Crítica | MIB – Homens de Preto

estrelas 4

Baseado em bem-sucedidos quadrinhos homônimos noventistas de Lowell Cunningham (que co-escreveu o roteiro) e Sandy Carruthers, publicados originalmente pela finada Aircel Comics, que foi comprada pela Malibu Comics que, por sua vez, foi adquirida pela Marvel Comics, MIB – Homens de Preto ajudou a catapultar as carreiras de Will Smith e Tommy Lee Jones ao retirar a seriedade da obra original e transformar a premissa em uma desculpa para colocar nas telonas uma comédia sci-fi com amplas pitadas de buddy cop que, por incrível que pareça, resistiu bem ao teste do tempo. Barry Sonnenfeld, depois de sedimentar-se na cadeira de diretor por meio de A Família Addams 1 e 2, Por Amor ou por Dinheiro e O Nome do Jogo, faz o que reputo ser seu último trabalho de qualidade para o cinema, entregando uma divertida, mas ao mesmo tempo relevante obra que sabe extrair o que de melhor seu elenco tem para oferecer.

Imigração ilegal é um problema talvez ainda mais presente – ou mais abertamente discutido – hoje do que em 1997, expandindo-se para muito além das fronteiras americanas. Atualmente, quando falamos no tema, além do clássico e estereotipado mexicano tentando levar uma vida melhor nos EUA, também lembramos, muito vivamente, dos graves problemas dos diversos êxodos de zonas de guerra que trazem enormes e insolúveis problemas para o mundo. No caso de Homens de Preto, a abordagem da questão dos imigrantes ilegais é escancarada, mas com uma adocicada camada de glacê por cima que acaba suavizando a narrativa, mas sem retirar dela a pegada crítica com uma agência especia l cuja função é controlar e camuflar o afluxo de alienígenas na Terra, a maioria deles morando em Nova York, o que é muito conveniente para a película ao mesmo tempo que é perfeitamente crível, considerando o caldeirão étnico que é a cidade. O veterano Agente K (Jones) recruta o novato Agente J (Smith) para, juntos, impedirem a destruição da Terra.

E, com essa premissa enganosamente simples, as piadas vêm quase que naturalmente. Vemos, aos borbotões, as mais divertidas gags com a imigração ilegal, começando com a abertura da projeção em que testemunhamos um “coiote” atravessando a fronteira dos Estados Unidos carregando uma leva de mexicanos, sendo um deles literalmente um alienígena. E, como nos melhores filmes de “dupla de policiais”, a diferença entre as gerações dos Agentes K e J também permite uma boa quantidade de divertidos momentos, com os dois atores muito à vontade em seus papeis.

Aliás, a química entre Jones e Smith é perfeita e a chave para o sucesso do filme, mesmo que seus papeis sejam basicamente recortes em cartolina do que esperamos desse choque de gerações, com todos – absolutamente  todos – os clichês que vêm à reboque em situações parecidas. O Agente K, como a própria personalidade de Jones exige, é sisudo, sério e faz tudo conforme as regras. O Agente J, claro, é exatamente o oposto, sem tirar nem por aquilo que classicamente esperamos de um papel de Will Smith. Mas a relação dos dois é agradável de ver, muito na linha da conexão entre Murtaugh (Danny Glover) e Riggs (Mel Gibson) na já clássica franquia oitentista Máquina Mortífera.

No entanto, o elenco de apoio que gravita ao redor da dupla principal também está de parabéns, notadamente a participação de Rip Torn, como o Agente Z (ou Zed, como queiram), o chefe da agência, e da sensual Linda Fiorentino como Laurel, uma médica legista que acaba se envolvendo inadvertidamente com a surreal situação. Além disso, para fechar o elenco, há o sempre fenomenal Tony Shalhoub (pré-Monk) como o alienígena Jeeb e o ameaçador Vincent D’Onofrio (pré-Law & Order) como o corpo que o grande vilão cascudo usa para por em movimento seu plano de aniquilação global em duas performances que fazem belíssimo uso de efeitos práticos e de CGI.

Falando em efeitos especiais e como já afirmei na abertura da presente crítica, é muito interessante ver como, depois de mais duas décadas, eles se mantiveram relativamente intactos e isso considerando que o filme apoia-se muito neles para realmente funcionar e dar vida às mais variadas versões de E.T.s. Talvez a explicação repouse no equilíbrio entre efeitos práticos e CGI, estes últimos feitos principalmente pela ILM, antes do aumento do uso desse tipo de recurso que tornou quase impossível uma só empresa de computação gráfica lidar com um filme inteiro. É evidente , porém, que em determinadas cenas, como a do tumultuado parto cefalópode feito pelo Agente J, a idade fique mais saliente. Em compensação, porém, em outros momentos, como na catastrófica sequência final, não haja do que realmente reclamar.

Ajudou muito também o fato de que o trabalho de próteses e de maquiagem tenham sido responsabilidade do mítico Rick Baker (de Star Wars, Grito de Horror e dezenas de outros clássicos) que certamente encontrou em MIB um vasto playground para literalmente colocar a mão na massa e soltar sua imaginação fértil e suas incríveis habilidades em tornar o impossível em algo perfeitamente crível. Basta ver, por exemplo, o grande vilão do filme que “veste” a pele de um humano (D’Onofrio), resultando em um trabalho daqueles que levam à repugnância e admiração simultaneamente e que, verdade seja dita, põe no chinelo o que poderia ser feito mesmo hoje em dia com bits e bytes.

A trilha sonora é outro ponto forte do filme e digo isso mesmo considerando que tenho sérias reticências com Danny Elfman, considerando-o um dos compositores mais repetitivos e genéricos da Sétimas Arte. No entanto, em Homens de Preto ele nos apresenta algo realmente memorável que funciona muito bem dentro do ritmo da película. A música tema, usada na já famosa abertura da “libélula”, fica na cabeça do espectador e lembra o filme tanto quanto os uniformes e atuações do elenco estelar.

Homens de Preto, mesmo depois de tantos anos, diverte e satisfaz o espectador com seu humor perspicaz, narrativa cativante e uma dupla principal inspirada e perfeitamente azeitada. E isso sem contar com os variadíssimos alienígenas e as inteligentes pontas que marcam a história sem, porém, transformá-la em uma caça obsessiva às referências.

  • Essa crítica é uma republicação, com profundas alterações, de minha crítica originalmente publicada no site em 2012.

MIB – Homens de Preto (Men in Black – EUA, 1997)
Direção: Barry Sonnenfeld
Roteiro: Lowell Cunninghan, Ed Solomon
Elenco: Tommy Lee Jones, Will Smith, Linda Fiorentino, Vincent D’Onofrio, Rip Torn, Tony Shalhoub, Siobhan Fallon, Mike Nussbaum, Jon Gries, Sergio Calderón, Carel Struycken, Fredric Lehne, Richard Hamilton
Duração: 98 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.