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Crítica | Meu Pai

por Iann Jeliel
5061 views (a partir de agosto de 2020)

Meu Pai

O aspecto mais chamativo de Meu Pai, especialmente com relação aos demais filmes que abordam protagonistas com alguma deficiência física ou mental, é ter sua forma adequada à deficiência abordada (no caso, o Alzheimer), em que a experiência fílmica tenta de alguma maneira recriar através da imagem o sentimento de se estar com ela para que o espectador sinta mais empatia pelo referido deficiente. No entanto, se essa escolha teoricamente garantiria uma maior proximidade ao personagem debilitado em termos de drama, na prática não traz exatamente esse efeito. Porque no fim das contas, o jogo difuso criado pela montagem com as memórias do protagonista sendo revividas em ordem não cronológica acaba desviando a atenção que deveria ser destacada à dramática de sua decadência, potencializada pelo seu ponto de vista.

A história é sobre ele, mas não necessariamente é contada sob o seu ponto de vista. Porque se realmente fosse, o filme apostaria mais no efeito que tão bem sabe simular de desnorteamento mental até o momento em que sincronizasse com a conscientização iminente do personagem sobre sua condição. Em outras palavras, a narrativa não deveria ser tão didática ao contar constantemente o que ela está simulando. Se a cada bloco o filme precisa se afirmar sobre sua forma para não perder totalmente o público em sua confusão, perde-se parcialmente o sentido de adotar essa estilística. Existe o intuito de fornecer a informação com clareza para que haja um certo tom de denúncia ao tratamento dessas pessoas, além de fornecer a perspectiva desgastada de quem cuida delas. Contudo, creio que uma ou duas vezes mencionada com mais sutileza era necessário para deixar isso subentendido, uma vez que a própria montagem também sabe ser didática em contexto temporal. Quando se reforça isso cinco ou mais vezes, desgasta o intuito principal do choque vindo a compreensão do efeito, que acaba sendo entendido muito cedo, enquanto sua construção engole em prioridade a frente dos conflitos mais íntimos nos quais poderia estar uma força secundária de drama.

Claro, existe a intenção de se fazer ambas as coisas em conjunto. No entanto, faltou tato na direção de Florian Zeller em adaptar a linguagem teatral para algo mais condizente com o audiovisual. Tratando-se de seu primeiro filme no cinema, baseado em um material fonte do próprio realizador, fica evidente de onde surgiram as incongruências. No teatro, essa simulação através da cenografia faz muito mais sentido enquanto recurso de transpor o ponto de vista do deficiente, afinal, a linguagem de teatro não possui a mesma liberdade que o cinema, que pode por exemplo organizar e reordenar tudo com a pós-produção. Logo, a não linearidade do teatro é explicitamente planejada – o que justifica o constante didatismo. Assim, no caminho de valorizar essa linguagem de origem, Meu Pai acaba escancarando demasiadamente seu plano em busca de um efeito puramente imediatista, tal como o teatro realmente busca. Tanto que não demora muito para que os ciclos criados de confusões entre as memórias se fechem, retificando em divisão de “atos” da peça o impacto de estar cada vez mais perdido nas memórias.

Na verdade, os recursos cinematográficos estão ali para deixarem o planejamento teatral ainda mais seguro de eficácia, como realça o parâmetro passivo da lente, escolhendo sempre um modo mais simples de filmar seus grandes monólogos. Planos gerais fixos, entrecortados ao fim de cada fala. Nada de câmeras circulares em planos-sequência, transições elaboradas ou algo que dificulte o processo de sequenciamento do planejamento inicial.  É possível nesse contexto desvendar até porque a atuação de Anthony Hopkins é tão soberba. Pensando num filme que já não é linear e que suas filmagens possivelmente também não foram realizadas de maneira linear, a tarefa dificílima de expor ao público um arco sequencial de decadência parece fácil ao veterano. Mais ainda porque consegue ser sentida como consequência da escolha de forma, mesmo que ela não seja para fornecer seu ponto de vista. A força do ator é tamanha que valoriza mais a espontaneidade da confusão mental a que a direção e o roteiro jamais correspondem.

