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Crítica | Mil Golpes – 2ª Temporada

A ressurreição de Mary, Hezekiah e Sugar.

por Ritter Fan
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O império serializado de Steven Knight sobre histórias reais ou, talvez melhor dizendo, inspiradas na realidade, que são passadas no Reino Unido entre o o século XIX e a primeira metade do século XX continua firme e forte depois de Peaky Blinders, Taboo e House of Guinness com a segunda temporada de Mil Golpes, lançada menos de um ano depois da primeira, por ambas terem sido filmadas juntas, um privilégio que poucos produtores têm. Promovendo um pulo temporal de um ano, a história começa nos pontos mais baixos das vidas da ladra Mary Carr (Erin Doherty), com a gangue feminina dos Quarenta Elefantes desfeita, tendo que trabalhar sob ordens do impiedoso Indigo Jeremy (Robert Glenister), do lutador de boxe jamaicano Hezekiah Moscow (Malachi Kirby), que perdeu seu melhor amigo Alec Munroe (Francis Lovehall) e foi banido do ringue e do boxeador sem luvas e dono de bar Henry “Sugar” Goodson (Stephen Graham), que, depois de quase matar o irmão, entrega-se completamente à bebida, vivendo como um indigente nas ruas do East End de Londres.

O segundo ano da série, portanto, trabalha para reerguer seus protagonistas, algo que começa a tomar forma com Mary tentando mais uma vez reunir sua gangue para executar um novo plano que conta com a ladra americana (que realmente existiu) Sophie Lyons (Catherine McCormack) que vem de Nova York especialmente para isso, Hezekiah vingando-se daqueles que fizeram mal a ele e à sua família e planejando retornar para a Jamaica, sendo resgatado dessa espiral pela aristocrata nigeriana Victoria Davies (Aliyah Odoffin) para tornar-se treinador de boxe de um príncipe que é segundo na sucessão à coroa britânica e Sugar ganhando uma segunda chance na vida quando Hezekiah o retira das ruas em um estupor alcóolico mortal, levando-o de volta ao The Blue Coat Boy, que seu irmão Treacle (James Nelson-Joyce) agora gerencia. Percebe-se, portanto, uma repetição estrutural da narrativa da primeira temporada, ainda que os caminhos específicos sejam naturalmente diferentes, com o policial Vance Murtagh (Tim Steed) novamente tendo um papel disruptivo importante que, porém, dessa vez tende a levar os antagônicos protagonistas a se unirem.

Mesmo tendo sido filmada simultaneamente com a primeira temporada e mesmo mantendo a estrutura básica, a segunda temporada é bem diversa em execução e isso nem sempre é algo positivo, por incrível que pareça. Há um ensaio que traz um revolucionário francês para a história de Hezekiah que, porém, fica só mesmo no ensaio, sem nenhum tipo de aprofundamento desse aspecto, com uma convergência narrativa ao final que é tão tênue que esse aspecto da temporada poderia ser substituído por qualquer outra coisa. Pelo menos Hezekiah, em si, mesmo não se envolvendo com o boxe como no ano inaugural, segue um caminho de desenvolvimento pessoal que indaga se o mais importante para ele é voltar para sua terra natal ou investir no esporte que ele parece ter nascido para praticar. Apesar das idas e vindas que os roteiros inserem nesse caminho, no final tudo parece funcionar bem para o personagem que ganha um arco narrativo enriquecedor.

E o mesmo pode ser dito de Mary Carr. Na verdade, minto. Se Hezekiah tinha o destaque na primeira temporada por eles ser o “estranho em terra estranha”, agora Mary toma a série de assalto, abrindo espaço para que Erin Doherty realmente brilhe em seu papel que igualmente reconstrói e reposiciona a personagem, com direito a um plano de roubo vindo e auxiliado por Sophie Lyons que tem, digamos, “habilidades especiais” que acaba sendo bem mais interessante do que o o primeiro. O relevante, no caso de Mary, é a reconstrução de sua gangue e a solidificação de sua reputação como a “Rainha” do grupo, algo que passa por sua mãe e, também, pela violenta família Jeremy de Indigo. Sugar, por seu turno, é suavizado. No lugar do lutador selvagem que existia, o que surge de seus 12 meses de bebedeira constante é um homem surpreendentemente sábio, capaz de tudo por sua família, inclusive fazer alianças que antes eram impensáveis, para o bem ou para o mal. Stephen Graham mostra nuanças para seu personagem e isso faz muito bem a ele, mesmo que, da trinca principal, ele seja o que ganha menos destaque.

Mas Mil Golpes, em seu segundo ano, mesmo mantendo a altíssima qualidade nos quesitos técnicos, notadamente fotografia, design de produção e figurino, sofre um pouco pela dispersão da história, algo particularmente sensível na primeira metade e pelo uso de personagens do primeiro ano só pela vontade de usá-los, como é especialmente o caso de Lao Lam (Jason Tobin), que retorna de sua “morte” para não fazer absolutamente nada. Há muito acontecendo no começo que, na segunda metade, é em grande parte esquecido, revelando um certo desequilíbrio no desenvolvimento da história. Tudo continua muito interessante, mas certamente menos urgente, ainda que Catherine McCormack e sua inusitada personagem dê um gostinho especial ao que se desenrola. A grande vantagem é que, mesmo com um final que não é derradeiro, deixando portas abertas para mais temporadas, fato é que um ciclo é encerrado aqui e o que vier pela frente – se vier – será potencialmente uma completamente nova história, ainda que com os mesmos personagens. Ou seja, se houver renovação, ótimo; mas, se não houver, não será o fim do mundo para quem tiver apreciado a série. Quem sabe Steven Knight não consegue manter seu monopólio de um espaço-tempo específico por mais uma ou duas temporadas de sua série repleta de golpes, sejam eles esportivos ou escusos?

Mil Golpes – 2ª Temporada (A Thousand Blows – Reino Unido, 09 de janeiro de 2026)
Criação: Steven Knight
Direção: Katrin Gebbe, Dionne Edwards
Roteiro: Steven Knight, Yasmin Joseph, Harlan Davies, Insook Chappell, Ameir Brown
Elenco: Malachi Kirby, Jair Ellis, Erin Doherty, Stephen Graham, Darci Shaw, Tim Steed, Jason Tobin, Aliyah Odoffin, Hannah Walters, Morgan Hilaire, Caoilfhionn Dunne, Jemma Carlton, Nadia Albina, Susan Lynch, Robert Glenister, Ned Dennehy, Catherine McCormack, Francis Lovehall, Daniel Mays, Bryan Dick, Alexandre Blazy, Garry Cooper. Richard Dillane, Stanley Morgan, James Fisher, Anthony Howell, Ruaridh Mollica, CJ Beckford, Seth Somers
Duração: 258 min. (seis episódios)

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