Crítica | Meu Eterno Talvez

“Esse é o Keanu Reeves?”

Seguindo uma reestruturação das comédias românticas americanas, propiciando mais espaço para atores de ascendência asiática estrelarem as suas produções, vide Doentes de Amor e Podres de RicosMeu Eterno Talvez ganha lugar no streaming. Em essência, porém, esse projeto em questão não tem muita diferença em comparação com as mais insignificantes romcoms da espécie que a Netflix anda produzindo. É uma clássica história de amor, encobrindo alguns sub-textos sociais que basicamente não engrenam, e que por si só também não se impulsiona como uma boa história de amor. Na premissa, dois grandes amigos do passado, interpretados por Ali Wong e Randall Park, reencontram-se após quinze anos separados, rompimento que aconteceu após eles, pela primeira vez, transarem. O presente, contudo, é muito distante daqueles tempos antigos, visto que Sasha, vivida por Ali, agora é uma chef de cozinha internacionalmente renomada, e Marcus, vivido por Randall, continua morando com o seu pai, arranjando trampos enquanto permanece tentando alavancar a sua banda. Por algum motivo, no entanto, tais personagens são feitos um para o outro.

O maior problema de Meu Eterno Talvez, porém, não reside na simplicidade dos eventos narrados, que não chegam em reviravoltas inesperadas e caminhos imprevisíveis, mas seguem uma receita conhecida. Nem mesmo na questão da temática social, que não precisa ser assumida por nenhum projeto – apesar de, aqui, ser presente e não funcionar nenhum pouco. Do contrário, a noção de problemática se inicia por essa ser uma obra que não se permite sustentar minimamente os seus laços dramáticos mais simples, como a ruptura da amizade, a consequente retomada do amor e química prevista. Basicamente nenhuma vertente do longa, dentre as apresentadas posteriormente à superior introdução dos protagonistas como crianças, é executada com propriedade. Marcus, por exemplo, é uma pessoa extremamente amedrontada. Já Sasha é mais propensa a mudanças, renovações. Os contrastes são notáveis e o que restaria seria o amor. Nahnatchka Khan não tem, porém, nada substancial para nos tornar nostálgicos a quando os dois eram amigos. Pois o mais concreto momento é o da rixa, criando um estranhamento, que continua presente no resto da obra.

Esse gigantesco mal, a inexistência de uma paixão assumida pelo roteiro e pela direção, não mora, contudo, no elenco principal, que parece realmente se divertir em cena quando os protagonistas precisam se entreter. Entretanto, origina-se um antagonismo, em primeira instância, entre esses personagens que soa imensamente mentiroso. Com isso, cria-se uma fundamentação questionável para todo o relacionamento ser até uma possibilidade. Sasha e Marcus não voltam a ser amigos prontamente, no entanto, existe um processo necessário de revitalização daquilo que se perdeu. O ressentimento entre eles, porém, não tem muitas motivações convincentes para se concretizar. Sasha simplesmente começa a zombar do seu antigo melhor amigo por ele estar arrumando a sua casa, contratado para realizar alguns serviços na luxuosa residência da garota. A comédia traz um contraste entre classes sociais – e, mais para frente, um comentário sobre gentrificação – que não tem a menor sensibilidade por parte do roteiro e da direção. A costura da obra, nesta confusão de tom e ritmo, impedidos de guiarem o romance a tomar jeito, termina priorizando piadas individuais.

É nesse sentido que surge Keanu Reeves como o grande astro do longa-metragem. Ele é a única coisa que permitirá a comédia ser verdadeiramente marcante, em uma grande sequência que parece ser parte de uma outra produção. O ator interpreta a si mesmo como sendo um caso romântico da protagonista. Para se ter uma ideia do quão antipático torna-se Randall Park, o seu personagem simplesmente começa a antagonizar Keanu. Como um ser humano pode não se encantar com o ator? Mas, obviamente, o roteiro, que até compreende a mística que rodeia o artista, precisa seguir a trajetória comum das comédias românticas: um combate enciumado entre as partes românticas. Enquanto Podres de Ricos também seguia uma estrutura mais familiar, mas traçava uma proposta realmente inteligente por meio de uma narrativa pouco incomum, este exemplar não consegue almejar essa mesma sagacidade para traçar qualquer comentário social esperto. A maioria do conteúdo que reveste a obra, portanto, é contraditória, inorgânica. Mas quiçá o longa-metragem seja digno de tua atenção pela presença de Reeves, porém, só por isso mesmo.

Meu Eterno Talvez (Always Be My Maybe) – EUA, 2019
Direção: Nahnatchka Khan
Roteiro: Michael Golamco, Ali Wong, Randall Park
Elenco: Ali Wong, Randall Park, James Saito, Michelle Buteau, Vivian Bang, Keanu Reeves, Susan Park, Daniel Dae Kim, Karan Soni, Charlyne Yi, Casey Wilson, Miya Cech
Duração: 101 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.