Olivia Colman, por exemplo, já encontra uma maior dificuldade de fazer com que a dor íntima, frequentemente escanteada no texto por uma suposta sutileza de guardar sua perspectiva, já que o filme não é sobre ela, tenha força. A personagem é mais um bom gatilho do que um bom contraponto – algo que vale para os outros do elenco, funcionais somente para o jogo inicial de confusão de memórias em que o personagem imagina seus rostos no corpo de outras pessoas –, quiçá uma boa personagem com suas próprias questões desenvolvidas. Essas que ficam muito subentendidas, algo compatível se a intenção fosse realmente não ser sua história, mas que na prática acaba também sendo, pelo que o filme se porta enquanto observador, ao invés de totalmente participante. No fim das contas, a mecânica descrita na forma como Meu Pai se constrói acaba sendo essa faca de dois gumes. É possível comprar a ideia pela inegável boa encenação particular, várias cenas isoladamente muito boas, contudo, ao fornecer pistas de mais para a montagem do quebra-cabeça, desvendamos também as etapas do efeito, tornando-o artificial ou, no mínimo, não tão espontâneo quanto deveria. Meu Pai

Meu Pai (The Father | Reino Unido – Irlanda do Norte, 2020)
Direção: Florian Zeller
Roteiro: Christopher Hampton, Florian Zeller
Elenco: Olivia Colman, Anthony Hopkins, Mark Gatiss, Olivia Williams, Imogen Poots, Rufus Sewell, Ayesha Dharker, Roman Zeller
Duração: 97 minutos

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42 comentários

Allison Teixeira 22 de abril de 2021 - 16:11

Corajosa crítica.
Gostei de ver um contraponto em meio a tantos elogios.
O filme é excelente, mas não achei tudo isso também não.

Responder
Iann Jeliel Pinto Lima 23 de abril de 2021 - 15:04

Tenho essa fama hehehe

É sempre bom oferecer contrapontos, enriquece o debate. Com certeza, não fui o único a não achar isso tudo.

Responder
Iann Jeliel Pinto Lima 23 de abril de 2021 - 19:04

Tenho essa fama hehehe

É sempre bom oferecer contrapontos, enriquece o debate. Com certeza, não fui o único a não achar isso tudo.

Responder
Críticas – Meu Pai (2020), Amor e Monstros (2020), Nomadland (2020), Minari – Em Busca da Felicidade (2020) – Blog do Rogerinho 22 de abril de 2021 - 15:52

[…] Meu Pai (The Father | Reino Unido – Irlanda do Norte, 2020)Direção: Florian ZellerRoteiro: Christopher Hampton, Florian ZellerElenco: Olivia Colman, Anthony Hopkins, Mark Gatiss, Olivia Williams, Imogen Poots, Rufus Sewell, Ayesha Dharker, Roman ZellerDuração: 97 minutos […]

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Felipe Brandon 22 de abril de 2021 - 10:13

Vc disse o que eu iria dizer. A atuação de Anthony Hopkins está soberba nesse filme. Meu deus que atuação perfeita.
O filme não está a altura dessa atuação. Eu entendi a ideia e também o que a direção quis passar. Mas didatismo não era a saída, na real esse filme funcionaria melhor se não explicasse nada e o espectador ficasse por si só ainda mais agoniado pela situação triste do Anthony.

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Iann Jeliel Pinto Lima 23 de abril de 2021 - 19:06

Com certeza o filme não é a altura de sua atuação. E concordo totalmente, seri um filme bem melhor se não explicasse nada e fosse apenas a agonia do Anthony.

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Gabriel Filipe 19 de abril de 2021 - 22:44

Bom, pra mim é um filmaço e o Anthony está impecável, sobre o didatismo, até entendo seu ponto, mas não foi oq eu senti, eu comsegui ficar desnorteado e ao mesmo tempo entender o ponto de vista da personagem, oq acredito, ter sido a intenção do diretor. Geralmente, a teatralidade me incomoada muito, algo que n aconteceu nesse filme. Não vi mts filmes desse Oscar (acabei demorando mt pra ver), ent não posso dizer q é o meu favorito, mas gostaria mt que ganhasse

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Iann Jeliel Pinto Lima 29 de abril de 2021 - 21:38

Certamente foi a intenção, mas acho ela contraditória nessa preocupação exacerbada dele com a forma. A teatralidade, nesse sentido não agrega e olha que gosto bem desse estilo de filme.

