Home FilmesCríticas Crítica | Minari: Em Busca da Felicidade

Crítica | Minari: Em Busca da Felicidade

por Kevin Rick
2722 views (a partir de agosto de 2020)

Eu tive uma certa dificuldade em formular minha opinião sobre Minari, um dos frontrunners para vencer o Oscar 2021 na categoria de Melhor Filme. Grande parte da minha experiência estava em torno da contemplação da fita. Tá aí uma palavra usada e reusada constantemente quando se fala de filmes como Minari. O próprio Nomadland, outro indicado ao Oscar deste ano, se enquadra nesse ato de admiração fílmica, mas no filme dirigido por Chloé Zhao, eu fui capaz de distinguir como a obra utiliza o teor contemplativo para construir algo com identidade própria, documental e introspectivo. Já a película meio autobiográfica e dirigida por Lee Isaac Chung, num primeiro momento, me pareceu genérica demais. Contudo, quanto mais eu pensava sobre a obra, mais eu percebia como Chung tem êxito na sutileza.

A narrativa acompanha uma família coreana, encabeçada pelo patriarca Jacob (Steven Yeun) e sua esposa Monica (Yeri Han), e seus dois filhos David (Alan S. Kim) e Anne (Noel Cho), que se mudam para o Arkansas para começar uma fazenda. A primeira distinção da obra está na maneira como, apesar de ser uma história sobre imigrantes asiáticos nos EUA dos anos 80, ela nunca tende a cair no melodrama, na tão vista fixação com os males do racismo expostos de um jeito lúgubre e sensacionalista atualmente. Claro que é uma temática importante, mas sinto que muitas obras contemporâneas perdem a mão na crítica social, enquanto Minari é um grande exemplo de como ser poderoso sem ser explicativo.

A maioria dos problemas culturais tratados na obra partem do campo interno, um drama familiar como personificação de toda uma cultura imigrante em busca do esperado sonho americano. Chung utiliza em grande parte a rachadura de visões entre o casal protagonista para desenvolver questões de choque cultural e preconceito, no qual há uma discussão sobre tipos de qualidade de vida. Esse debate é manuseado para trabalhar vários pensamentos opostos ao longo da fita, como financeiro x emocional, tradicional x progresso e, principalmente, as divergentes culturas em exposição. Jacob e Monica acabam sendo uma metáfora dessa luta interna de imigrantes, em grande parte em oposição, mas se conectando e entendendo um ao outro ao longo da narrativa. O isolamento da fazenda expande as interações da família, trazendo à tona as dificuldades dos imigrantes, mas, novamente, a contemplação é o grande artifício de Chung, que a usa para transpor as adversidades a partir da compreensão.

Compreensão esta que não vem de forma alguma facilmente entre a família coreana, mas o caráter contido dos personagens, os longos shots naturalistas, a belíssima trilha sonora elementar e a contemplação – sim, ela novamente – preenchem a dramaturgia com um toque de ternura. E acredito ser nisso que Minari se sobressai, pois é capaz de abordar um leque de temáticas importantes com uma sutileza, uma tristeza sadia, por assim dizer, inseridas na dinâmica familiar complicada de um pai que quer prosperar a grande custo, e de uma mãe em conflito com sua raízes, como evoluir sem perder a si mesmo e sua cultura. Pode-se dizer que existe uma falta de propulsão ou impacto na obra, mas Minari não necessita de manipulação dramática ou apelação emocional para ser ousada em seu ritmo suave sobre um drama familiar universal, e ainda conter em suas entrelinhas o embate da complexidade da mudança, tão conectado a imigrantes.

A inserção da vovó Soonja (Yuh-Jung Youn), acrescenta um papel catalisador ao cerne familiar, se tornando mais um fator complicador no submundo que a família ocupa, uma explosão do país antigo absoluto. O próprio David diz no filme: “Vovó cheira a Coréia!”, embora o que realmente o irrite é o quão pouco ela se encaixa em suas ideias sobre como uma avó deve se comportar. O coming of age de David acaba sendo a grande importância simbólica da obra em relação ao pertencimento imigrante/coreano, ressentido de sua avó, conflituoso com sua mãe dividida, e com medo de decepcionar seu pai na incessante busca do sonho americano. Em outra nota, o relacionamento de David e Soonja, além de dramático e delicado, é extremamente divertido e gostoso de assistir.

Se você considera Minari “apenas” um bom filme ou uma obra genérica, eu consigo entender, pois foi minha experiência inicial com a fita, e a vagarosidade da direção de Chung passa esse sentimento, mas ao refletir na misé-en-scene do cineasta, vejo a obra como uma mensagem poderosa sobre pertencimento cultural, conflito interno com suas raízes e as complexas mudanças de um cenário familiar exposto isoladamente e contemplativo, mas sempre expansivo e numa crescente emocional suave de pura e simples compreensão. No fim, o que mais importa é a família e suas lutas titânicas com o clima, com o destino e entre si.

