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Crítica | Memórias de Ontem

por Luiz Santiago
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Memórias de Ontem é a animação que o Mestre Yasujiro Ozu teria dirigido. Em mais esta belíssima obra do Studio Ghibli acompanhamos Taeko, uma mulher de 27 anos que ainda não se casou — algo que na cultura japonesa, no tempo em que a aventura se passa, é motivo de grandes cobranças. Taeko está pensativa. Em sua viagem de Tóquio a Yamagata, no interior do país, onde visita a família da irmã durante a colheita anual de açafrão-bastardo, ela começa a questionar o seu momento atual e a comparar com o que “tinha que enfrentar” quando era criança.

Escrito e dirigido por Isao Takahata, baseado no mangá de Hotaru Okamoto e Yuuko Tone, Memórias de Ontem representa um daqueles momentos-labirinto onde comparamos a intensidade massacrante dos dias presentes com a doçura (e também as amarguras) dos dias de infância, sem ter exatamente algum tipo de conclusão definitiva, grande lição de moral ou de vida derivadas desse pensamento. Takahata consegue resistir a esse tipo de desfecho para a personagem principal e utiliza de maneira bastante inteligente as cenas entre o passado e o presente, criando ligações simbólicas na montagem e aproveitando a passagem de um tempo para o outro a fim de deslocar Taeko de lugar em suas férias na fazenda.

A reflexão da protagonista surge de um afastamento de sua realidade comum. Ela dilui a sua fragilidade do momento na sensação de liberdade que essa viagem ao campo lhe traz e seu comportamento se aproxima, em encanto, àquele que ela tinha quando criança. Desse modo, lembranças do passado e resoluções sobre o presente se juntam e ajudam a protagonista a subir mais um degrau de maturidade, utilizando desses dias férias para olhar para coisas que não estava muito acostumada a olhar e para considerar sentimentos que não imaginava ter. Parece-nos que só com a visita do passado é que Taeko pode ficar livre o bastante para enxergar com outros olhos a sua vida atual e, a partir desse novo olhar, tomar algumas decisões.

A sensação de deslocamento e até mesmo de incômodo do indivíduo parece ser o centro das percepções de mundo na obra. Taeko não parece muito confortável em seu ambiente urbano e só quando chega no campo é que encontra um maior conforto. O seu presente recebe cores com maior contraste na fotografia, em oposição ao brilho e sutileza das cenas em seu passado, com o diretor deslocando a personagem da paisagem numa finalização artística mais frágil, similar a aquarela. Essa atmosfera de fuga e deslocamento chega a tal ponto que a trilha sonora de Memórias de Ontem viaja para o Leste Europeu a fim de encontrar a sua identidade. Canções e ritmos tradicionais da Hungria, Romênia e Bulgária são utilizados no filme e intensificam o sentimento de não-pertencimento ao mesmo tempo que, paradoxalmente, faz com que tudo pareça se encaixar muito bem, criando algo verdadeiramente novo.

As memórias do que Taeko viveu ontem são, na verdade, a sensação de nostalgia por aquilo que ela vive hoje: um momento de amadurecimento que faz com que ela se veja deslocada, algo similar à sua percepção do mundo quando era criança. E exatamente como naquele momento de primeiras experiências (o abacaxi, a viagem aos banhos, o namoradinho do colégio — que gera uma das cenas mais belas e mais ternas do filme) ela agora se dá conta de que tem algo novo dentro de si. Um sentimento recíproco de amor. Assim como as personagens femininas do Mestre Ozu, Taeko viveu a pressão pelo seu casamento, passou por experiências escolares marcantes e mostrou-se para nós muitas vezes com a câmera no tatame, presa, confinada a um espaço. Agora adulta, ela sente a liberdade do campo e faz de mente e coração em paz a escolha que guiará a sua vida dali para frente. As incertezas das memórias de ontem colhendo os frutos da vida no amanhã.

Memórias de Ontem (Omohide poro poro) — Japão, 1991
Direção: Isao Takahata
Roteiro: Isao Takahata (baseado no mangá de Hotaru Okamoto e Yuuko Tone)
Elenco: Miki Imai, Toshirô Yanagiba, Yoko Honna, Mayumi Izuka, Mei Oshitani, Megumi Komine, Yukiyo Takizawa, Masashi Ishikawa, Yuuki Masuda, Michie Terada, Masahiro Ito, Yorie Yamashita, Yuki Minowa, Chie Kitagawa, Koji Goto
Duração: 118 min.

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