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Thiago Henrique 18 de abril de 2021 - 23:43

Muito boa a crítica. Ainda não vi o filme então não sei dizer se concordo, mas a opinião apresentada tá muito bem argumantada na crítica.

Outra coisa: vai rolar uma crítica de Nomadland?

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Iann Jeliel Pinto Lima 19 de abril de 2021 - 16:36

Obrigado amigo! Feliz que gostou do texto!

Vai rolar sim, sai essa semana tudo relacionado do Oscar.

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Diário de Rorschach 14 de abril de 2021 - 21:49

Que atuação fenomenal do Hopkins e que filmaço, nota máxima pra mim fácil.

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Iann Jeliel Pinto Lima 19 de abril de 2021 - 16:37

Boa! Feliz que curtiu tanto, queria ter saído com o mesmo sentimento. Mas sim, a atuação do Hopkins é excelente, mas a novidade nisso, eu não vejo, o cara é um monstro sempre!

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Diário de Rorschach 19 de abril de 2021 - 17:59

Triste pensar que ele tem apenas 1 Oscar

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Diário de Rorschach 19 de abril de 2021 - 21:59

Triste pensar que ele tem apenas 1 Oscar

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planocritico 19 de abril de 2021 - 22:35

Muito mais triste é lembrar que Peter O’Toole morreu sem levar Oscar algum que não fosse o de consolação, mais conhecido como o Oscar honorário. E tem mais uma boa dezena de exemplos do gênero só do lado de ator…

Abs,
Ritter.

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Diário de Rorschach 20 de abril de 2021 - 22:31

Sim claro

Iann Jeliel Pinto Lima 29 de abril de 2021 - 21:39

Agora tem 2 hehehe

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João 13 de abril de 2021 - 17:46

Acho esse filme incrível. No lugar de apelar para um melodrama ou um filme explicativo sobre a doença (não é nada explicativo, se não me engando não fala sequer o nome da doença), o diretor prefere ser objetivo e mostrar aos olhos de quem tem a doença. É uma experiência única. Florian (que está sendo muito subestimado) coloca vários momentos ambíguos que a gente não sabe se é real ou não. Todos os aspectos técnicos vão bem. Melhor filme dos indicados, na minha opinião. Sem falar da atuação do Anthony Hopkins, que é fantástica.

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Iann Jeliel Pinto Lima 19 de abril de 2021 - 16:40

Não fala o nome da doença, mas diz a todo momento que ela existe e reforça na forma que está emulando ela. Acho sim, o filme expositivo e foi meu problema principal com ele. Não é melodramático, mas ele se preocupa tanto com essa emulação que perde a concentração no drama. Coloco na conta da direção inexperiente mesmo, se isso é subestima-lo não sei, mas não o indicaria a categoria no Oscar. Agora, Hopkins é inquestionável mesmo, ele tá sempre muito bem e aqui não é diferente!

Responder
João 13 de abril de 2021 - 17:35

Acho esse filme incrível. No lugar de apelar para um melodrama ou um filme explicativo sobre a doença o diretor prefere ser objetivo e mostrar aos olhos de quem tem a doença. É uma experiência única. Florian (que está sendo muito subestimado) coloca vários momentos ambíguos que a gente não sabe se é real ou não. Todos os aspectos técnicos vão bem. Melhor filme dos indicados, na minha opinião.

Responder
Eisler Faria 12 de abril de 2021 - 19:45

Não concordo com a opinião do crítico. Excelente filme, com excelente direção, interpretaçoes, fotografia e trilha sonora. Melhor filme recente.

Responder
Iann Jeliel Pinto Lima 14 de abril de 2021 - 17:06

Todo seu direito de discordar! Feliz que achou tão bom assim!

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Alan 12 de abril de 2021 - 12:43

Excelente filme, para mim um dos melhores de 2020 (e começo de 21) e contando que ainda é uma direção estreante e adaptado do teatro. Já estou no aguardo do Filho. Atuações excelentes. Um deleite esse filme.

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Iann Jeliel Pinto Lima 12 de abril de 2021 - 18:50

Que bom que gostou tanto! Pra mim, foi um bom filme, não muito mais do que isso.

