Avaliação de Chuck Norris como Jim “J.J.” McQuade:
Avaliação do filme:
Alguns filmes, por piores que formalmente possam ser, nascem clássicos. McQuade, o Lobo Solitário, um dos diversos longas “menores” de brucutu que proliferaram maciçamente nos anos 80 à margem e em razão dos grandes sucessos de bilheteria protagonizados principalmente por Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone, é inegavelmente um deles, a ponto de seu personagem principal, o ex-Marine e Texas Ranger Jim “J.J.” McQuade, vivido pelo inesquecível Chuck Norris, faixa preta em diversas artes marciais que chegou a criar a sua própria, o Chun Kuk Do, ter carregado nas costas uma longeva série de nove temporadas e mais de 200 episódios – além de um longa e um spin-off de vida curta – em que ele é marotamente “transformado” em outro ex-Marine e Texas Ranger, Cordell Walker, em Walker, Texas Ranger (ou Chuck Norris: O Homem da Lei, título brasileiro que dispensa explicações), também vivido por Norris, o que, claro, gerou uma ação judicial que durou anos, mas que compreensivelmente acabou favoravelmente para o ator, pois os juízes obviamente temiam provocar a fúria dele. Com cabelo e pelos por todas as partes do corpo, rosto totalmente impassível capaz de transformar Medusa em pedra e habilidades marciais à toda prova, Norris criou, aqui, talvez seu mais icônico personagem e seu primeiro grande sucesso.
Sem nenhuma vergonha de ser feliz e mesmo com todas as suas limitações técnicas e criativas, o insípido diretor Steve Carver, que já havia trabalhado com Norris em O Ajuste de Contas, faz de tudo para incorporar ao longa o estilo e a atmosfera da Trilogia dos Dólares, de Sergio Leone, inclusive no ritmo narrativo a partir de um roteiro perdido de B.J. Nelson que, sendo sincero, interessa pouco aqui. Norris, com isso, é convertido na versão moderna e lutadora do Homem sem Nome, de Clint Eastwood, com o ator muito claramente aproveitando que o clássico pistoleiro não faz muito mais do que ser cool diante das câmeras, para fazer exatamente o mesmo. Porque sim, Chuck Norris é a encarnação do cool aqui, com seu chapéu de vaqueiro, sua camisa aberta até o umbigo, a sujeira e o suor por toda sua roupa e corpo e sua capacidade de ser ao mesmo tempo durão e doce, porradeiro e soprador de feridas. Não faltam closes em seu rosto, momentos de mera contemplação que Carver não sabe dosar e, com isso, quebra o ritmo do filme o tempo todo, e situações impossíveis que McQuade tira de letra como se fosse apenas mais uma terça-feira, como é o caso de seu literal enterro dentro de seu Dodge Ramcharger que ele resolve simplesmente acelerando e usando o turbo feito em casa por ele mesmo.
Entre o “não quero fama, só fazer meu trabalho”, sua ex-esposa com quem mantém relação civilizada, sua filha adolescente, seu parceiro inexperiente, seu lobo de estimação (sim, um lobo) e o amor da femme fatale Lola Richardson (Barbara Carrera) que é também amante do grande vilão, Rawley Wilkes, vivido por ninguém menos do que David Carradine, obviamente outra razão pela qual McQuade, o Lobo Solitário, é o clássico que é, o longa é uma divertida sucessão de clichês memoráveis como o “desenterro” do carro que citei e outras cenas mais prosaicas como quando Lola arruma o pardieiro em que McQuade vive para consternação dele. Também é cômico como toda aquela aura de guerreiro solitário, calado, soturno e turrão é mantida somente nos primeiros minutos de projeção, pois o roteiro, não demora nada, faz do protagonista basicamente um simpático cordeirinho que é “gente boa” com todo mundo que não o ameaça ou a seus entes queridos e inocentes geral. É uma delícia ver Norris transitar, sem mudar sua feição nem por um milionésimo ou ter um fio de sua barba ou de seu cabelo desarrumados, entre o lutador imbatível e o “amigão da vizinhança”.
McQuade, o Lobo Solitário, é também marcante porque Carver arregaça as mangas para sempre manter J.J completamente sujo e de alguma forma mostrando o peito desnudo, seja total ou parcialmente, com a quantidade de pelos residentes em seu torso fazendo com que o espetáculo seja mais engraçado do que impressionante. Por outro lado, esse é o único filme que lembro em que os personagens suam mesmo quando não fazem esforço, ou seja, reflete uma realidade jamais vista no audiovisual e que faz pleno sentido considerando a aridez do local onde a história se passa, em que sombra é luxo e poeira é status social. Sei que não falei nada da história em si, mas, como mencionei mais acima, o roteiro é irrelevante diante de todo o restante, inclusive e especialmente, claro, o esperadíssimo embate final entre McQuade e Wilkes que coloca a lenda em formação Chuck Norris contra o então já lendário David Carradine (que, como sabemos, teve uma das mortes mais memoráveis do audiovisual, por asfixia autoerótica em um hotel na Tailândia, aos 72 anos), que vivera o monge shaolin paz e amor Kwai Chang Caine na série Kung Fu e o mascarado Frankenstein, em Corrida da Morte – Ano 2000. Mas ela pode ser resumida simplesmente como J.J. passando por cima de seu chefe para desbaratar uma operação de tráfico de armas no meio do deserto comandada por Wilkes, ainda que a narrativa seja “descombobulada” e completamente errática.
Assistir McQuade, o Lobo Solitário no cinema foi uma experiência que nunca esqueci quando jovem, algo que fez os meus próprios pelos corporais aparecem já na manhã seguinte, mas assistir novamente agora, burro velho, só não teve o mesmo efeito porque o que tinha para crescer já cresceu. Trata-se mesmo de um daqueles clássicos impossíveis de parar de ver, mesmo que ele seja profundamente falho, com Steve Carver não conseguindo fazer muito mais do que algo que pode ser classificado como “tão ruim que é bom”. O que fica, porém, é a imagem de Chuck Norris todo sujo, mas de cabelo e barba perfeitos, contemplando a vida enquanto bebe cerveja, a única coisa que a geladeira de seu barraco tem, ao lado de sua versão de quatro patas.
McQuade, o Lobo Solitário (Lone Wolf McQuade – EUA, 1983)
Direção: Steve Carver
Roteiro: B.J. Nelson (baseado em história de H. Kaye Dyal e B.J. Nelson)
Elenco: Chuck Norris, David Carradine, Barbara Carrera, Robert Beltran, Leon Isaac Kennedy, John Anderson, L.Q. Jones, Dana Kimmell, R.G. Armstrong, Tommy Ballard, Oscar Hidalgo, Jorge Cervera Jr., Sharon Farrell, Anthony Caglia, Robert Jordan, Daniel Frischman, Hector Serrano, William Sanderson, Aaron Norris, Ray Marker, Kale Stokerton, Kane Hodder, David Lee Smith
Duração: 108 min.
