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Crítica | Medo da Carne: Larva/Pupa/Metamorfose

por Leonardo Campos
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O cineasta David Cronenberg é um realizador dos elogios. Os seus filmes, sempre fora da linha do que chamamos de “normalidade”, põem em xeque diversas padronizações sociais e nos instiga, mesmo que o resultado entre um e outro seja uma montanha-russa ética e estética. A Mosca é de um dos mais memoráveis, talvez o maior dentre os maiores sucessos, tanto pela opinião do público quanto pela crítica cultural, pois a cada texto sobre o cineasta, seja retrospectivo ou as famosas listas com os principais marcos da carreira do canadense, a obra de 1985 está sempre como parte integrante. Esse sucesso, por sua vez, passou pelas mãos do visionário diretor, mas nem por isso é um crédito a ser concedido de maneira unitária. Antes de A Mosca se torna um filme de Cronenberg, diversas etapas marcaram a produção, desde a escrita e reescrita de roteiros, ao adiamento da pré-produção e outras situações ilustradas de maneira didática a extensa ao longo das três partes deste documentário de 150 minutos (a versão ampliada), exposição minuciosa da ideia ao filme exibido e aplaudido pelo público.

Antes de adentrar, um detalhe importante. Jeff Goldblum e Geena Davis comentam os seus personagens, as cenas excluídas, o impacto do projeto em suas carreiras iniciantes, dentre outros detalhes que envolvem um processo criativo em escala cinematográfica industrial. A ausência de trilha sonora, efeitos visuais e outros recursos estéticos impedem uma imersão maior do espectador, haja vista o longo tempo de duração, algo que torna Medo da Carne um documentário mais voltado aos interessados ou conscientes do legado de David Cronenberg. Os depoimentos são colhidos por uma câmera estática, no padrão das cabeças falantes, base do gênero documentário. Aqui, o que importa de fato é descortinar o processo criativo por detrás deste clássico moderno e apresentar ao público alguns dos diversos truques da premiada maquiagem e dos efeitos especiais impactantes para a década de 1980. Para quem ainda não teve acesso ao filme, a crítica genética em questão pode soar aleatória e desinteressante. Por isso, encarei a sessão com duas horas e meia como um exercício de revisão.

A experiência, cansativa, foi gratificante. Não como entretenimento, algo que podemos encontrar na fruição do filme analisado, a famosa história do pesquisador que decide desenvolver uma máquina para deslocamento temporal e numa das tentativas, funde o seu DNA com o de uma mosca, tornando-se um monstro num processo gradativo, não apenas físico, mas psicológico, evolução que também aponta a transformação de um herói em antagonista, uma das tantas estratégias dramáticas de um filme que mescla o grotesco com a beleza de seus personagens tão bem delineados. Como apontado anteriormente, o documentário é didático ao começar com o segmento “Larva”. É a concepção do roteiro, inspirado no conto homônimo publicado numa edição da revista Playboy em 1957. A história já tinha se transformado em narrativa cinematográfica no clássico A Mosca da Cabeça Branca, uma versão que ganhou tratamento turbinado em sua refilmagem. Os realizadores retomam a versão que serve como ponto de partida e a editam num breve emaranhado das principais partes. É um resumo para compreendermos o que era a versão anterior e o que o filme dos anos 1980 iria se tornar.

Basicamente, na experiência do clássico, o homem e a mosca trocam as cabeças. O desfecho não deixa de ser trágico, com uma pegada um tanto absurda, típica do cinema de Vincent Price. Era uma história que também deixava de lado o protagonista, isto é, o cientista inconsequente, tornando-se um enredo focado nos impactos da experiência com a sua esposa. Os produtores da versão que iria parar na mesa de Cronenberg não queriam a troca de cabeças. Era preciso ir mais profundo nesse contexto, afinal, a tradução intersemiótica dos anos 1950 seguiu o conto em eu passo a passo, diferente da repaginada da versão em questão. Depois desta apresentação preambular, o cineasta Robert Brieman conta a tragédia responsável por fazê-lo sair da produção, o produtor narra as dificuldades em conseguir financiamento para distribuição e do primeiro roteiro ao texto que se tornou a versão final cronenberguiana, acompanhamos as histórias peculiares dos envolvidos nesta história sobre mutação e identidade.

Há um trecho de tempo considerável dedicado ao processo de filmagem das cenas com a locação giratória, inspirada em Fred Astaire, algo que permitiu ao personagem de Goldblum, andar pelas paredes como uma mosca, bem convincente. A maquiagem também se faz presente, bem como os cortes até a chegada à versão final, as passagens que trouxeram incertezas para os envolvidos, dentre outros detalhes comuns aos documentários de bastidores. Mark Irwin e Chris Wallas falam de direção de fotografia e efeitos especiais, respectivamente, sendo a fotografia um trecho muito mais breve que os demais setores narrativos abordados. A lealdade de David Cronenberg com a sua equipe, o desinteresse do cineasta por storyboards, os ensaios nas locações, as peças coladas nos cenários gerenciados pelo design de produção de Carol Spier, tendo em vista não cair quando houvesse a filmagem dos trechos giratórios, dentre tantos outros extensos momentos de contemplação dos bastidores estão na formação de “Pupa” e logo mais, em “Metamorfose”, trecho mais enxuto, focado no lançamento e na recepção deste filme que segundo os depoimentos dos envolvidos, apresenta uma história ainda muito atual e instigante.

Medo da Carne: Larva/Pupa/Metamorfose (Fear on The Flash: The Making-Of of The Fly) — Canadá, 2005
Direção: David Prior
Roteiro: David Prior
Elenco: Geena Davis, Jeff Goldblum, Chris Wallas, Mark Irwin, Stuart Cornfeld, Carol Spier, Charles Edward Pogue,
Duração: 162 min.

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