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Crítica | Mickey, Donald e Pateta — Os Três Mosqueteiros

por Giba Hoffmann
343 views (a partir de agosto de 2020)

Lançado em formato direto-para-vídeo em 2004, Mickey, Donald e Pateta — Os Três Mosqueteiros traz o trio icônico dos curtas animados da produtora em um raro co-estrelato em um “longa-metragem”. Novamente, a classificação permanece no âmbito do “tecnicamente”: em Como é Bom se Divertir, o trio figurou completo pela primeira vez em uma feature nas telonas, porém apenas em um segmento de um filme-pacote. Desta vez, apesar de contar com o papel isolado de protagonistas, o trio acaba estrelando uma animação que pulou as telonas direto para o mercado doméstico, e cuja metragem por pouco o salva de ser facilmente confundido com um especial televisivo.

Por sorte, trata-se de um “especial televisivo” que persegue uma visão bem definida para seus personagens e, mesmo que com suas limitações, não evoca sua imagem em vão. Se é verdade que a técnica majoritariamente digital de animação envelheceu mal já em seus dez primeiros anos de existência, por outro lado também é fato que, não fosse ela, a produção poderia facilmente ser confundida com uma pérola perdida de animação de Mickey aos moldes de O Conto de Natal do Mickey ou O Príncipe e o Mendigo. Ou seja, aparências à parte, a animação consegue recriar com precisão as personalidades, trejeitos e — importantíssimo — carisma único do trio titular, colocando-os a serviço de uma trama leve e divertida.

Embora a história em si — que pouco tem a ver com o conto de Dumas — não traga grandes surpresas e se desenvolva através de batidas previsíveis, a trama é pontuada por ótimos momentos comédicos que, estes sim, surpreendem o espectador ao brincar com suas expectativas. Intercalando bem dois tipos totalmente distintos de humor: o cartunesco-pastelão dos curtas animados de onde se originaram nossas estrelas e o sarcástico-autoconsciente típico das animações mais modernas, o filme é uma ótima pedida para assistir em família justamente porque abrange os vários níveis de vinculação e expectativas que os diferentes espectadores terão a respeito de seus personagens e temáticas.

Em seu cerne, trata-se de uma aventura infantil descompromissada, que simplifica e lineariza uma trama que se baseia prioritariamente no cenário de Os Três Mosqueteiros para narrar um conto básico cheio de vilões bufantes hilários e mensagens positivas. Movendo-se em um ritmo rápido e não se detendo demais em nenhuma curva do roteiro, a trama deve ser capaz de atrair a atenção dos espectadores infantis sem precisar, para isso, precisar sacrificar a personalidade e os estilos pessoais de cada personagem icônico a figurar na produção.

Não há a menor dúvida de que Mickey, Pateta e Donald são os mesmos figurões que estrelaram suas produções clássicas, sendo que tanto a animação quanto o trabalho de dublagem (original e nacional, em uma adaptação magistral do estúdio Delart), ainda que totalmente diferentes dos trabalhos seminais do século anterior, demonstram um estudo cuidadoso dos detalhes a respeito de seu material de origem. O sucesso da produção nessa frente inclusive faz lamentar que esses personagens vivam hoje, para além dos cada vez mais raros quadrinhos, majoritariamente como marcas a estamparem produtos licenciados.

Mas a produção funciona também em outro nível. Autoconsciente a respeito do atrativo do título promissor ao espectador idoso veterano, o filme traz doses empolgantes de referências ao panteão de personagens clássicos da Casa do Camundongo, as quais são trabalhadas com batidas tímidas de humor sarcástico. Ao mesmo tempo em que toma a liberdade de rir de si mesma, a produção também é uma carta de amor ao universo de Mickey Mouse e seus amigos. Da caracterização hilária do vilão João Bafo-de-Onça (com direito à presença rara de sua titular perna de pau!) à presença de figuras relativamente “obscuras” como Clarabela, passando pela versão dos Irmãos Metralha que é trazida diretamente de DuckTales, o filme atenta para os detalhes e tira bom proveito de não se assumir como nada que não aquilo que ele é: uma adaptação escrachada de um conto clássico, estrelando figuras conhecidas de alta quilometragem.