Minari – EUA, 2020
Diretor: Lee Isaac Chung
Roteiro: Lee Isaac Chung
Elenco: Steven Yeun, Yeri Han, Alan S. Kim, Noel Cho, Darryl Cox, Will Patton, Yuh-Jung Youn, Jacob M Wade, Eric Starkey, Ben Hall, Esther Moon
Duração: 115 min.

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25 comentários

Cleibsom Carlos 25 de abril de 2021 - 01:24

Acabei de assistir MINARI e já me esqueci dele, de tão genérico que o filme é…Tudo nele é ordinário demais, no sentido de não possuir nada que o diferencie na multidão, ou seja, um filme “sem qualidades”. Como em Hollywood nada existe por acaso e a Coreia do Sul parece estar em alta na terra do Tio Sam, este filme só se justifica enquanto produto de “relações públicas” entre dois países, pois só isso torna compreensível a repercussão que ele vem obtendo. E como MINARI fez o serviço direitinho, retratando os EUA como o céu na Terra e o Olimpo a ser alcançado, sempre olhando o país norte-americano de baixo para cima, pode ser que, por sua subserviência, fature alguns prêmios no Oscar.

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Kevin Rick 28 de abril de 2021 - 02:19

Que deturpação da imagem da obra, cara. Cada um tem sua experiência com o filme, mas você está forçando a barra com esse posicionamento, se agarrando a ideais próprios para justificar algo que o filme não propõe.

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Cleibsom Carlos 29 de abril de 2021 - 13:35

Mas a beleza da vida é justamente essa, Kevin…Como posso ver uma obra de arte se não por “ideias próprias”? Como posso ver uma obra de arte através de ideias de outra pessoa? Não me interessa o que o realizador ou a realizadora da obra quis dizer e sim o que eu senti assistindo aquela obra. A partir do momento que uma obra não deseja “catequizar” ninguém, ela está sujeita a diversas interpretações, todas elas permitidas mesmo que as achemos “equivocadas”. Sendo assim, e como acredito que MINARI, apesar de fraco e bajulador, não tenha sido feito com o claro intento de manipulação do espectador, apenas temos opiniões diferentes sobre ele e está tudo bem para mim.

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Kevin Rick 30 de abril de 2021 - 16:49

Não falei ideias, e sim ideais. Sua experiência já é engessada pela maneira imutável que você consome arte. Arte é adaptável, em constante mudança.

“Não me interessa o que o realizador ou realizadora da obra quis dizer”

A partir do momento que você inicia uma obra artística querendo que ela se enquadre em um ideal próprio, uma perspectiva fixa pré-determinando sua experiência, você está deliberadamente se rejeitando a melhor parte de consumir arte: tentar entender o que o artista fez, e criar sua própria opinião e sentimento da sua experiência, o positivo e o negativo, no técnico e no subjetivo. Aí sim entram suas ideias, mutáveis. Não tem problema ter opiniões diferentes, e muito menos enxergar uma obra de um jeito contrário que a do artista. O bacana da subjetividade do Cinema é isso. Mas fica claro que seu posicionamento parte não de um observador, mas de alguém que quer enquadrar a obra em algum tipo de visão própria mercadológica e política, pelos seus vários comentários.

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Joana Callado 23 de abril de 2021 - 21:49

Acabei de assistir, achei mediano. A história é bonita, de superação, mas o que mais me pegou foi o relacionamento do garoto com a avó. Tem tudo o que se espera: imigrantes tentando o “American dream”, conflitos internos familiares, crítica à cultura estadunidense, preconceito e choque cultural. A fotografia do filme é linda! O final é daqueles que deixam um “quentinho no coração”, mas não precisava terminar assim. A mensagem já tinha sido passada. Diante de todas as adversidades, estar com aqueles que amamos nos faz mais fortes.

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Kevin Rick 28 de abril de 2021 - 02:16

Justíssimo, Joana! Como eu falei no texto, minha impressão inicial era de altos mais mediano, mas a obra foi crescendo em mim rs

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Mauricio Ceccon 23 de abril de 2021 - 00:53

O filme me cativou em vários sentidos… a fluidez da jornada (ou do roteiro, como queiram), a fotografia primorosa, a díade contínua entre o olhar inocente e perverso do American Dream… Mas o que mais salta aos olhos é a humanidade dos personagens. Eles são reais, cheios de conflitos internos, e, tal como qualquer um de nós, agem e reagem mais por emoção do que por razão. O final é único ponto fraco: parece forçado demais, até mesmo desnecessário. Para mim a mensagem já fora passada. Aquela “catarse” não convenceu…

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Kevin Rick 28 de abril de 2021 - 02:15

Eu curto o final. Acho que faz uma ponte interessante entre a derrocada simbólica do país absoluto e da tradição com a vovó, além de que versa sobre o sonho americano de um jeito pessimista. Mas, como eu disse na crítica, entendo perfeitamente esse posicionamento! Que bom que curtiu o início da obra!

