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Crítica | Mil Vezes Boa Noite

por Leonardo Campos
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Para quem conhece os filmes com personagens fotojornalistas, sabe que há uma construção arquetípica na vida destas figuras ficcionais. Desde as produções do gênero aventura aos desenvolvimentos narrativos mais dramáticos e introspectivos, as produções deste segmento demonstram heróis e heroínas dispostos a colocar a vida em risco em prol do melhor clique, da foto revolucionária que vai tornar o autor do material alguém famoso, requisitado e também o responsável por registrar as mais diversas celeumas que acometem o nosso mundo. Mil Vezes Boa Noite não segue o esquema da realização fotojornalística de moda, celebridades e natureza. O seu foco é o sofrimento, a dor, a injustiça social e o caos da zona de guerra. Privilegiada em sua vida sofisticada numa belíssima casa, com um marido gentil e atraente, inteligente, com duas filhas amorosas, a fotógrafa Rebecca (Juliette Binoche) não se contenta com a forma como parte da população planetária encara com normalidade as suas vidas, sem sequer sentir algum remorso com as situações de opressão de fome e miséria sofrida por alguns povos acossados pelas ressonâncias de conflitos do passado histórico destes locais, constantemente em crise.

Por que devemos nos preocupar com o café da manhã de uma celebridade quando há pessoas que sofrem diariamente, caos motivado não apenas por disputas internas de determinadas nações, mas também pelos resquícios do passado imperialistas de países que sugaram ao máximo os recursos destes territórios e hoje gozam de privilégios, tal como a fotógrafa que alega estar interessada em ver os leitores cuspindo os seus respectivos cafés matinais ao contemplar a dor e a miséria transformadas em narrativa de denúncia. Esse é o mote de Mil Vezes Boa Noite, filme que revela a trajetória angustiante da personagem que precisa escolher entre continuar vivendo perigosamente ou deixar a profissão que tanto venera para se dedicar ao casamento com Marcus (Nikolaj Coster Waldau), pai de suas duas filhas, garotas que sente falta da presença materna em casa. Esse é o ponto nevrálgico da produção, narrativa que ao longo de seus 117 minutos, evita o excesso de subtramas e foca no drama familiar e na ação de Rebecca em campo, minuciosa com sua câmera, sempre a transformar momentos peculiares de dor em arte.

Sob a direção do cineasta norueguês Erik Poppe, também responsável pelo texto, escrito em parceria com Harold Rosenlew-Eg e Jan T. Reyneland, acompanhamos uma história relativamente arrastada, mas interessante por ser contada com emoção, interpretada também por um elenco comprometido com seus personagens. Juliette Binoche, sempre competente, entrega uma protagonista que deseja viver distanciada das amenidades sociais, do disfarce de uma vida capitalista cínica e sem posicionamento crítico. Neste filme de silêncio e arroubos emocionais, ela se arrisca fisicamente e psicologicamente. Pega carona com uma mulher bomba, atravessa territórios desérticos, enfrenta riscos diversos para atingir o seu principal foco, a denúncia, conquistada em situações constantemente perigosas, com saldo negativo ainda na relação com suas filhas que pouco a conhecem, e um marido irritadiço, decepcionado, que lhe estabelece ultimatos ao perceber que a sua esposa é uma mulher diante de escolhas num mundo de emancipações femininas e debates sobre liberdades e temas correlatos.

Para nos contar essa história, o cineasta Erick Poppe conta com a direção de fotografia bastante eficiente de John C. Roselund, responsável por paletas frias e cores opacas que representam, esteticamente, o estado de espírito de todos em personagens, com destaque para o estabelecimento de uma atmosfera mais densa no interior da Inglaterra, nas cenas que contemplam os poucos momentos da fotógrafa protagonista em seu lar, ao lado da família, discretamente tensa diante da matriarca que pode, a qualquer instante, arrumar a sua bolsa e partir em busca de novas denúncias nos confins de um planeta cheio de belas paisagens, mas também espaço para guerras civis, desigualdades sociais e outras crises diversas. No design de produção, a equipe de Eleanor Wood trabalha com discrição e delicadeza, ao entregar elementos visuais que refletem os perfis das figuras ficcionais que são contempladas pela trilha amena de Armand Amar, sofisticado e sem aderir ao excesso em prol do derramamento de lágrimas.

Ademais, como entretenimento, Mil Vezes Boa Noite é um filme tranquilo, sem grandes momentos de intensidade nos diálogos, com os personagens sempre equilibrados na disseminação de suas opiniões mediante os tantos conflitos. Lançado em 2013, temos aqui uma discussão sobre a busca de uma pessoa pela racionalidade, ao escolher o lugar tranquilo da mãe de família que até pode colaborar com as suas ansiedades políticas, mas que na verdade prefere focar na atuação mais viva e intensa de uma zona de guerra fotografada para se tornar um painel de denúncias num mundo que parece tranquilo demais diante de suas crises. Uma pergunta básica nos surge enquanto a narrativa se desenvolve: caso fosse o marido, Marcus, a cobrança seria a mesma? Para refletirmos, mesmo que a resposta já seja tão óbvia, não é mesmo? Aos interessados em pensar a mulher na fotografia, deixo como sugestão, o documentário Fotográficas, produzido pela TVE Bahia. É um complemento para pensarmos os desafios enfrentados por figuras que tal como os homens, podem sim, ter garra e bravura na profissão.

Mil Vezes Boa Noite (Tusen ganger god natt – Noruega/ Irlanda/ Suécia, 2013)
Direção:
Erik Poppe
Roteiro: Erik Poppe, Harald Rosenløw-Eeg
Elenco:  Nikolaj Coster-Waldau, Juliette Binoche, Maria Doyle Kennedy, Larry Mullen Jr., Chloë Annett, Lauryn Canny, Eve Macklin, Mads Ousdal
Duração: 117 min.

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