Crítica | MIB – Homens de Preto 3

“Há alguém aqui que não seja alienígena?”

Enquanto os dois primeiros exemplares da franquia Homens de Preto não eram muito interessados em explorar dramaticamente os seus personagens, Homens de Preto 3 cria um enredo inteiro que se sustenta apenas em sua questão emocional. A parceria entre o Agente J (Will Smith) e o Agente K (Tommy Lee Jones) é repensada, ao passo que um alienígena monstruoso retorna no tempo para matar uma versão jovem do homem que o prendeu, justamente K. Dessa maneira, o retorno do Agente J ao passado, 1969, para impedir o assassinato de seu parceiro do futuro, contém um respaldo dramático marcante na franquia. Bem mais que impedir uma invasão alienígena pela raça de Boris, o Animal (Jemaine Clement), o vilão do longa-metragem, Agente J só quer salvar o seu parceiro, inclusive conhecendo-o um pouquinho mais nesse caminho. Homens de Preto 3 continua sendo irregular, tanto em termos de aventura quanto em termos dramáticos, no entanto, é um encerramento que traz novidades para este mundo, mas respeitando o passado e os personagens.

Mas por Barry Sonnenfeld, cineasta responsável por toda a trilogia, investir num ponto de drama mais perceptível, não significa que o humor seja escanteado. Na verdade, a obra também pode ser vista como o projeto mais cômico da franquia, quer seja isso um ponto positivo ou negativo. Etan Cohen, no roteiro, imprime uma graça juvenil ao filme, que mistura o gore conhecido com uma tensão mais infantil e inofensiva. O resultado dessa empreitada, entretanto, é misto. Ao passo que existe, no conjunto, um tom de aventura pelo tempo que cativa muito mais que as premissas do primeiro e segundo longa, as piadas, individualmente, não são das melhores. Por exemplo, a gag com Boris, sobre o monstro ser conhecido como Animal, é cansativa e boba, apesar de ser até mesmo usada para resolver a conclusão. Ademais, o roteirista não move o enredo com muita criatividade. A real exceção é Griffin (Michael Stuhlbarg), coadjuvante simpático que, embora sirva como ajuda descarada ao roteiro, paralelamente ocupa um espaço no desenvolvimento dramático.

Há muita preocupação de Barry em tratar dos seus protagonistas. Entretanto, o roteiro, novamente, não contribui muito para isso – no caso, a redescoberta de K, que acontece com o personagem de Will conhecendo uma versão mais jovem do seu antigo amigo. Josh Brolin reencena Tommy Lee Jones com muita verdade, mas Cohen é inconstante em como quer abordar esse K, ora muito parecido com o velho rabugento que já conhecemos. O interesse está na desconstrução da personalidade do futuro, porém, o texto prefere antes reconstruir todo o personagem para romper com a sua antipatia apenas pontualmente. Isso é certamente uma incoerência no roteiro – e nem entremos no mérito da viagem no tempo. Mas sempre que acontece uma ruptura à seriedade e impessoalidade costumeira do Agente K, Smith, ao menos, complementa com uma surpresa muito característica a cena, que engrandece o relacionamento e agracia as resoluções do enredo. Barry Sonnenfeld é quem conseguirá explorar essas questões com mais propriedade e mais sinceridade.

Dado um roteiro tão problemático, contendo, por sinal, o desaproveito de personagens femininas – Emma Thompson e Alice Eve, como O, estão de graça -, o diretor precisa impulsionar um milagre para concretizar razoavelmente o seu longa-metragem. Se o uso da época é frouxo em termos narrativos, a recriação de mundo na parte visual imerge mais o espectador, originando uma nova contextualização para o personagem de Smith interagir. Boas piadas existem por conta disso, apesar de serem poucas. A cena do pulo temporal, neste sentido, condensa a proposta: a junção, às possibilidades imaginativas que a franquia já possibilitava, de uma pegada mais cartunesca. O próprio Boris, que é um vilão completamente unidimensional, tem um tratamento gráfico menos grotesco para tornar-se uma paródia. Homens de Preto 3, portanto, pode até ser mais rico que os dois outros exemplares da franquia, mas não traja uma execução justa para o desfecho de uma amizade, que começara em 1969. Ainda assim, há ternura suficiente para essa ser uma conclusão.

MIB – Homens de Preto 3 (Men in Black 3) – EUA, 2012
Direção: Barry Sonnenfeld
Roteiro: Etan Cohen
Elenco: Will Smith, Tommy Lee Jones, Josh Brolin, Michael Stuhlbarg, Emma Thompson, Jemaine Clement, Nicole Scherzinger, Alice Eve, Bill Hader, Michael Chernus, David Rasche, Keone Young, Cayen Martin, Mike Colter, Mela Hudson, Will Arnett
Duração: 106 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.