Crítica | Megarromântico

“A vida não é um conto de fadas.”

Há anos que uma massa de comédias românticas já busca a subversão do gênero. Megarromântico, por exemplo, começa com a canção-homônima de Uma Linda Mulher, marcante na voz de Roy Orbinson, apenas para contrariar completamente os preceitos expostos no clássico dos anos 90. Quem assiste à televisão em que a própria obra está passando é, no entanto, uma menina rechonchuda, que tem seus sonhos despedaçados pela intromissão de sua mãe, rompendo as esperanças dessa garota de que, algum dia, o amor virá a surgir no corpo de um jovem Richard Gere. Por que a salvação – como no clássico – tem que nascer do homem? Por que o amor não pode aparecer de maneiras misteriosas, quiçá um toque de mágica e universo paralelo? Megarromântico, portanto, principia uma coerente abordagem do empoderamento feminino pelo olhar, corpo e até personalidade de uma mulher gorda, encarnada por Rebel Wilson.

O que nenhum A Escolha Perfeita entendeu totalmente, essa obra compreende melhor. Mesmo sendo uma comédia romântica, o longa-metragem deve ser um dos mais espirituosos quebradores de clichês dos últimos anos, conciliando sua premissa com um contínuo olhar coeso, tanto na direção quanto no texto, acerca do pensamento de Todd Strauss-Schulson, compartilhado com as três mulheres que assinam o roteiro. Consegue fazer isso justamente com a sua narrativa, em que a protagonista acaba se transportando para um universo paralelo em que o mundo se comporta como no cinema romântico norte-americano e, obviamente, todos os seus vícios brotam em cena. O charmoso roteiro não precisava, contudo, explicar verborragicamente todas as brincadeiras propostas, o que tira um pouco da naturalidade dessa contraposição da nossa realidade com a artificialidade cinematográfica. Em contrapartida, a direção dá um toque importante ao argumento.

Megarromântico contém uma excelente configuração de cores, pontuada pela direção de arte, que busca, no contraste entre mundos, consequentemente diferenciar possibilidades para a cidade de Nova Iorque, uma que é imaginária e outra que é concreta. Por isso que o texto, e uma quantidade razoável de piadas – em que Natalie, a protagonista, questiona esse novo mundo -, não precisava se apegar muito numa noção óbvia de antítese. A Nova Iorque das comédias românticas é vistosa, colorida, com pessoas arrumadas e um senso de encantamento constante. Os diálogos evidenciam um tratamento de roteiro, as coreografias são espontâneas – em excelentes sequências musicais -, e os arquétipos não são naturais ao mundo: o amigo que é gay, o galã que vai salvar a mocinha de todos os problemas – e sonhos – e a arqui-rival no escritório. Quando compara-se tais visões paralelas, a coerência da competente execução cinematográfica é exposta.

Já no mundo real, as pessoas não são estereótipos. O grande diálogo conclusivo, a exemplo, renega partir para um sentimentalismo melodramático, contudo, continua a enxergar aquela realidade enquanto realidade, que continuará a existir após os créditos subirem. Já o outro mundo, que Natalie enfrenta para, no seu arco, retomar uma crença no amor, é mentiroso. O amor pode não existir como as telas de cinema sugerem que eles existam, porém, não necessariamente inexiste como uma força nova, mais singular. Se o roteiro aceita não explorar narrativamente essas características, como a arqui-rival de escritório – o que até mesmo enfraquece o enredo do filme -, a comédia continua funcionando na sucessão de críticas esportivas às comédias românticas. Liam Hemsworth, em uma outra instância, remete mais ao seu irmão, o que é um grande elogio em termos cômicos. Esse é o caso de paródia que não morre dentro da paródia por si só, mas avança.

Megarromântico é uma ode sincera ao empoderamento que prevê à Natalie. Ao percebermos como o projeto olha para a sua própria protagonista, notamos a verdade que Todd Strauss-Schulson traça para o discurso, sem se pautar em um conteúdo supostamente subversivo, mas raso. O seu longa é realmente esperto em muitas passagens. Usa a estrutura física de Rebel Wilson de um modo engrandecedor, sem vergonha do corpo da atriz. Enquanto A Escolha Perfeita 3, um exemplo mais recente de fracassos no passado da artista, preferia criar um estereótipo na presunção de uma subversão, Megarromântico permite a atriz se amar, ao passo que o longa em si passa a amá-la. Cria-se, então, uma mensagem honesta. Do atropelamento jocoso no começo, a comédia alcança um auge com a maratona em câmera lenta no término. Quando o amor próprio existe, e com uma crença real nas imagens, o cinema consegue ser mais verdadeiro na subversão.

Megarromântico (Isn’t It Romantic) – EUA, 2019
Direção: Todd Strauss-Schulson
Roteiro: Erin Cardillo, Dana Fox, Katie Silberman
Elenco: Rebel Wilson, Adam Devine, Liam Hemsworth, Priyanka Chopra, Betty Gilpin, Brandon Scott Jones, Jennifer Saunders, Alex Kis, Big Jay Oakerson, Rao Rampilla, Marcus Choi
Duração: 88 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.