Crítica | MIB: Homens de Preto – Internacional

“Vamos lá, o mundo não vai se salvar sozinho.”

Os responsáveis por orquestrarem a franquia Homens de Preto optaram, após arrecadarem muito dinheiro com as suas três produções, por um spin-off, que é concentrado em novos personagens e uma expansão de universo. MIB, um serviço secreto que monitora os extraterrestres presentes na Terra, agora não existe apenas em Nova Iorque, mas em todo o mundo, com sedes em várias importantes cidades do planeta. MIB: Homens de Preto – Internacional, com isso, carrega em sua essência a vontade de quebrar paradigmas, partindo para a exponenciação do campo de visão dos seus espectadores. Tanto intenciona-se uma expansão na narrativa, com a ambientação passando a ser na Europa, quanto na mensagem, com mais espaço sendo dado às personagens femininas da obra – uma questão que o longa não apenas trabalha superficialmente, como escape, porém, encaixa ao conteúdo. O acréscimo destas novidades é interessante para a série assumir outras propostas, mais objetivas, e encontrar-se em territórios inexplorados. Mesmo assim, o longa acaba sendo o episódio mais desinteressante da franquia, trazendo consigo acertos e também equívocos.

Homens de Preto nunca se importou muito com as suas personagens femininas. O primeiro exemplar da série, por exemplo, usava um texto mais ousado para a sua coadjuvante, com intuito de criar uma tensão sexual em cena com Will Smith. Ademais, em Homens de Preto II, o mais sintomático da trilogia nesse sentido, uma cena na casa dos Vermes sugeria um estupro, mas com um teor cômico estranho acompanhando. A antagonista, por sinal, novamente trazia consigo uma inerente tensão sexual, personificando uma modela da Victoria’s Secret. Já no encerramento da trilogia, Boris, o Animal, matava rapidamente a sua “namorada”, apresentada com um decote grande, por meio de uma câmera sexualizando-a imensamente e, no caso, por nada. Enquanto isso, a Agente O (Emma Thompson), com mais tempo de tela, era uma personagem escanteada em sua versão jovem, interpretada por Alice Eve. Internacional, pelo contrário, quer mudar esse passado, querendo principiar esta temática a partir do gênero e da narrativa. A comédia casa-se com essa particular intenção discursiva, em um longa que torna orgânica a reverencia às mulheres.

Enquanto cenas pontuais fortalecem o pensamento de F. Gary Gray, a execução narrativa é mais automática, apesar de existir um bom pretexto. Tessa Thompson é Molly, uma criança que acabou não tendo sua mente apagada após contato com um alienígena, apesar de seus pais terem sido “desneuralizados” no processo. Movendo-se por um grande desejo de encontrar os homens de preto que visitaram a sua casa no passado, a garota passa anos à procura dessa organização secreta, até que encontra a sede da MIB. A Agente O, única pessoa que retorna para o spin-off – Frank, o Pug, tem uma pontinha -, então permite a mulher fazer por merecer a sua estadia entre eles, entrando em um “programa de intercâmbio” em Londres para ganhar experiência. Com essa premissa, os roteiristas já teriam espaço para escreverem um enredo apenas sobre a busca de Molly, posteriormente M. Desperdiçando isso e apressando o nosso entendimento da agente ser grandiosa, os caminhos são pouco inventivos, guiando a personagem a uma história mequetrefe, com outro vilão unidimensional e certas reviravoltas bobas, acompanhada de H (Chris Hemsworth).

Os valores do longa-metragem residem, porém, em como F. Gary Gray executa a química entre Chris Hemsworth e Tessa Thompson, assim como na comédia – que praticamente só funciona quando pensando a questão do feminino e nem isso é executado de uma maneira completamente eficiente. Em comparação aos protagonistas originais, Will Smith e Tommy Lee Jones, os papéis são parecidos, mas subvertidos. Thompson é a novata, mas muito mais esperta que Hemsworth, o agente veterano que venceu ameaças grandiosas no passado, juntamente ao seu parceiro na época, personagem genérico de Liam Neeson – e que eu já esqueci o nome. Só que a dupla composta por Art Marcum e Matt Holloway é muito inoperante no texto, pensando muitas vezes as piadas mais simples possíveis, as situações menos imaginativas. Há pouco interesse em explorar universo, por exemplo, porque eles não tem essa capacidade. O espaço que o roteiro, por sua vez, encontra para enaltecer a figura feminina está na personificação de uma gag: o pequeno Pawny (Kumail Nanjiani), que entra em um arco só para servir à protagonista, tornando-se um servo de M.

Esses pontos conversam com o momento em questão do cinema arrasa-quarteirões americano: ação pautada em uma mensagem que interaja com o público contemporâneo. A produção, no que tange esse esquema, também redefine o seu gênero prioritário, ansiando repensar a experiência do público. O gore, traço cômico, some e vem um mundo menos excêntrico. Dessa vez, o longa-metragem é mais ação que comédia, o que é uma subversão em relação aos primeiros projetos da série. A nova prioridade nasce como renovação, mas não se justifica no modo como Gary Gray encena a obra, rejeitando um ar espetacular várias vezes. Já o humor, no passado, ajudava Barry a renovar as sequências de ação. O clímax, portanto, é possivelmente o mais insosso da franquia. De certo o cineasta encontra-se um tanto descomprometido com outros pontos nas sequências de combate, mas isso contrasta com as intenções mais “ambiciosas” dos roteiristas, querendo que a obra seja parte desse tempo e desse momento no mundo. Que fossem duas horas de diversão sem vergonhas, mas o resultado não mostra ser apenas descartável, porque também é entediante.

MIB: Homens de Preto – Internacional (Men in Black International) – EUA, 2019
Direção: F. Gary Gray
Roteiro: Art Marcum, Matt Holloway
Elenco: Tessa Thompson, Chris Hemsworth, Liam Neeson, Rebecca Ferguson, Emma Thompson, Rafe Spall, Kumail Nanjiani, Jess Radomska
Duração: 115 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.