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Ana Batista 22 de abril de 2021 - 14:00

Por favor aonde vocês assistiram por que quero muito ver e não acho

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planocritico 22 de abril de 2021 - 15:20

Nós assistimos por screeners enviados para críticos. Mas o filme estreia hoje nos cinemas do Brasil, mas não saberia dizer em que cidades.

Abs,
Ritter.

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Douglas Melo 22 de abril de 2021 - 13:24

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Felipe Brandon 22 de abril de 2021 - 02:32

Meus amigos que filme. Muito bonito e reflexivo.
David é o melhor personagem do filme e só a minha opinião importa. E que ator mirin mais fofo.
Tudo no filme está impecável, absolutamente tudo. A cena da vovó Soonja tomando chá (ops não era chá) kkkk foi de longe a melhor filme. Morri de rir.
E aquele filnal de partir o coração, é triste.
Obg por mais uma crítica ^^

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Kevin Rick 22 de abril de 2021 - 05:06

Obrigado! É um filme muito bonito mesmo.

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Silvia Regina Silveiro 21 de abril de 2021 - 23:57

…esperava mais do filme …sem dúvida as cenas com a avó e o menino ..são as melhores.

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Kevin Rick 22 de abril de 2021 - 05:06

Entendo perfeitamente!

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Nathanael Pereira 21 de abril de 2021 - 20:36

Eu senti a msm coisa ao assistir o filme de início achei um filme simples mas depois fiquei com aquela sensação de reflexão e repassando algumas cenas na mente, as cenas com a vovó Soonja e o garoto são as melhores.

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Kevin Rick 22 de abril de 2021 - 01:01

Sim, tivemos a mesma experiência! O filme é uma crescente durante a obra em si, e após o término também. Eu amei o núcleo da vovó com o garoto. Tocante, terno e com vários momentos hilários!

Responder
Nathanael Pereira 21 de abril de 2021 - 16:36

Eu senti a msm coisa ao assistir o filme de início achei um filme simples mas depois fiquei com aquela sensação de reflexão e repassando algumas cenas na mente, as cenas com a vovó Soonja e o garoto são as melhores.

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Alan 21 de abril de 2021 - 12:51

Excelente filme. Ótima história e interpretações. Ele nos prende do início ao fim sem cair no melodrama.

Responder
Kevin Rick 22 de abril de 2021 - 01:00

Exatamente!

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Victor Martins 21 de abril de 2021 - 12:34

Filme lindo e doce demais. Eu depois lembrei que o Lee Isaac Chung é quem vai dirigir o live action de Your Name e agora estou confiante kkk

Responder
Kevin Rick 22 de abril de 2021 - 01:00

Cara, eu nem sabia que ia ter live action de Your Name!! Tenho o pé atrás para adaptações hollywoodianas de animes, mas o Chung é um bom começo ein.

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Jean 🐰 21 de abril de 2021 - 06:21

Acabei de assistir ao filme e vim ver se tinha crítica, e pra minha surpresa saiu poucas horas antes. Minari é um filme lindo. Eu concordo com cada um dos elogios tecidos pela crítica – acho que nunca concordei tanto com uma crítica na minha vida kkkk. Mas eu só tenho um problema com a fita, mas entendo que isso deve ter se dado por razões narrativas: a família deixar uma senhora que acabou de ter um AVC sozinha em casa. Fiquei o tempo todo me perguntando porque não deixaram a menina em casa, pelo menos pra auxiliar.

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Kevin Rick 22 de abril de 2021 - 00:59

Que bom que concordamos tanto! É realmente algo raro hehe Essa parte aí é um “furo”, mas como você mesmo disse, é feito por uma razão narrativa.

Responder
Jean 🐰 21 de abril de 2021 - 02:21

Acabei de assistir ao filme e vim ver se tinha crítica, e pra minha surpresa saiu poucas horas antes. Minari é um filme lindo. Eu concordo com cada um dos elogios tecidos pela crítica – acho que nunca concordei tanto com uma crítica na minha vida kkkk. Mas eu só tenho um problema com a fita, mas entendo que isso deve ter se dado por razões narrativas: a família deixar uma senhora que acabou de ter um AVC sozinha em casa. Fiquei o tempo todo me perguntando porque não deixaram a menina em casa, pelo menos pra auxiliar.

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