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Crítica | Meu Amigo Totoro

por Ritter Fan
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A mente fervilhante de Hayao Miyazaki, depois de criar, escrever e dirigir Nausicaä do Vale do Vento, o longa que permitiu a fundação do Estúdio Ghibli, e O Castelo do Céu, a primeira produção oficial de sua fábrica de sonhos, embarcou em uma jornada espiritual intimista dando azo a idealizações de infância e ao animismo tão querido da cultura japonesa, resultando em uma das mais memoráveis obras de sua carreira que transformou a criatura mágica do título em um dos símbolos da rica cultura nipônica. Meu Amigo Totoro, porém, mesmo fincando suas raízes em solo japonês, vai muito além das fronteiras de seu país de origem e consegue ser ao mesmo tempo atemporal e universal tanto no que se refere a seus personagens, quanto à sua viagem pela imaginação de duas adoráveis irmãs, representando a inocência e a doçura da infância.

Satsuki e Mei Kusakabe, com enternecedoras vozes originais de Noriko Hidaka e Chika Sakamoto, são as referidas irmãs de, respectivamente, 10 e quatro anos que se mudam com o pai professor para o interior do país para ficarem próximas a uma clínica de tratamento onde sua mãe doente está internada. Já durante a mudança, e sem perder tempo, o roteiro de Miyazaki insere seu componente mágico-imaginativo ao introduzir “poeirinhas” – ou espíritos caseiros chamados de susuwatari – que fogem na medida em que os cômodos são explorados pelas pequenas, mas que são encaradas por elas de forma substancialmente natural, efetivamente inserindo as crianças em seu próprio e fascinante mundo. Em seguida, com Satsuki na escola e o pai enfurnado em seu trabalho, a pequena Mei passa o dia livre e alegremente explorando a linda região ao redor da casa, até que ela se depara com estranhas e fofíssimas criaturas que a acabam levando até Totoro (Hitoshi Takagi), a versão gigante, peluda, gorda, preguiçosa, fofa e imediatamente relacionável dos bichinhos que ela vira anteriormente, iniciando uma aventura pela imaginação que logo atrai sua irmã.

Não há inimigos ou ameaças na narrativa que não seja a doença da mãe, de certa forma mantida à distância, mas sempre presente como uma nuvem sombria na vida das meninas e do pai que vai para Tóquio para trabalhar todos os dias de ônibus. Com isso, Miyazaki quebra a estrutura clássica do que esperamos de um longa-metragem, transformando seus idílicos e irresistíveis 86 minutos em uma sucessão de situações por que passam as meninas, dentre elas o angustiante desaparecimento de Mei, sem preocupar-se com rigidez narrativa e, como é sua marca registrada, sem trazer “explicações” para a presença das criatura por ali e toda a magia que principalmente Totoro manifesta, incluindo a dança que faz a vegetação crescer e, claro, o inigualável Nekobasu (Naoki Tatsuta), ou Gato-Ônibus, possivelmente uma das mais originais criações que já tive o prazer de me deparar em animações.

A estética da animação é, como já ficou claro pelos meus comentários anteriores, um absoluto triunfo da imaginação, algo que o longa deve muito a Miyazaki, mas também a Kazuo Oga, o diretor de arte dos Estúdios Ghibli, então ainda desconhecido, que se enamorou por uma arte de seu chefe e embarcou de peito aberto no projeto, desenvolvendo não só os seres mágicos, como, também, toda a ambientação rural do pós-guerra que é outra inestimável qualidade da produção dada a variedade de locais – pontes, plantações, florestas, templos, a casa dos Kusakabe, o hospital e assim por diante – e a serenidade e beleza com que são retratados. Acompanhando e enriquecendo ainda mais a beleza visual, há a inebriante trilha sonora de Joe Hisaishi, com algumas canções com vocais deslumbrantes de Azumi Inoue que não só dão o tom alegre e mágico para a obra, como representam como poucas a alegria de ser criança.

É o roteiro livre de amarras narrativas rígidas e enganosamente simples em sua estrutura que abre espaço para que o espectador aprecie Meu Amigo Totoro sem expectativas e vendo o mundo pelos olhos das irmãs amorosamente unidas por sua conexão natural, mas temerosas pelo futuro da mãe, e protegidas por seu pai e vizinhos, além de claro, as criaturas sobrenaturais que “assombram” a região. É também essa abordagem eminentemente visual e sonora que derrete nossos corações e nos acalenta a cada nova conferida da obra exatamente como o barrigão peludo de Totoro faz Mei dormir gostosamente em sua toca na floresta. Meu Amigo Totoro é um terno abraço audiovisual em todos que tiverem o privilégio de assisti-lo.

Meu Amigo Totoro (Tonari no Totoro – Japão, 1988)
Direção: Hayao Miyazaki
Roteiro: Hayao Miyazaki
Elenco: Noriko Hidaka, Chika Sakamoto, Shigesato Itoi, Sumi Shimamoto, Hitoshi Takagi, Toshiyuki Amagasa, Tanie Kitabayashi, Naoki Tatsuta, Chie Kōjiro, Hiroko Maruyama, Masashi Hirose, Machiko Washio
Duração: 86 min.

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