria humana, transformada pelo fotojornalista em arte em imagens que ficarão para sempre nos registros que contam parte da vergonhosa história da humanidade.

McCullin — Estados Unidos, 2012
Direção: David Morris, Jacqui Morris
Roteiro: David Morris, Jacqui Morris
Elenco: Don McCullin, Harold Evans
Duração: 91 min.

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