Crítica | Meu Reino Por Um Amor

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Meu Reino Por um Amor trata da conturbada relação entre a Rainha Elizabeth I (Bette Davis) e Robert Devereux, o Conde de Essex (Errol Flynn), a partir do momento em que o líder militar retorna para a Inglaterra em 1597, após sitiar a cidade de Cádiz, na Espanha durante a guerra anglo-espanhola, acompanhando os próximos cinco anos desta relação. O filme dirigido pelo conhecido diretor Michael Curtiz e idealizado por Bettie Davis, então no auge de seu sucesso, romantiza o conflito entre a monarca e o nobre, em um filme que conta com uma ótima atuação de Davis.

O roteiro de Norman Reilly Raine e Aneas Mackenzie, baseado na peça teatral de Maxwell Anderson, coloca o romance do casal principal como uma paixão sincera, mas atrapalhada pelas inseguranças da rainha devido a diferença da idade, e pelo claro jogo de poder existente entre Elizabeth e o Conde de Essex, com a primeira querendo defender o seu trono, e o segundo almejando (e invejando) o poder que ela tem. Além disso, o casal precisa lidar com um grupo de nobres, liderados por Sir Robert Cecil (Henry Daniell) e Sir Walter Raleigh (Vincent Price), que conspiram contra o seu amor, temendo a influência de Essex sobre a rainha.

O roteiro opta por fazer dos opositores de Essex dentro da corte elisabetana, figuras vis e traiçoeiras, (papéis que tanto Daniell quanto Price sabiam desempenhar como ninguém) como uma forma de dar uma nobreza maior ao controverso personagem de Flynn. O filme não esconde as ambições de seu protagonista masculino e nem a forma machista como ele encara a rainha, acreditando que seria um governante muito melhor pelo simples fato de ser homem. Mesmo a clara falta de visão política do Conde, que possui uma visão megalomaníaca baseada em glórias pessoais ao invés de pensar nas necessidades imediatas da Inglaterra, não é ocultada pelo roteiro. Mas diferente de seus antagonistas, Essex é retratado como um homem muito honesto e transparente em relação aos seus objetivos, o que acaba colocando o líder militar sob uma luz mais simpática do que a de seus rivais.

O romance entre Elizabeth I e o Conde de Essex é retratado na tela como uma relação de amor e ódio, com o casal indo das juras de amor a ofensas e ameaças em um piscar de olhos, cada vez que se encontram. O roteiro constrói bem o relacionamento e os motivos de ele estar condenado desde o seu início, já que enquanto a Rainha se sente insegura pela grande diferença de idade entre ela e o amado (representada principalmente pela jovem dama de companhia interpretada por Olivia de Havilland) e com a grande popularidade que ele goza perante o povo da Inglaterra, o Conde, como dito antes, não consegue aceitar que uma mulher tenha mais poder que ele e ouse achar que governa melhor do que ele governaria.

Bette Davies fez tanto esforço para que a Warner Bros comprasse os direitos de adaptação da peça que deu origem à obra, pois acreditava que o papel de Elizabeth I (vivida então no teatro por Joan Fontaine) levaria a sua carreira para outro nível. Mas embora o trabalho da atriz como a Rainha Virgem tenha sido ofuscado por sua atuação em outros longas do mesmo período como Vitória Amarga, deve-se elogiar a interpretação camaleônica de Davis em sua leitura da monarca. Apesar de uma maquiagem sutil, mas eficiente, o que realmente nos convence que a atriz é uma mulher de mais de 60 anos (ela tinha 31 durante as gravações do projeto) é a sua atuação, que concede uma dureza e um cansaço que só poderiam ser fruto de décadas de experiência. Afinal, mais do que uma história de amor esmagada por jogos de poder, Meu Reino por Um Amor é uma história de uma mulher que deve abraçar a solidão imposta por sua coroa, sendo tratada sempre primeiro como uma rainha e depois como um ser humano. Embora a atuação de Davis possa soar histriônica em alguns momentos, ela funciona perfeitamente para transmitir o conflito da rainha entre os seus deveres como líder e seus anseios pessoais.

Quanto a Errol Flynn, confesso que nunca o achei um grande ator, mas por outro lado, sempre foi uma persona que esbanjou carisma na tela, e acho que isso era justamente o que o Conde de Essex precisava. Por mais que o roteiro se esforce para tornar o personagem simpático, tomando até algumas saídas preguiçosas como transformar praticamente todos os seus antagonistas em personagens desagradavelmente traiçoeiros, ainda assim, o líder militar poderia parecer antipático, portanto, necessitava de um intérprete charmoso que nos convencesse que apesar das atitudes questionáveis, ainda fosse capaz de despertar simpatia — o que tornou Flynn a escolha certa para o trabalho, muito mais propício, a meu ver, do que teria sido Laurence Olivier, que era o nome que Davis queria para o papel.

Embora não negue as suas origens teatrais, com o filme contando com muitas cenas de longos diálogos, a direção de Michael Curtiz consegue dar certo ritmo ao longa, com uma decupagem que valoriza o cenário e a profundidade de campo, fazendo com que a obra escape de se parecer uma peça filmada. O trabalho de cenografia e figurino é competente, sem com isso chamar a atenção demais para si mesmo. O fraco do longa metragem de Curtiz, porém, encontra-se em seu roteiro. Por mais que a dinâmica entre Elizabeth e Essex seja bem construída desde a primeira vez que os vemos juntos, torna-se também redundante, com pouca ou nenhuma evolução até o fim da projeção. O fato dos opositores de Essex serem vilanizados de forma maniqueísta (exceção feita ao Francis Bacon de Donald Crisp, que começa o filme como aliado de Essex, para depois se voltar contra ele por razões justificáveis) torna a obra menos complexa do que poderia ser. Por fim, o 3º ato, que traz uma guerra de nervos entre o casal protagonista após uma tentativa de golpe do personagem de Flynn, acaba sendo bastante falho ao mostrar a personagem de Davies vacilando a cada decisão tomada, o que decididamente não condiz com a rainha atormentada, porém forte, que havíamos acompanhado até aquele momento, o que dá a Essex uma vitória moral, apesar de seu desfecho trágico.

Meu Reino Por um Amor funciona como melodrama, romantizando (talvez até demais) um momento frágil tanto no âmbito político quanto no âmbito pessoal da Rainha Elizabeth I. Temos uma atuação forte de Bette Davis, que apresenta uma insuspeita química de cena com Errol Flynn. Uma pena que o filme não consiga alçar voos mais altos por seu caráter redundante e por seu terceiro ato inconstante. Não é um grande filme, mas vale a conferida pelos valores de produção e pela atuação camaleônica da Davis.

Meu Reino Por um Amor (The Private Lives Of Elizabeth and Essex), Estados Unidos. 1939.
Direção: Michael Curtiz
Roteiro: Norman Reilly Raine, Aneas Mackenzie (Baseado em peça teatral de Maxwell Anderson)
Elenco: Bette Davies, Errol Flynn, Olivia de Havilland, Donald Crisp, Vincent Price, Henry Daniell, Henry Stephenson, Alan Hale, Nanette Fabray, James Stephenson, Leo G. Carroll, John Sutton, Ralph Forbes, Robert Warwick, Guy Bellis, Rosella Towne, Maris Wrixon, Doris Lloyd, Holmes Herbert, I. Stamford Jolley
Duração: 106 Minutos.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.