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Rodrigo 11 de abril de 2021 - 20:21

Na minha modesta opinião o melhor filme do Oscar, faltando ver só 2 indicados. E sir. Anthony Hopkins merece todos os aplausos…

Responder
Iann Jeliel Pinto Lima 12 de abril de 2021 - 11:11

Acho justo. Prefiro ver todos os indicados pra definir meu favorito. Ontem era Bela Vingança, hoje é Nomadland. Ainda falto ver 3 hehe

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O Homem do QI200 11 de abril de 2021 - 19:38

Gostei muito do filme e a atuação do Anthony Hopkins é espetacular.

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Iann Jeliel Pinto Lima 12 de abril de 2021 - 11:10

Soberba mesmo! Ainda prefiro Chad, mas é essa está entre as melhores atuações de sua carreira!

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Celso Ferreira 11 de abril de 2021 - 18:31

Não podem estar falando sério ao dar apenas bom pra um filme desse.

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Iann Jeliel Pinto Lima 12 de abril de 2021 - 11:09

Leia o texto e vai saber o porquê meu querido. Se você fica só na nota é difícil…

Responder
Lúcia Maria 11 de abril de 2021 - 15:36

Achei o filme excelente.

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Iann Jeliel Pinto Lima 11 de abril de 2021 - 17:26

Feliz que gostou tanto!

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Victor Martins 11 de abril de 2021 - 13:39

Discordo. Não sei se entendi muito bem seu ponto, mas eu não acho que o filme seja didático, longe disso, e acho que as escolhas tomadas pelo diretor foram certeiras porque de fato o filme não é, e não deveria ser, sobre a personagem da Olivia Colman.

E por mais que seja, é um filme que tem sua intenção escancarada mesmo, e não vejo o menor problema disso.

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Iann Jeliel Pinto Lima 11 de abril de 2021 - 14:06

Acho justo. Pra mim prejudicou no efeito de desnorteamento. Eu até acho que o filme pode ser didático, mas que fosse mais sútil nesse didatismo, trabalhasse somente com a montagem e teatralidade.

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Cahê Gündel 🇦🇹 USEM PFF2 11 de abril de 2021 - 15:08

Ia comentar exatamente isso, e pra mim é o melhor filme dentre os oito indicados.

Responder
Iann Jeliel Pinto Lima 11 de abril de 2021 - 17:28

Ainda não vi todos, mas dos que vi, meu favorito por enquanto é Bela Vingança.

Responder
Iann Jeliel Pinto Lima 11 de abril de 2021 - 17:28

Ainda não vi todos, mas dos que vi, meu favorito por enquanto é Bela Vingança.

Responder
Victor Martins 11 de abril de 2021 - 19:35

O filme não precisa de sutileza. A intenção é justamente te jogar dentro do horror que é a situação que o personagem está passando.

A atuação do Hopkons é extraordinária. Gostei muito da do Chadwick e ficarei feliz com sua vitória (Se Rami Malek ganhou por usar dentadura, ele pode ganhar tbm), mas o Hopkins merecia mais.

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Iann Jeliel Pinto Lima 12 de abril de 2021 - 11:13

Prefiro o Chat ainda. É a melhor atuação de sua carreira e Hopkins já teve outras que mereceu mais. De qualquer forma, sigo discordando sobre não precisar de sutileza, acho que a própria proposta tenta ser sutil no efeito da montagem, mas acaba reforçando o mesmo ponto várias vezes, a perdendo-a no caminho.

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Alan 12 de abril de 2021 - 12:44

Mas a premiação é por atuação na temporada e não na carreira. Apesar de eu achar premiação de Oscar insignificante hoje em dia.

Iann Jeliel Pinto Lima 12 de abril de 2021 - 18:49

É, deveria ser sobre a temporada, mas sabemos que não é assim que funciona. E mesmo se não fosse, a atuação de Chad me impressiona mais um tanto. De qualquer forma, estaria justo para cada um deles.

Cahê Gündel 🇦🇹 USEM PFF2 12 de abril de 2021 - 14:17

Prefiro o Hopkins também (não vai ganhar), e não ficaria triste se a Olivia ganhasse (não vai).

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