Crítica | Mindhunter – 2ª Temporada

Tenho certeza de que esta crítica não só será uma daquelas cujo texto não “combina” com a avaliação em estrelas (conselho: esqueçam as estrelas, fiquem com o texto), como também contrariará o senso comum sobre a série. Mas tenham paciência e partam da premissa que eu realmente gosto muito de Mindhunter. Minha crítica da primeira temporada é prova inequívoca disso. O problema é que a tardia segunda temporada (foram quase dois anos para ela ser lançada!) parece a proverbial colcha de retalhos que até pode ser bonita e aquecer quem a usa, mas fica evidente que ela é feita de pedaços de outros tecidos que tentam formar um todo harmônico, mas não consegue.

A série criada por Joe Penhall, com produção (e direção de alguns episódios) de David Fincher, é absolutamente fascinante já por sua concepção básica, que é mostrar a criação e os primórdios do desenvolvimento da Unidade de Ciências Comportamentais do FBI, que tenta entender a mente de sociopatas por intermédio de entrevistas com criminosos condenados por assassinatos repetitivos. O mergulho na mente criminosa é o grande chamariz para a série, o que torna sua “venda” ao público bem mais fácil. Some-se a isso uma trinca de atores principais de alto gabarito e mais a qualidade visual que Fincher imprime e pronto, o resultado é ganhador, realmente irresistível. Mas há um desafio que já ficara evidente na primeira temporada: como equalizar esse trabalho muito passivo, ou seja, de conversar e ouvir criminosos em longas entrevistas e depois processar as informações, com as “exigências” do formato de uma série de TV, que precisa também ter sua parcela de ação e tensão? Penhall, mesmo com problemas, especialmente no núcleo feminino, conseguiu entregar uma temporada inaugural de se tirar o chapéu, muito beneficiado pela presença imponente de Cameron Britton como o inteligentíssimo Ed Kemper.

A segunda temporada, porém, rateia entre um viés e outro, sem saber conciliar muito bem o lado psicológico da narrativa e o lado da ação, criando um híbrido que talvez tivesse funcionado melhor como duas histórias separadas. O primeiro exemplo disso é forma como a temporada começa, lidando com o ataque de pânico de Holden Ford depois de seu último e não-sancionado encontro com o fascinante serial killer Kemper. Vemos Ford fragilizado, com sua ausência no FBI sendo escondida da melhor forma possível por Bill Tench, que o resgata no hospital em que está internado. Introduz-se, portanto, um elemento narrativo importantíssimo que, porém, só é usado parcialmente apenas mais uma vez, na cerimônia de “aposentadoria” de Robert Shepard, chefe dos dois que era descrente sobre a eficiência da divisão em que trabalham. Depois, é como se esse problema de Ford sequer existisse, sendo não muito mais do que objeto de comentários ácidos aqui e ali de Tench para Ford quando conveniente.

Alguns poderão achar que esse é um detalhe desimportante que não afeta o todo. E essas pessoas teriam plena razão se esse tipo de acontecimento fosse isolado. Infelizmente, porém, não é. Com a substituição de Shepard pelo carreirista Ted Gunn (Michael Cerveris), o departamento de Ford e Tench ganha todo o apoio do FBI, com Gunn desejando não só resultados, como também vendo a análise dos perfis de sociopatas como o futuro da agência. Certamente um executivo de visão, genuinamente empolgado com as perspectivas, mas um showman muito mais preocupado com as aparências do que com qualquer outra coisa, o personagem abre as portas para que a temporada perca suas amarras, mas talvez as escancare demais. Logo de início, nós vemos Gunn manobrando Tench, Ford e também Wendy Carr para que os três “se mantenham” em xeque e usem suas melhores características para fazer seu projeto seguir em frente. Tench, apesar de sisudo, sabe conversar e contar histórias, o que encanta os demais executivos e equilibra a completa inabilidade social de Ford. Carr, por sua vez, na visão machista de Gunn, é um bibelô que precisa encantar – e literalmente prostituir-se – para justificar sua existência. O problema é que Carr, apesar de ganhar relevância nos primeiros episódios, inclusive iniciando um romance com a bartender Kay Manz (Lauren Glazier), desaparece quase que por completo quando a história principal começa, permanecendo constantemente em segundo, talvez até terceiro plano, sem que os roteiros saibam encaixar ou criar um arco narrativo relevante para ela, algo que aconteceu de forma semelhante com a namorada de Ford na primeira temporada. É quase que como se Gunn tivesse conseguido seu objetivo: confinar Carr em sua sala, como uma sofisticada processadora de dados psicológicos.

