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Crítica | Menino de Engenho, de José Lins do Rego

por Luiz Santiago
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Romance memorialista, o primeiro de José Lins do Rego, Menino de Engenho foi lançado em 1932 e custeado pelo próprio autor, ganhando rapidamente seu lugar na literatura brasileira dentro do prosa de 30, na segunda fase do Modernismo no país. Menino de Engenho é também um marco importante na bibliografia do escritor paraibano, porque inicia um ciclo de volumes que posteriormente seriam batizados de “Ciclo da Cana de Açúcar de JLR“, onde o autor retratou o fim do poderio dos engenhos de cana no Nordeste, dando lugar às usinas. Essa temática segue desenvolvida nos livros Doidinho (1933), Banguê (1934), O Moleque Ricardo (1935), Usina (1936) e Fogo Morto (1943), este último, considerado a obra-prima do autor.

O narrador-personagem de Menino de Engenho é Carlos, que rememora os eventos de sua vida entre os 4 e os 12 anos de idade, do momento em que se muda do Pernambuco para viver no engenho Santa Rosa, do avô José Paulino, na Paraíba. Ao longo dos 40 capítulos o leitor tem contato com nuances narrativas diferentes em seu ponto de vista, obedecendo as memórias e o discernimento do mundo de um garoto à medida que ele vai crescendo, descobrindo coisas e perdendo a inocência. Esse critério é também aplicado à sua opinião sobre as pessoas e sua relação com elas, especialmente nos casos de tia Sinhazinha (que no final faz até um carinho na cabeça do menino) e tia Maria (a segunda mãe do protagonista).

Menino de Engenho começa com uma tragédia, um evento que marcará psicologicamente a vida de Carlos, trazendo-lhe no futuro períodos de grande melancolia, de intenso medo da morte e da mais profunda tristeza causada pela morte da mãe. Como ainda era criança quando tudo aconteceu, Carlos não consegue guardar ódio do pai. Em dado momento da história, quando alude a questões religiosas, o menino acredita que o pai irá para o céu e até tem pena dele, “jogado no hospital“. Esses sentimentos do menino são expostos sem nenhum tipo de vergonha ou forte julgamento moral, vestindo as roupas de sua idade e daquilo que ele vivera até aquele momento, bem como de seu contexto social e período histórico.

Pensamentos sobre a divisão de classes, o papel dos negros e dos senhores de engenho, a vida dos miseráveis, os castigos e outros exercícios de justiça ganham aqui cores típicas de um olhar de criança para tudo o que assiste, abrindo uma excelente discussão sobre como a violência pode ser vista como um caminho heroico por algumas crianças, que vão imitar essa atitude dos parentes, dando continuidade ao ciclo de horrores. Em Menino de Engenho vemos descortinado o modo de vida da Zona da Mata nordestina, com construções sociais que vão do machismo e patriarcalismo enraizados aos desmandos e desordens políticas que parecem atingir com mão pesada apenas aqueles que não possuem dinheiro algum.

No bloco final da obra, quando Carlos chega aos 12 anos e está prestes a ir para o Colégio Interno, vemos um desabrochar precoce e intenso em sua vida, quando descobre o sexo e se vê louvado pelos homens à sua volta. Ele mesmo diz que tudo parece ter mudado, que as negras não mais silenciavam as conversas quando ele chegava (coisa que faziam quando uma criança entrava na cozinha) e que os homens do engenho viviam fazendo piadas de sua doença venérea, claramente com uma pontada de orgulho. Todo o escopo de formação desse garoto, das brincadeiras com os primos e filhos dos ex escravos à observação dos estragos causados pelo período de cheia do rio ou da partida de alguém que se ama são abordados nesse livro com uma imensa autenticidade, capturando o leitor da primeira à última página.

Menino de Engenho é uma história de amadurecimento cheia de ritos, de cortes metalinguísticos (na presença da maravilhosa velha Totonha, a contadora de histórias da região) e reflexos sociais da verdadeira cara do Brasil, da relação entre a Casa Grande e a Senzala, tendo aí também elementos de memórias do próprio autor, que viveu uma infância muito similar à de seu protagonista. Uma jornada de perda da inocência e de conhecimento do mundo no interior do Brasil.

Menino de Engenho (Brasil, 1932)
Autor: José Lins do Rego
Edição lida para esta crítica: José Olympio — 110ª edição (abril de 2010)
192 páginas

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