Crítica | Medo (2003)

Parte integrante dos filmes de terror orientais com sofisticado lançamento em território brasileiro, Medo ganhou as salas de cinema e ainda teve uma rentável presença em DVD por aqui, numa era em que as videolocadoras faziam parte de um mercado cultural considerável. Tudo isso muito antes de sua refilmagem tardia, O Mistério das Duas Irmãs, produção que podemos considerar como livremente inspirada em seu ponto de partida, ou até mesmo, considera-la uma interpretação estadunidense para a história, haja vista a sua condução que parece explicar para os espectadores o que podemos entender da versão oriental, dirigida de maneira eficiente por Kim Jee-Woon, cineasta que teve como guia,  o roteiro que ele mesmo concebeu, adaptação de um conto que ao ser traduzido, ganha o título de “Rosa, Lótus-Vermelha”, história que faz parte do folclore sul-coreano.

Lançado em 2003, a trama tem o seu início com Su-Mi (Im Soo-Jung), jovem que narra para o seu psiquiatra os acontecimentos de um fatídico dia do passado recente, tomado por situações dolorosas que mudaram o curso de sua vida. Acompanhamos a sua chegada com a irmã, Su-Yoen (Moon Geun-Yong), em casa, ambiente que transmite estranheza, constantemente angustiante e com atmosfera soturna. A relação das garotas com o pai é bastante conturbada. Como a narrativa busca seguir o ponto de vista das garotas, em especial, de Su-Mi, observamos o patriarca sempre frio, distante, pouco envolvido com as meninas, algo estranho, mas aparentemente justificado, pois há segredos que sabemos que precisará chegar ao final, para assim, termos a compreensão de tudo.

Ou de uma parte. Ou de várias, haja vista a possibilidade de múltiplas interpretações no desenvolvimento dos 114 minutos de Medo, em especial, no desfecho, ambivalente, provocativo e complexo. Sabemos que a relação das garotas com a madrasta (Yum Jung-Ah) não é das melhores, num aparente jogo de tensões entre enteadas e novas mães, como nos contos populares, algo que fica apenas nas aparências, pois os segredos revelados ao longo da trama são muito mais aterrorizantes do que possamos imaginar, afinal, o que é mais assustador que a presença física de uma entidade de cunho sobrenatural? A sua dimensão psicológica, provavelmente, notável nas cenas que designam o horror tradicional, mas que vejo mais como desdobramento de mentes em constante combustão de tensões e pavores internos. A dubiedade dos sentimentos e as idas e vindas dentro da casa comprovam tudo isso.

Diante do exposto, Medo é um filme de terror oriental que segue uma trajetória mais psicológica que física. Há algumas passagens que emulam traços dos já clássicos modernos, O Chamado e O Grito, em suas versões asiáticas e estadunidenses, isto é, presença de assombrações com cabelos longos e negros, ruídos nos corredores, monstros escondidos por detrás de segredos obscuros e outras estratégias narrativas comuns ao âmbito das produções que evocam atmosferas fantasmagóricas. Há também o levantamento das teorias, algo que rende muitas discussões posteriores ao filme. Dentre elas, a motivação do ciclo menstrual paralelo das mulheres da casa, a desconstrução do ideal de família tradicional, algo comum aos filmes do gênero, além do seu final aberto para interpretações múltiplas.

O que sabemos, de fato, é que as irmãs possuem um laço muito forte, sendo Su-Mi mais ativa e enérgica, enquanto a outra apresenta uma passividade absurda, sempre a ser insultada pela madrasta, um dos motivos que leva a mais forte a servir de escudo constantemente. Ao passo que o filme avança, ficamos cientes da morte da mãe das garotas e da rápida ocupação da enfermeira no posto matriarcal deixado após o falecimento. São questões que levantam tensões entre os habitantes da casa, com o pai a habitar o centro de tais conflitos. Sentimentos como revanche, mágoa e ódio tomam o espaço e Takashi Shimizu já havia produzido um filme que explicava exatamente o que acontece em cenários configurados desta forma. A diferença é que desta vez, a “maldição” parece conectada ao distúrbio de identidade da protagonista.

Em reflexão: por qual motivo a irmã passiva não dá uma palavra sequer durante todo o filme? Estaria morta? É puro fruto da mente de Su-Mi? E se Su-Mi for também a sua madrasta, espécie de duplo imaginado? São muitas as possibilidades, trabalhadas de maneira poética pela direção de fotografia de Mo-Gae Lee, cuidadosa na iluminação dos corredores frios e escuros, além de trabalhar com a movimentação e enquadramento dos ambientes repletos de elementos em azul e vermelho do design de produção de Geun-Hyun Cho, setores acompanhados pela trilha sonora mais amena que o “tradicional” nos histéricos filmes de terror, composta por Byung-Woo Lee, profissional que tem a sua condução pouco ameaçada pelo uso de jumpscare, mais comedido por aqui, mas ainda assim, presente, pois na demanda industrial, não dá para ficar apenas na seara da produção de gênero, não é mesmo?

Por fim, os efeitos visuais capricham nas aparições fantasmagóricas. Assinados pela equipe de Wook Kim, o setor ganha destaque pelos já obrigatórios cabelos negros a deslizar pelos ambientes e provocar sensações de medo e pavor em seus personagens. Ademais, em sua trajetória narrativa, Medo passeia pelos campos do horror, mas focaliza as atenções, como já dito, no terror psicológico, econômico no sangue e nas vísceras e mais conectado com as possibilidades de construção de uma teia de ambiguidades que permite ao filme uma sobrevida diante de tantas outras realizações semelhantes, algo que lhe permitiu ser considerada uma das melhores narrativas no campo do terror asiático.

Medo (Janghwa, Hongryeon) — Coréia do Sul, 2003
Direção: Jee-woon Kim
Roteiro: Jee-woon Kim
Elenco: Kap-su Kim, Jung-ah Yum, Su-jeong Lim, Geun-Young Moon, Seung-bi Lee
Duração: 114 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.