Crítica | Memória em Branco

Apesar de acontecer a todo instante, nós apenas nos damos conta de determinados tipos de tragédia quando algo ocorre com alguém bem próximo ao nosso convívio. Assaltos com agressões e vítimas fatais, brigas entre vizinhos ou até mesmo entre familiares que termina em morte, estupros, acidentes de trabalho e de trânsito, este último, um dos maiores problemas urbanos do Brasil. Desta maneira, nos encontramos diante de outro grande “porém”: às vezes só entramos numa militância quando gravemente atingidos pelas ditas ironias do destino.

Dirigido e escrito por Natália Florentino, estudante de Jornalismo da Faculdade Metodista de São Paulo, sob orientação do professor Wesley Carlo, Memória em Branco narra a triste existência das chamadas Ghost Bikes, isto é, memoriais fixados em locais onde acidentes envolvendo ciclistas ocorreram, algo que deveria funcionar como um aviso, um ato educativo, mas muitas vezes passa desapercebido, haja vista outro grande problema do povo brasileiro em relação ao trânsito: a falta de educação e sensibilidade com o “outro”, principalmente quando falamos de ciclistas, pessoas vistas dentro do arquétipo do bon vivant por muitos condutores “ignorantes”.

Sem o tom amador que demarca muitas produções acadêmicas descuidadas, tampouco trilha absurdamente lacrimejante e imagens sensacionalistas típicas do jornalismo contemporâneo, Memória em Branco traz depoimentos de ciclistas, líderes de movimentos pelo aumento das ciclovias, bem como os familiares de um jovem chamado “Gustavo”, morto bem jovem, aos 23 anos, vítima que teve a vida ceifada por conta de uma indesejada “irresponsabilidade, não fatalidade”, tal como narra cheia de emoção a sua avó, melancólica diante da perda irreparável. A mãe do jovem, também entrevistada, alega que consegue diminuir gradualmente o impacto da dor e do luto com ações em prol de outras vítimas, além da luta pela questão da “bicicleta pelas vias da cidade”.

Natália Florentino, colaboradora do roteiro, escrito em parceria com Gabriel Mendes e Júlia Centini também assumiu a edição da produção, num trabalho que teve como direcionamento a pesquisa de André Varella, Danielly Pereira e Iago Martins. A sensação ao final é de reflexão profunda, juntamente com o desejo de mais informações, oriundas, talvez, de um filme no formato longa-metragem que tenha como propósito consiga ampliar mais os depoimentos e pavimentar o campo de produções críticas sobre a celeuma do trânsito no Brasil, um dos piores do mundo.

Como toda produção informativa e de caráter um tanto pedagógico, Memória em Branco traz logo em seus primeiros momentos o caminho no qual os entrevistados acham que o problema teria a chance de ser resolvido, isto é, a discussão nas malhas da lei, algo que infelizmente é um pantanoso terreno cheio de falhas. Se a lei não pune e funciona de maneira rasteira, os indivíduos não conseguem se educar e refletir sobre as consequências. Um entrevistado reforça que o Brasil precisa urgentemente de ações efetivas que tornem a bicicleta um meio não apenas alternativo, mas parte integrante e central da mobilidade urbana.

Num tom preocupado, Ives Zanetti, geógrafo que utiliza a bicicleta como meio de transporte, aponta que no trânsito, “os ciclistas são os mais fracos”, depoimento que mais adiante é complementado com a denúncia de que não é a proibição dos carros o foco dos simpatizantes das ciclovias, mas a preocupação das pessoas que transformam o carro numa arma, questão muito bem discutida em outro documentário sobre trânsito, Luto em Luta, certeiro nas discussões sobre os problemas que envolvem a mobilidade nos centros urbanos e a violência dos condutores.

O setor de captação de imagens é bem eficiente, ao registrar diversas ghost bikes implantadas ao redor da cidade de São Paulo, numa prova cabal da quantidade absurda de acidentes que envolvem ciclistas e condutores de carros.  São memoriais que pintam as bicicletas envolvidas com uma tinta branca, adornam com flores, fitas, etc. Com o tempo os adereços caem, mas as bicicletas ficam lá, fixas, numa tentativa de reforçar a mensagem de horror diante da questão que ainda tem muito que avançar no Brasil em termos de legislação e conscientização social.

Produzido em 2017, Memória em Branco informa que no ano de sua veiculação, os acidentes com ciclistas mortos aumentou 75% em relação aos anos anteriores, um dado absurdo e que pede reflexão por parte dos diversos setores que movimentam a sociedade, desde os órgãos estatais aos projetos particulares ou sem fins lucrativos da sociedade civil. O movimento que surgiu nos Estados Unidos em 2002 e ganhou projeção em diversos locais do mundo, sendo também tema do documentário acadêmico Ghost Bikes – Uma Experiência Multimídia.

Memória em Branco (Brasil – 2017)
Direção: Natália Florentino
Roteiro: Gabriel Mendes, Natália Florentino
Elenco: Maurício Januzzi, Gilberto Demestein, Marcos Tibiriça, Renato Botelho, Renata Winkler, Bernardo Tanis, Marcia Marzocchi, Heródoto Barbeiro
Duração: 08 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.