Crítica | Men & Chicken

estrelas 4,5

São mínimas as possibilidades de um espectador que entre na sessão de Men & Chicken (2015) conseguir imaginar o rumo que o filme irá tomar ao longo da narrativa. E que rumo! Escrito e dirigido por Anders Thomas Jensen, que retorna à direção depois e 10 anos, Men & Chicken é um exercício cômico, selvagem e científico sobre a vida em toda e qualquer forma possível; sobre as relações fraternas extremadas e sobre as possibilidades e limites da ciência, trazendo à tona questões como bioética e legitimidade dos experimentos científicos, ou melhor, se alguns experimentos podem ser considerados científicos (com a seguinte pergunta: experimentar isso para quê? Que benefício isso traria para a humanidade?) ou apenas produto de uma mente perturbada, porém, genial.

O filme foi bem recebido em seu país (dada a escalação de alguns dos maiores astros da Dinamarca na atualidade: Mads Mikkelsen, irreconhecível aqui; Nikolaj Lie Kaas; Nicolas Bro; David Dencik e Søren Malling) e tem conquistado parte da crítica internacional pela mescla que faz de A Ilha do Dr. Moreau, de H.G.Wells, com comédias pastelão, ética, comportamentalismo e conceitos de humanidade. Acusado de ser preconceituoso com pessoas de lábio leporino, o filme na verdade presta uma homenagem à vida e clama o respeito por todos, independente de sua aparência e origem.

Ao acompanharmos a história dos irmãos Gabriel e Elias, a descoberta que fazem sobre não terem o pai biológico que imaginavam e o encontro chocante com seus outros três meio-irmãos (Franz, Josef e Gregor) o diretor nos coloca de frente para cinco comportamentos diferentes, um pequeno laço sanguíneo e máximas familiares capazes de colocar por terra qualquer definição estatal anacrônica do que é e de como deve ser uma família. Considerando os desejos, decepções e habilidades de cada um dos irmãos, o roteiro destaca as delicadezas e selvagerias desse grupo familiar, tratando-os com respeito e mostrando como é possível a integração, aprendizado e intensificação de laços entre as mais improváveis pessoas.

A narrativa flui tão bem, que o espectador não percebe o passar do tempo. A montagem de Anders Villadsen torna atrativa a sequência de estranhezas, cria uma espécie de suspense em dois momentos distintos da história e ainda logra apresentar, com bastante sucesso, paralelismos narrativos que adicionam uma carga emotiva inesperada na fita. A família, como núcleo afetivo e para a qual algum tipo de dever deve ser observado, vem à tona nesse momento e o que se segue é a confirmação de uma bizarra atitude do patriarca que já havíamos aludido algum tempo antes no filme.

A excelente escolha para o local das filmagens, a relação do elenco com os animais, a maquiagem, os figurinos e a trilha sonora bem utilizada marcam a obra, criando um aparato técnico coerente com o que é narrado e que ao mesmo tempo sofre mudanças críveis na história, sem revolucionar desnecessariamente os comportamentos ou moralizar a atitude dos personagens, estabelecendo condenações e cobrando uma certa punição para as criaturas vistas em cena. O final é tão surpreendente quanto a concepção e discussões levantadas na história, tirando o debate de cena e substituindo-o pela felicidade, pela a convivência e pelo o amor em conjunto; tudo isso dentro de uma perspectiva humana e evolutiva jamais imaginada. Um belo e inesperado desfecho que faria orgulhoso o Dr. Victor Frankenstein.

Men & Chicken (Mænd & høns) — Dinamarca, Alemanha, 2015
Direção: Anders Thomas Jensen
Roteiro: Anders Thomas Jensen
Elenco: David Dencik, Mads Mikkelsen, Nikolaj Lie Kaas, Søren Malling, Nicolas Bro, Stine Engberg Andersen, Rikke Louise Andersson
Duração: 104 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.