Algumas das minhas piadas favoritas envolvem a forma como o filme satiriza a própria imagem do Mickey, tanto na cena em que ele acaba com a roupa rasgada, reduzindo-se à vestimenta tradicional a partir da qual ele faz uma pose e risadinha características, quanto na imitação escrachada de Clarabela no momento em que ela monta uma armadilha para o Pateta. Outros momentos de ouro são Mickey revelando sua dificuldade em entender o que o Donald fala, e o momento em que vemos o tradicional lado “surtado” de Donald emergir de sua fase ansiosa atual. O cuidado com a animação transparece em diversas sequências, ainda que o uso pesado de 3D e o aspecto digitalizado das cores e traços acabem revestindo a coisa toda com ares menos charmosos do que a irregularidade encantadora da animação manual.

Por fim, na frente musical, o filme adota uma rota simples e eficiente que, de quebra, orna muito bem com a ambientação da trama. Com letras parodiais curtas e despojadas sobrepostas a diversos trechos de música clássica, o filme se vale de Strauss, Beethoven e Tchaikovsky para narrar as viradas e desviradas da narrativa, com um resultado divertido e que acaba grudando na cabeça com facilidade. Tanto as letras originais quanto a adaptação brasileira trazem personalidade e emprestam ares épicos aos eventos do filme, e são simbólicas do esforço bem realizado de sintetizar o tradicional e o novo.

Apesar de não ser a grande obra que o título poderia sugerir aos fãs mais ortodoxos, avaliado como aquilo que é — um longa metragem direto-para-vídeo estrelando os figurões do universo de Mickey —, Mickey, Donald e Pateta — Os Três Mosqueteiros não fica aquém do que os personagens mereciam, e é uma das melhores pedidas de produçoes Disney dentro do segmento. A um roteiro mais trabalhado e técnica de arte tradicional de distância de se tornar um clássico indiscutível, o filme deve fazer valer o tempo dos entusiastas, evocando em tela as qualidades que fizeram o personagem perdurar por mais de 90 anos em posição central na cultura pop.

Mickey, Donald e Pateta — Os Três Mosqueteiros (Mickey, Donald, Goofy: The Three Musketeers, Estados Unidos – 2004)
Direção: Donovan Cook
Roteiro: Evan Spiliotopoulos, David Mickey Evans (adaptado do livro “Os Três Mosqueteiros” de Alexandre Dumas)
Elenco (versão original): Wayne Allwine, Tony Anselmo, Bill Farmer, Russi Taylor, Tress MacNeille, Jim Cummings, April Winchell, Jeff Bennett, Maurice LaMarche, Rob Paulsen
Elenco (edição brasileira – estúdio Delart): Sérgio Moreno, Cláudio Galvan, Anderson Coutinho, Marli Bortoletto, Silvia Suzy, Mauro Ramos, Geisa Vidal, Waldyr Sant’anna, Hamilton Ricardo, Marco Ribeiro, Alexandre Moreno
Duração: 67 min.

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16 comentários

Michael 11 de abril de 2020 - 12:58

Meu momento preferido foi ver o pateta agindo como o cérebro do grupo, bolando um plano que confiava na tese do “raio cair duas vezes no mesmo lugar” (nesse caso em diferentes lugares na ordem correta), conseguir realizar o plano e ainda vencer três inimigos de uma vez.

Acho que esse filme merecia ter ido pro cinema e fico feliz que esses personagem tenham recentemente retornado ao radar do público, e da última vez que olhei estavam fazendo bastante sucesso, com a série duck tales. Ainda sonho com uma nova produção cinematográfica do universo Mickey.

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Fabio Gomes 15 de dezembro de 2018 - 16:54

“Os Três Mosqueteiros” é um romance, e não um conto, de Dumas. 😉

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Big Boss 64 25 de novembro de 2018 - 15:55

Um por todos… É bom pra chuchu!

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Big Boss 64 25 de novembro de 2018 - 15:53

Também achei estranho o Donald covarde, sendo que a vida toda, eu o via como um pato puto.

