Crítica | Mentes Perigosas (1995)

MENTES PERIGOSAS PLANO CRITICO 1995

Há professores operam mudam a vida dos seus estudantes. Certamente você já teve o seu (ou os seus). Em Mentes Perigosas, narrativa dramática dirigida por John N. Smith, lançado em 1995, a professora Louanne Johnson (Michelle Pfeiffer) adota práticas nada ortodoxas em busca de estabelecimento do contato com os seus alunos, para depois, ajuda-los no processo de transformação social que todos nós ainda buscamos nos dias atuais. Pedagógico e bem estruturado como narrativa dramática de apelo para o grande público, o filme nos questiona sobre até que ponto um professor pode interferir no desenvolvimento intelectual e social de um estudante.

Com roteiro de Ronald Blass, baseado nos registros do livro My posse don´t dp Homework, de Louanne Jonhson, Mentes Perigosas foi lançado numa época de altos índices de desemprego nos Estados Unidos, sendo um filme que dialoga bastante com a realidade local: estudantes negros, asiáticos ou latinos de baixa renda que recebem a pior educação possível, tendo em vista a região em que moram, geralmente o Brooklyn, ambiente que de acordo com o imaginário construído pelo cinema, encontra-se sempre devastado pela tríade tráfico de drogas, pobreza e violência.

No filme, uma ex-oficial da marinha abandona a vida militar para realizar um sonho há tempos recalcado: ser professora de inglês. À primeira vista, ela sente um impacto extremamente profundo: a fúria dos estudantes que a recebem de forma muito desagradável na sala de aula. O espaço é apresentado como um verdadeiro caldeirão símbolo do multiculturalismo é rodeado de tensões. Cada pedacinho do espaço é afetado por pontos nevrálgicos dos mais variados.

Um dos conflitos maiores é vencer a indisciplina da turma. Sendo assim, nervosa diante da situação, Louanne decide adotar métodos não convencionais para conquistar os seus estudantes, visto como a escória da escola, seres humanos condenados a receber a pior educação possível, principalmente se alguma mudança depender dos gestores da instituição, burocráticos e reacionários. Após desafiar o currículo e quebrar alguns paradigmas, a professora consegue mostrar aos estudantes que o conhecimento deve ser utilizado como uma espécie de arma intelectual que tenha como finalidade prepará-los para os obstáculos da vida, entretanto, para operar as mudanças ela precisa encontrar um caminho para outros problemas, tais como achar papel, lápis e canetas para o desenvolvimento do seu planejamento e das eventuais atividades.

Um dos momentos mais cativantes situa-se no trecho em que a professora instiga os estudantes à realização da pesquisa. Através de um concurso literário envolvendo um poema de Dylan Thomas e uma canção de Bob Dylan, os estudantes questionam-se qual o prêmio por aquele desafio. A professora responde que o prêmio é “aprender”. E no andamento do processo, ela começa a perceber que se fizer um esforço maior, conseguirá atingir os seus objetivos. Ao conjugar o verbo “tentar” diariamente, Louanne encontra o equilíbrio que esperava para fazer as coisas funcionarem melhor em sala de aula.

Outro momento intertextual, desta vez implicitamente, está na preocupação da professora com a evasão escolar. Ao visitar dois estudantes que deixaram de frequentar as suas aulas, Louanne é subitamente “expulsa da república” pela avó dos estudantes, uma pessoa que considera poesia como o “lixo que a branquela está ensinando aos meus meninos”. Há um paralelo com o texto do clássico da filosofia A República, de Platão. A obra chegou aos tempos atuais está subdividida em doze livros que mostram diversos diálogos socráticos que giram em torno da República e os debates considerados necessários para a formação de uma cidade efetiva.

A expulsão dos poetas teria como fim afastar os cidadãos das más influências e de conhecimentos que não iriam formar a pessoa para cumprir o seu papel na “polis” grega. No filme, esse conceito ganha o mesmo contorno. A avó não acredita em poesia, pois o imediato é trabalhar para sobreviver. Apesar de desolador e entristecedor, tal fato apresenta-se como uma realidade nossa não muito distante.

Ao longo dos seus 99 minutos de duração, Mentes Perigosas se mostra eficaz na discussão da importância do professor para mediar o conhecimento e promover a mudança na vida de determinados estudantes. Ao focar na postura esperta da professora, a produção também levanta outro questionamento: “ser esperta é ser perigosa?”. De acordo como o diretor e a coordenadora a recebem, parece que sim. As suas ideias oriundas de uma mente perigosa (talvez uma ótima alusão ao título do filme) deixa implícito que a professora talvez estivesse ido longe demais, alguém muito avançada dentro de um painel de profissionais experientes que provavelmente já teriam desistido de tentar mudar as coisas ou tenham cedido aos ditames da escola.

Em certo momento do filme, os estudantes perguntam: “por que você se importa conosco?”. Contundente, Louanne responde: “porque eu resolvi me importa”, frisando que não é pelo dinheiro, afinal, “nem é tanta grana assim!”. Se inicialmente a professora revela para os gestores que “os estudantes não sabem nem o que é um verbo”, mais adiante ela apresenta os resultados da sua luta. Cidadãos mais motivados e perseverantes no que tange um “lugar ao sol” numa sociedade que os oprimem cotidianamente.

Para o professor, fica a reflexão: faça a diferença. Ser diferente não é querer (e pretender) ser melhor que o seu colega, nem se tornar o ícone do exibicionismo na sala de aula, mas fazer a sua parte para tornar o campo educacional melhor, haja vista o panorama desolador que é a educação não só nos Estados Unidos, nem no Brasil, mas ao redor do planeta. Ao suscitar ideias, sem necessariamente ter a pretensão de fechá-las, Mentes Perigosas oferece ao espectador uma reflexão profunda sobre o papel do professor, mais precisamente na importância do incentivo como combustível para o desenvolvimento intelectual.

Mentes Perigosas (Dangerous Mind, Estados Unidos – 1995)
Direção: John N. Smith
Roteiro: Ronald Bass
Elenco: Bruklin Harris, Courtney B. Vance, George Dzundza, Michelle Pfeiffer, Robin Barlet
Duração: 99 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.