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Crítica | Meu Nome é Coogan

por Ritter Fan
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Meu Nome é Coogan, uma espécie de faroeste urbano estrelado por Clint Eastwood como um xerife do Arizona com direito a chapéu, gravata de corda e botas de caubói que vai caçar um bandido em plena Nova York não é nem de longe um de seus melhores filmes, mas é um dos longas definidores da carreira do ator. Não só é aqui que sua prolífica parceria com o diretor Don Siegel começaria, como seu personagem, Walt Coogan, marca o primeiro passo para a construção de sua persona clássica pós-Sergio Leone, ou seja, é o começo da transformação do calado e estoico Homem Sem Nome na figura do policial violento capaz de fazer qualquer coisa para alcançar seu objetivo, algo que ganharia sua versão final com seu Harry Callahan em Perseguidor Implacável três anos depois.

A história é simplíssima: depois de um prelúdio que marca o único momento do filme em que Coogan empunha uma arma, o xerife-adjunto é enviado a Nova York para trazer de volta o assassino James Ringerman (Don Stroud). Tudo dá errado e começa uma investigação e uma caçada não-sancionada pela polícia local que coloca em choque os métodos mais, digamos, diretos de Coogan e a burocracia novayorkina, o que é refletido também nas abissais diferenças de comportamento entre o protagonista e praticamente todos os habitantes da cidade.

Diferente do que se poderia imaginar, porém, o roteiro que passou por diversas transformações ao longo da pré-produção, com Eastwood já revelando sua propensão em imiscuir-se em todos os aspectos de um filme, tem uma leve e simpática carga de humor que começa com a estrutura de “estranho numa terra estranha” que é Coogan vestido de caubói em uma cidade moderna que o olha com curiosidade, o que gera diversas brincadeiras e piadinhas leves que ele responde com sarcasmo. Além disso, chega a ser inadvertidamente hilário como todas as personagens femininas que dividem a tela com Eastwood – de qualquer idade – desmancham-se por Coogan em momentos que fariam os espectadores atuais, esperando papes femininos fortes, fumegarem de raiva. No entanto, isso acrescenta à aura exótica que o filme carrega e que Siegel sabe trabalhar muito bem nos dois calmos terços iniciais, tornando o longa, normalmente classificado como um thriller, muito mais uma drama policial de pano de fundo cômico.

Outro aspecto interessante é que, apesar de se passar em Nova York, Siegel evitas as obviedades turísticas da cidade. Com exceção das tomadas aéreas e do uso funcional do prédio da Pan Am por ser o heliponto da linha de helicópteros usada por Coogan para chegar à cidade, o restante da ambientação se dá acima da rua 100, onde fica a delegacia, e até mais além no Coogan’s Bluff do título em inglês (que, claro, é um jogo de palavras com o nome do protagonista), um promontório entre as ruas 155 e 160 e o Cloisters, seção medieval do Museu Metropolitano muito pouco conhecido por não novayorkinos e quase que literalmente no final da ilha e que é o cenário para a perseguição final. Essa escolha evita distrações e mantém o filme focado em Coogan, apesar de ficar no coração da selva de pedra que é a cidade.

Eastwood, a essa altura de sua carreira hollwoodiana – ou seja, basicamente o começo efetivo – ainda atuava sem atuar, ou seja, apenas usando sua aparência, sua altura e seu charme para tirar de letra personagens construídos ao redor de sua persona de maneira que ele tivesse o mínimo de trabalho possível. Apesar de ele nunca ter se mostrado um grande ator, ele evoluiu muito desse ponto ainda muito básico e elementar de seu trabalho dramático em que seus papeis eram basicamente fungíveis. No entanto, já é possível perceber sua capacidade de adaptação, já que as cenas levemente cômicas são auto-conscientes e só funcionam como funcionam em razão do ator.

Meu Nome é Coogan diverte porque não se leva muito a sério, resultando em uma agradável diversão descompromissada que marca o momento em que a carreira americana de Eastwood realmente começa a decolar. É quase como testemunhar o “Elo Perdido” entre o pistoleiro caladão dos western spaghetti e o policial porradeiro dos thrillers que viriam a seguir.

Meu Nome é Coogan (Coogan’s Bluff, EUA – 1968)
Direção: Don Siegel
Roteiro: Herman Miller, Dean Riesner, Howard Rodman (baseado em história de Herman Miller)
Elenco: Clint Eastwood, Susan Clark, Don Stroud, Tisha Sterling, Betty Field, Lee J. Cobb, Tom Tully, James Edwards, Melodie Johnson, David F. Doyle, Rudy Diaz, Meg Myles, Louis Zorich, Marjorie Bennett, Antonia Rey, Seymour Cassel, Albert Popwell
Duração: 93 min.

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