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G. Hoffmann 29 de novembro de 2018 - 02:19

Pois é, foi uma escolha curiosa mesmo… Pra mim fez sentido como um “pato puto begins”, curti a forma como utilizaram de build-up pro momento revoltado dele mais ao final.
Mas ele tem esse lado meio frouxão. Nos quadrinhos com o Tio Patinhas ou nos dele nos mil empregos, isso aparece de certa forma. Ele é meio 8 ou 80!

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Big Boss 64 29 de novembro de 2018 - 22:26

Pois é, mano. Não sou muito familiarizado com HQs Disney porque minha mãe só comprava Zé Carioca kkk (além de eu conhecer o Donald mais pelos filmes “Você já foi a Bahia” e “Aconteceu no Natal do Mickey”).

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Big Boss 64 29 de novembro de 2018 - 22:28

E mais: você usa uma foto do Xorn de perfil? Não é melhor usar a do Magneto mesmo?

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Fabio Gomes 15 de dezembro de 2018 - 17:33

O Donald do Barks é – pelo menos a partir de 1953, quando o Tio Patinhas passou a estrelar revista própria nos EUA – um cara que busca atingir o sucesso por conta própria, para se mostrar digno da confiança do tio e se tornar seu herdeiro (o Gastão também está no páreo). Daí os mil empregos.
O Donald dos estúdios italianos pós-Barks é que se tornou um preguiçoso e covarde que vive exigindo ‘reconhecimento’ do tio. O que acaba casando à perfeição com a necessidade de proteger sua identidade secreta de Superpato (numa referência indireta ao Zorro e seu alter ego Diego de La Vega).

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Michael 11 de abril de 2020 - 13:34

Esse Donald merece um filme estilo coringa kkkk.

E essa cena dele finalmente surtando foi realmente orgânica , não foi por um motivo corriqueiro como normalmente acontece em suas aventuras, ele finalmente havia se deparado com uma situação em que um dos amigos dependia dele, se não morreria. Logo, foi preciso recorrer ao ego do Donald, a única coisa mais forte que seu medo rsrsrs.

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Big Boss 64 25 de novembro de 2018 - 15:50

Outra coisa que não entendi foi o romance Clarabela e Pateta. Nos quadrinhos ela tinha um namorado chamado Horácio.

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Ariadne Mendes 25 de novembro de 2018 - 23:46

Tem muita história, nos quadrinhos mesmo, que ela ou tem uma queda pelo Pateta, ou é namorada dele.

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G. Hoffmann 29 de novembro de 2018 - 02:15

Acho que o Horácio é mesmo o mais comum de aparecer como namorado dela, mas como a @ariadnemendes:disqus disse tem mesmo vários quadrinhos em que ela faz par com o Pateta. Eu já vi até um quadrinho em que ela se revela apaixonada pelo Bafo! São várias fases na vida da Clarabela…

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Big Boss 64 29 de novembro de 2018 - 22:23

Quem diria? A Clarabela é o personagem mais desenvolvido da turma do Mickey Mouse kkk

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Fabio Gomes 15 de dezembro de 2018 - 17:37

O namorado, digamos, ‘oficial’ da Clarabela seria mesmo o Horácio. Já o Pateta teria atração pela Clarabela, mas não lembro de o ‘romance’ ter ido adiante, era uma coisa mais platônica (mesmo considerando que estamos falando do universo Disney! rs).

A declaração ao Bafo foi um truque para ela escapar de um sequestro onde ele a mantinha, se é que estamos falando da mesma história (é um clássico do Paul Murry).

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Big Boss 64 25 de novembro de 2018 - 15:46

As músicas clássicas aqui marcaram tanto minha infância que, quando elas tocam em outros lugares, começo a cantar as letras do filme kkk

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G. Hoffmann 29 de novembro de 2018 - 02:17

Pra mim a letra oficial da 5a sinfonia de Beethoven é: “Isso é o fim/ Isso é o fim/ O Pato Donald Traiu o Mickey Mouse / E deu as costas ao Pateta, um desleal” (…)

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