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Crítica | Menina de Ouro

por Ritter Fan
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Menina de Ouro não é um filme de boxe ou sobre boxe ou qualquer outra luta que não seja a luta de simplesmente viver. O 25º longa-metragem cinematográfico dirigido por Clint Eastwood que, como Os Imperdoáveis, merecidamente levou quatro estatuetas do Oscar, inclusive os de Melhor Filme e Melhor Diretor, é um triunfo de estudo de personagens em um recorte íntimo, delicado e emocionante que nunca se vale de exageros ou sentimentalismo barato para passar sua singela mensagem.

Em essência, são apenas três personagens. Frankie Dunn (Eastwood) é um treinador de boxe de idade avançada que tem uma academia caindo as pedaços em Los Angeles onde mora seu amigo e ex-pupilo Eddie Scrap-Iron Dupris (Morgan Freeman), que faz as vezes de zelador, ajudante e, também, de narrador de maneira muito semelhante ao trabalho do ator em Um Sonho de Liberdade. Nesse ambiente masculino e decadente, eis que chega a jovem garçonete caipira Maggie Fitzgerald (Hilary Swank) desejando treinar com Frankie, mesmo com ele repetidamente dizendo que não treina garotas. Scrap é que, vendo ali uma luz, uma esperança na escuridão, precisa convencer o amigo a dar uma chance à jovem, o que acaba reacendendo uma chama antiga em Frankie.

O relacionamento entre Frankie e Maggie, que as lentes de Eastwood carinhosamente constrói, não é amoroso, porém. Tampouco é algo que se poderia chamar de pai e filha, mesmo que haja contornos inegáveis disso. Há algo mais profundo ainda ali, uma co-dependência difícil de explicar, mas que Maggie sintetiza ao dizer, depois que os dois visitam a asquerosa da mãe dela (vivida por Margo Martindale), com um simples “você é tudo que tenho”. Maggie vê em Frankie sua liberdade, liberdade de ter a chance de perseguir uma vida que não seja a de uma garçonete que, sem dúvida alguma, acabaria exatamente como sua mãe, morando em um trailer e vivendo de ajuda governamental. Frankie, por sua vez, carregando uma culpa nos ombros relacionada a Scrap que mesmo sua visita diária à Igreja por 23 não consegue expiar, tem em Maggie uma espécie de salvação espiritual, mas não exatamente de absolvisão, e sim algo como sua última chance de sorrir e respirar aliviado, provavelmente por ter conseguido ter feito algo de sua vida.

Eastwood, o diretor, extrai atuações primorosas de todos. Swank faz o trabalho de sua vida como a jovem esperançosa que não quer muito mais da vida do que ter uma chance de triunfar. A forma como Maggie olha para Frank é um misto de reverência e agradecimento, da mesma forma que ela consegue transmitir amor genuíno, como uma criança olhando com orgulho para seu pai, sem a exata consciência de que esse sentimento é mais do recíproco. Mas não é só a química entre a atriz e Eastwood que funciona bem, pois uma das cenas mais tocantes da obra é quando Maggie e Scrap conversam em um restaurante sobre Frankie, em que vemos a atriz, praticamente imóvel, entregar-se tão completamente ao seu papel, convencendo-nos tão profundamente de seu mergulho em seu personagem, que esquecemos que estamos vendo um filme. Freeman, por seu turno, é o Grilo Falante por excelência, o sábio que enxerga muito claramente a situação olhando de fora para dentro e narrando-a daquele jeito que só o ator consegue. Já mencionei Um Sonho de Liberdade, mas vale mencionar novamente, pois seu papel em Menina de Ouro é inegavelmente muito semelhante ao de Red, o amigo inseparável que compreende profundamente o sujeito de sua observação. As outras duas estatuetas do Oscar, de Atriz e Ator Coadjuvante, também foram cirurgicamente entregues aos dois.

No entanto, a Academia falhou ao não premiar Eastwood, apesar da indicação ao prêmio de Melhor Ator. Se ele já merecera a estatueta por seu trabalho em Os Imperdoáveis, aqui ele alcança seu ponto mais alto na carreira de ator. Frankie Dunn é um homem externamente durão como a grande maioria dos personagens vividos por Eastwood, mas, em Menina de Ouro, o espectador percebe muito claramente que essa aparência inquebrantável cobra um enorme e desproporcional preço que afasta o personagem do mundo e de interações humanas mais relevantes do que sua conexão com Scrap. Como é o mote do longa, em nenhum momento o espectador recebe essas informações sobre seu passado de maneira mastigada em uma bandeja de prata. O roteiro de Paul Haggis é muito mais inteligente que isso e torna a presença do padre Horvak, vivido por Brían F. O’Byrne, como o sinalizador mais didático dessa condição do protagonista que vai muito além de seu passado com Scrap. E os momentos finais do longa – que não descreverei aqui para manter a crítica livre de spoilers – entregam exclusivamente à Eastwood a função de fazer a obra funcionar sem pieguices, algo que ele sensacionalmente consegue ao terminar de transformar seu irredutível Frankie em um conduíte de amor, vida e busca por algum tipo de felicidade.

Na direção, Eastwood é igualmente cuidadoso e delicado, transformando o ginásio de Frankie no coração pulsante de seu longa, o lugar onde tudo de mais relevante acontece como um verdadeiro personagem. É ali que a desesperança e a solidão abrem espaço para a esperança e a conexão, com a música composta pelo diretor sublinhando essa transformação. Mas as sombras são muito importantes em Menina de Ouro. Elas estabelecem estado de espírito e marcam o começo e o fim da obra com uma fotografia irretocável de Tom Stern (se dependesse de mim, ele também teria levado o Oscar em sua categoria) que está ao lado de Eastwood desde sua estreia nessa cadeira em Dívida de Sangue. Usando muita luz natural e deixando as sombras tomarem completamente a narrativa em alguns momentos, por vezes até mesmo escondendo os atores – reparem na iluminação fenomenal da sequência em que Maggie e Frankie conversam no carro ou as longuíssimas sombras nas sequências finais -, banhando-os em um ar de melancolia e desesperança que tornam qualquer filete de luz uma verdadeira dádiva divina a ser aproveitada ao máximo enquanto durar.

Não sei se Menina de Ouro é o melhor filme dirigido por Eastwood, considerando pelo menos Sobre Meninos e Lobos e Os Imperdoáveis nesta contenda, mas o longa certamente parece ser o mais maduro e mais humano de todo o vasto conjunto do trabalho do ator transformado em cineasta. Um triunfo audiovisual que encanta e emociona sem ditar sentimentos e sem jamais trair sua proposta.

Menina de Ouro (Million Dollar Baby, EUA – 2004)
Direção: Clint Eastwood
Roteiro:  Paul Haggis (baseado em contos de F.X. Toole)
Elenco: Clint Eastwood, Hilary Swank, Morgan Freeman, Jay Baruchel, Mike Colter, Lucia Rijker, Brían F. O’Byrne, Anthony Mackie, Margo Martindale, Riki Lindhome, Michael Peña, Benito Martinez, Grant L. Roberts, Bruce MacVittie, David Powledge, Joe D’Angerio, Aaron Stretch, Don Familton
Duração: 132 min.

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