Crítica | Medo Profundo (2007)

Os crocodilos de água salgada são os maiores repteis existentes na atualidade, segundo os documentários da National Geographic sobre o assunto. Habituados a circular por zonas costeiras de mar aberto, bem como rios e estuários, tais animais possuem força descomunal e geralmente ceifam a vida de suas vítimas na primeira dentada. Apesar de assustadores, os seres humanos estão constantemente interessados no contato com estas criaturas. Em Darwin, por exemplo, os turistas podem ficar de frente aos crocodilos dentro de um tubo cilíndrico de vidro, mergulhado para que os pagantes possam ver os animais movimentados pela comida jogada como incentivo.

É este mesmo desejo por aventura que move o interesse da indústria em realizar filmes com animais assassinos. Depois de Pânico no Lago, realizado em 1999, os crocodilos deram um intervalo no cinema e voltaram de maneira impactante em dois lançamentos contemporâneos, Morte Súbita e Primitivo, ambos de 2007, realizados com orçamento razoável e elenco de atores mais prestigiados que as produções geralmente independentes e com elenco desconhecido, algo mais habitual nas narrativas de horror ecológico. Medo Profundo, deste mesmo período, foi lançado nas condições descritas: custos baixos, trama atrelada ao realismo e com poucos efeitos visuais pomposos, num filme mais conectado com a construção do suspense e a tensão psicológica de seus personagens.

Dirigido e escrito pela dupla de australianos David Nerlich e Andrew Traucki, a produção aborda os crocodilos numa perspectiva de espaço cênico limitado, isto é, a ação desenvolvida num determinado trecho de um pântano, com um trio de turistas perseguido pelas feras assassinas que dominam muito bem o tal ambiente. O sucesso da fórmula pode ser visto em Predadores Assassinos, exemplar mais recente dos répteis no cinema. São tramas sobre o instinto de sobrevivência e a força dos seres humanos diante de situações atípicas e assustadoras, contadas do lado de lá da tela e contempladas por nós do lado de cá, na segurança de nossas poltronas.

A trama se estabelece da seguinte maneira: na Austrália, duas irmãs decidem pescar com o marido de uma delas e um guia turístico. Ao longo do trajeto, encontram inesperadamente um crocodilo interessado em torna-los a refeição do dia. O grupo é formado por Grace (Diana Glenn), Adam (Andy Rodoreda), Lee (Maeve Dermody) e Jim (Ben Oxenbould), o guia que se torna parte da dieta réptil poucos minutos após o começo do filme. Dentro de um barco pequeno demais para uma área tão cheia de espécies selvagens, o trio é arremessado para as águas lamacentas do pântano e precisa garantir a sobrevivência entre as árvores, sem sinal ou esperança da chegada de socorro.

Visualmente, Medo Profundo é um filme eficiente. Há poucos recursos na seara dos efeitos visuais, mas ainda assim, o filme convence, pois muitas cenas foram realizadas com animais verdadeiros. A direção de fotografia de John Biggins cumpre bem a sua função estética ao enquadrar o pântano de maneira a deixar o ambiente com aspecto inóspito para seres humanos. A representação dos crocodilos por meio do POV é relativamente frequente, imagens acompanhadas pela condução musical de Rafael May. Os efeitos de Andrew Traucki, também responsável pelo roteiro e direção garantem bons momentos para os bichos, delineados pelo design de produção de Aaron Crothers.

Ademais, a produção de 90 minutos, em termos de tensão, poderia ser mais intensa, mas ainda assim é uma experiência inquietante e positiva para o subgênero horror ecológico. A edição, assinada por Rodrigo Balart, ajuda no processo de “esconde e aparece” dos crocodilos, dando ritmo ao filme que talvez devesse ter alguns poucos minutos a menos, haja vista a história limitada. Conduzido pelo imaginário que constantemente dialoga com a relação entre seres humanos e a natureza, filmes como Medo Profundo continuarão a surgir em momentos distintos da história do cinema. A realidade está sempre alimentando tais embates e o fascínio da humanidade pela maneira como a natureza se revela diante de nossos olhos.

Medo Profundo (Black Water) — Austrália, 2007.
Direção: David Nerlich, Andrew Traucki
Roteiro: David Nerlich, Andrew Traucki
Elenco: Diana Glenn, Maeve Dermody, Andy Rodoreda, Ben Oxenbould, Fiona Press
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.