Crítica | Meu Papai é Noel

Nos primeiros instantes da comédia dramática Meu Papai é Noel, dirigida por John Pasquin, tendo como direcionamento, o roteiro construído pela dupla formada por Steve Rudnick e Leo Benvenuti, sentimos que o que nos espera ao longo de seus 107 minutos é um festival do “mais do mesmo natalino”, com um dos personagens mais bem-sucedidos do capitalismo: o Papai Noel, frequente anualmente, geralmente nos lançamentos de novembro e dezembro. O que essa tal sensação nos passa? Simples: a mensagem de que devemos ser boas pessoas, consumir para presentear, fazer parte de uma família devidamente integrada para ser feliz, dentre outras lições das narrativas natalinas, em sua maioria, hollywoodianas.

Lançado em 1994, Meu Papai é Noel traz tudo isso, mas também consegue se estabelecer como uma história cativante, haja vista o carisma de seus personagens e a fuga de alguns clichês milagrosos, geralmente explicados diante da tal “magia natalina” que contamina todo mundo e faz quem não presta se tornar santo da noite para o dia. Em suma: mesmo que seu trajeto indique um final feliz para a família de Charlie (Eric Lloyd), o espírito natalino não mudará a condição de seus pais, divorciados e em tentativa de manutenção do diálogo social básico para as interações diante da resolução de conflitos que envolvam o garoto. Isso, para um filme natalino focado nas expectativas óbvias de um público cada vez mais alienado, torna-se o diferencial da produção, isto é, a entrega diante da fantasia sem perder o pé com a realidade.

Ao descortinar a história de Charlie, Meu Papai é Noel pinta um quadro de uma situação corriqueira na contemporaneidade: os filhos do divórcio e suas crises diante dos conflitos e tensões entre os seus pais. Na trama, o garoto é filho de Scott Calvin (Tim Allen), um homem que faz a linha do divorciado que ainda não arrumou uma nova relação e no feriado natalino, tem como missão tomar conta de seu único filho, jovem que teve a ilusão sobre a existência do Papai Noel diluída, graças ao padrasto Neal (Judge Reinhold), psiquiatra que acredita ser alienador iludir as crianças com uma farsa do tipo. Essa revelação cria no pai um sentimento de desrespeito em relação à forma como ele cria o seu filho, o que por sua vez, traz algumas celeumas no contato com a mãe do garoto (Wendy Crewson), a responsável por intermediar as idas e vindas e Charlie para a casa do pai. Interessante observar que Neal condena a existência do velho Noel, mas não assume que há um trauma diante dessa sua ojeriza, recalcado no passado e prestes a ser revelado nos momentos dramáticos próximos ao desfecho.

No último período juntos, Scott e Charlie vivem uma situação inusitada. O Papai Noel sofre um acidente e o pai do garoto agora é eleito, inicialmente contra a sua vontade, como o substituto do arauto dos presentes dos festejos natalinos. Eles trafegam de trenó, dialogam com as renas, conhecem o abrigo do bom velhinho e divertem-se tanto que tudo parece mera ilusão. A realidade, no entanto, revela-se dura quando Scott percebe que para ser o tal substituto, ele agora ganhará peso, barba e cabelo branco, além de ter que abdicar de suas necessidades dramáticos que gravitam em torno de seu perfil social. Ele agora é um novo homem. E, até conseguir comprovar o contrário, terá que sofrer a represália das pessoas descrentes, pois a maioria acha que a sua “loucura” pode colocar a vida do filho em perigo.

Diante dos conflitos, a produção arruma uma forma alternativa de contar a mesma história que o cinema, em especial, as narrativas oriundas do esquema hollywoodiano, adoram contar anualmente. Focado no público infantil, o filme é uma produção “família”, daquela que atende aos pequenos, mas não transforma a sessão de cinema dos adolescentes e adultos uma terapia do horror. Há o bom e velho sentimentalismo em busca de algumas lágrimas dos espectadores mais sensíveis, mas ainda assim, quando comparado ao lote gigantesco de filmes natalinos lançados todo ano, a produção se apresenta muito mais relevante e interessante não somente como entretenimento ligeiro, mas também por dar espaço para reflexões sobre padrões de família que não se encaixam no modelo tradicional pregado largamente pela própria indústria cinematográfica ao longo de seu percurso histórico.

Em seu processo narrativo, Meu Papai é Noel conta com a direção de fotografia de Walt Lloyd, profissional responsável pela captação de imagens, emprego do movimento e iluminação das cenas, todas geralmente eficientes, esquematizadas dentro de um padrão que não as deixam ser nada além do trivial, num material que funciona, tal como o seu design de produção, assinado por Carol Spier, funcional, mas também sem grandes momentos especiais: há os esperados pinheiros, o pisca-pisca, a lareira com as meias penduradas, os tons vermelhos, verdes e brancos em sintonia, principalmente nos trechos com neve, além de outros símbolos que fazem remissão ao período natalino. A música, conduzida por Michael Convertino, funciona e colabora com o ritmo do filme, dinâmico também graças aos seus efeitos visuais sem exageros.

Nos momentos finais, Meu Papai é Noel opta por não transformar a narrativa num festival de bobagens tradicionalistas ou preencher a tela pelo falso moralismo do american way of life. O consumismo, a tradição e outros elementos do tal modo de vida dos estadunidenses estão por lá, mas sem estratégias narrativas convenientes, fabricadas para encaixar as pessoas e as situações dentro de padrões extremamente cristalizados. Charlie, agora com nova família, conciliará a relação com a mãe e o padrasto, sem deixar de manter vínculo emocional e social com o seu pai, um homem que se tornou o próprio Papai Noel, um dos protagonistas do Natal vendido por nossa sociedade de consumo.

Meu Papai é Noel (The Santa Clause/Estados Unidos, 1994)
Direção: John Pasquin
Roteiro: Leonardo Benvenuti, Steve Rudnick
Elenco:David Krumholtz, Eric Lloyd, Jayne Eastwood, Judge Reinhold, Judith Scott, Larry Brandenburg, Mary Gross, Melissa King, Paige Tamada, Peter Boyle, Tim Allen, Wendy Crewson
Duração:  97 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.