Crítica | Medo Profundo – O Segundo Ataque

Parte integrante da “retomada” dos filmes de tubarões, subgênero que já passou por reciclagens desde que Tubarão, em 1975, estabeleceu determinadas regras para os filmes de monstros. Fascinantes, os tubarões talvez sejam os animais “mais midiáticos”, haja vista a quantidade de filmes em que aparecem como personagens, bem como as referências jornalísticas que tratam dos seus incidentes com seres humanos. Para se ter uma ideia, há poucos meses, um estudo apontou que ao menos nos Estados Unidos, a explicação para os constantes ataques é a superpopulação de focas nas zonas costeiras, algo que tem atraído tubarões-brancos para a região, o que consequentemente, promove os encontros entre as pessoas que insistem em nadar, mesmo com os alertas de perigo.

Sendo assim, integrantes da memória midiática recente, os tubarões tornam-se animais “inesquecíveis”, num feixe de discursos que colaboram com a sua permanência na cultura cinematográfica, pois tal como visto em Águas Rasas, quando bem trabalhado, o subgênero ainda pode render filmes dramaticamente interessantes e empolgantes enquanto entretenimento. Continuação do sucesso de 2017, Medo Profundo – O Segundo Ataque é uma narrativa cheia de potencial, mas que prefere desperdiça-los em prol do puro espetáculo de horror ecológico, menos intenso e mais desinteressante que os recentes exemplares do tema.

Com Johannes Roberts na direção, o mesmo comandante do filme anterior, também responsável pelo roteiro, escrito em parceria com Ernest Riera, a produção trata de um grupo de jovens inconsequentes que ao mergulhar numa zona pouco explorada, encontram tubarões prontos para torna-las as suas próximas vítimas. Para o desenvolvimento da história, temos Mia (Sophie Nélisse) e os seus dilemas, dramaticamente pouco convincentes. Ela sofre bullying onde estuda, alvo dos abusos de algumas garotas fúteis na entrada e saída do estabelecimento. O filme começa com uma delas empurrando a jovem numa piscina. Contida, a garota vai para casa ensopada, sem revidar diante do comportamento abusivo de suas colegas estudantes.

Quem vê tudo com desprezo e não faz nada para ajudar é Sasha (Corinne Fox). Elas moram no mesmo lar depois que Mia é enviada para morar com o pai, Grant (John Cobertt). Atual esposo de Jennifer (Nia Long), mãe de Sasha, as jovens vivem uma tensa relação de irmãs. Pacata, Mia não consegue estabelecer uma boa relação diante da antipatia de Sasha. Isso vai mudar no passeio que tornará as suas vidas um verdadeiro inferno subaquático. Grant e Jennifer, cientes da necessidade de aproximá-las, marcam um passeio para que ambas se divirtam num barco turístico que tem como missão de entretenimento, permitir a visualização de enormes tubarões após o derramamento de engodo no mar. Desinteressadas, as jovens partem para outra aventura.

Duas amigas de Sasha são as responsáveis pelos novos rumos: Alexa (Brianne Tju) e Nicole (Sistine Rose Stallone), todas de etnias diferentes, numa trama “politicamente engajada”, pois temos a negra, a asiática, a mexicana e a estadunidense branca. Elas aparecem na saída do passeio de barco e levam as duas “irmãs” para um local mais inusitado. Uma tumba numa gruta submersa que foi descoberta recentemente. Ao chegar, nadam, divertem-se, investigam o espaço e decidem avançar um nível a mais do jogo e conhecer a região subaquática. Aparentemente misteriosa por conta da escuridão, os caminhos inicialmente percorridos são tranquilos, até que uma delas mexe com um peixe diferente e no susto, se bate numa coluna que despencam, mantendo-as presas ao local.

As coisas ficam mais complicadas quando tubarões-brancos, há eras enclausurados naquele espaço, aparecem para fazer tornar tudo mais aterrorizante. Eles não possuem acesso à luz e por isso, são albinos, característica inerente aos seres que não fabricam melanina em suas estruturas corpóreas, substância produzida para proteção contra radiação solar ou artificial. As criaturas não enxergam, mas possuem excelente audição. O fato de não enxergar bem nada impede os ataques, pois diferente das garotas, eles dominam o espaço. É quando começa o “show de horrores”, isto é, o insistente uso de jumpscare, a reiteração dos diálogos ruins e o nosso desinteresse pelos desdobramentos da narrativa, pois diferente do filme anterior, aqui não nos importamos com as personagens, planas como uma tábua.

Para nos contar a sua história, Medo Profundo – O Segundo Ataque traz Mark Silk na direção de fotografia, profissional responsável pelos eficientes planos gerais, situacionais e bem empregados, além do uso de ângulos zenitais para ampliar a sensação de medo diante da aproximação dos tubarões em determinadas cenas de ataque. O uso constante do POV não é inserido na perspectiva das criaturas assassinas, mas sob o ponto de vista das personagens diante da escuridão. Sem saber de onde e como os tubarões estabelecerão os seus ataques, nós, espectadores, ocupamos o lugar das personagens. Assim, precisamos lidar com os sustos constantes com as aparições repentinas, exaltadas com os famosos ferrões sonoros e mudança frenética da posição da câmera.

A dupla Tomandandy assume mais uma vez a trilha sonora, também adequada para o material apresentado. A textura percussiva oferta ao público instrumentos musicais em dissonância, junções propositadamente elaboradas para a sensação de desconforto, em paralelo com os sintetizadores. O design de som, inicialmente eficiente, trabalha bem os diálogos comprimidos e abafados, ideais para o ambiente cênico em que a narrativa passa mais de 70% da narrativa. O único “porém” disso tudo é o trabalho de som em torno de diálogos tão desinteressantes. Os efeitos visuais assinados pela equipe de Andrew Burrow funcionam bem, mas apresentam-se limitados e pouco interessantes, pois os tubarões albinos não são “carismáticos”, tampouco assustadores.

Alguns momentos entre o meio e o desfecho são empolgantes, tensos, mas os excessos e a falta de empatia desde a abertura tornam os esforços pontuais pouco envolventes. Como já apontado, o roteiro investe mal nas heroínas, o que torna mais da metade da narrativa um desperdício dramático que só não torna Medo Profundo – O Segundo Ataque um filme de tubarão menor por conta do diretor mais renomado, bem como a sua produção esteticamente mais sofisticada que os exemplares tóxicos do nicho de Tubarões da Areia, Tubarão Fantasma, dentre outros. Faltou muito mais empenho para tornar tudo uma franquia antológica interessante. Se haverá mais um filme, não sabemos, mas a continuação em questão não pavimentou um bom caminho para isso.

Medo Profundo – O Segundo Ataque — (47 Meters Down: Uncaged/Estados Unidos, 2019)
Direção: Johannes Roberts
Roteiro: Ernest Riera, Johannes Roberts
Elenco: Brec Bassinger, Brianne Tju, Corinne Foxx, Davi Santos, John Corbett, Khylin Rhambo, Nia Long, Sistine Rose Stallone, Sophie Nélisse
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.