E a história principal mencionada, a investigação dos chamados Assassinatos de Atlanta, em que dezenas de crianças negras foram brutalmente assassinadas, afoga completamente a narrativa psicológica que a temporada ensaia em continuar. Afinal, vemos Tench e Holden intensificando seu programa de entrevistas para catalogar perfis de assassinos, mas, diferente do que ganhamos na primeira temporada, o que temos, aqui, é uma espécie de anedotário de “melhores momentos” de figuras perturbadas famosas, incluindo alguns minutos com Charles Manson (curiosamente vivido por Damon Herriman, que fez o mesmo papel em Era Uma Vez Em… Hollywood). É como se Penhall estivesse pensando que ele não poderia deixar de continuar as entrevistas para manter o mote principal da série e sua identificação com o público, mas que ao mesmo tempo ele precisava arrumar um caso grande como carro-chefe da temporada. Com isso, o resultado é que nem uma coisa nem outra fica bem feita, com um agravante: o terrível problema pessoal vivido por Tench e sua esposa Nancy (em breve abordo essa questão específica).

De um lado, as entrevistas são feitas a toque de caixa e pouco contribuem para a narrativa como um todo, não sendo mais do que curiosidades. Kemper até aparece em uma ponta glorificada, mas exatamente por isso ele não tem o espaço para roubar cenas que teve na temporada anterior. Os Assassinatos de Atlanta é que comandam a atenção não só pelas mortes em si, como pela tensão racial que perpassa toda essa história. É esse o elemento que realmente merece destaque na temporada, com Ford primeiro tomando conhecimento dos casos ao ser levado para um encontro com as mães de algumas crianças depois que a recepcionista do hotel onde está hospedado em razão de uma das entrevistas descobre que ele é um agente do FBI. Apesar de ele imediatamente interessar-se pelo caso, o FBI só realmente passa a fazer parte da equipe investigativa depois que o número de mortes aumenta e a atenção da imprensa nacional americana cria aquele “circo midiático”.

De um lado, as mães das vítimas e as comunidades negras da cidade em geral, que tinham acabado de eleger seu primeiro prefeito negro, têm a mais absoluta certeza de que os desaparecimentos e mortes são de responsabilidade da Ku Klux Klan, exigindo providências enérgicas a respeito. De outro, o obsessivo Ford encasqueta quase que imediatamente que não só a maioria das mortes é trabalho de um só homem, como também esse homem é um negro, entre 20 e 30 anos, que dirige um carro que poderia se passar como uma viatura de polícia. O conflito entre as visões remexe, claro, em todo o lado histórico dos conflitos raciais dos EUA escravagista e do preconceito dos supremacistas brancos responsáveis por assassinatos dos mais horrendos ao longo de várias décadas. O caldeirão é efervescente e Ford, em sua relativa inocência e sempre alheio às questões sociais como um todo, insiste em seu ponto-de-vista controverso que nem mesmo os policiais brancos realmente acreditam.

O aspecto racial da investigação é muito bem trabalhado, ainda que a investigação em si seja uma música de uma nota só, com Ford mantendo sua opinião, a polícia fazendo diferente do que ele sugere ou não conseguindo fazer o que ele sugere em razão de burocracias estúpidas, tudo dando errado e todos voltando à estaca zero. O círculo vicioso de “não-acontecimentos” é cansativo e alongado demais, com o trabalho psicológico desenvolvido por Ford, Tench e Carr sendo reduzidos ao mínimo possível, se não sendo eliminado completamente da equação em Atlanta.

Fora de Atlanta, não só somos às vezes lembrados que a Dra. Carr existe e ainda está viva como um brinde narrativo, como também somos apresentados ao problema pessoal de Tench à que aludi mais acima: seu filho autista (creio eu) envolve-se no assassinato de uma criança de maneira aparentemente ritualística. Intrigante, sem dúvida, mas não em Mindhunter. Aqui, essa linha narrativa me parece completamente deslocada ao ponto de ser mais uma distração do que algo realmente relevante. Mas calma. O que quero dizer com isso é que a primeira coisa que me veio à cabeça ao ver a situação pessoal de Tench refletir o seu trabalho (até a crucificação da vítima ganha paralelismo em Atlanta) foram aquelas séries oitentistas de caso da semana em que aspectos pessoais dos protagonistas sempre, de alguma forma, ganhavam comentário no caso sendo investigado ou vice-versa. Se era um divórcio litigioso na trama principal, então um dos protagonistas ou, talvez, um dos coadjuvantes, passava por uma situação parecida, seja direta ou indiretamente. Se era o caso de um assaltante que roubou o banco por razões altruístas como Robin Hood, então algo do gênero já teria acontecido na vida de um dos personagens principais e assim por diante.

Tench ter problemas pessoais é importante narrativamente, mas daí a ser algo que está tão próximo do que ele vê no dia-a-dia, parece-me uma forma “barata” de se tentar criar uma conexão forçada. Poderia ser, simplesmente, o desenvolvimento (ou não) de sua relação com seu filho ou o aumento da tensão entre ele e sua esposa em razão de seu trabalho, com certeza duas situações mais orgânicas do que ele ganhar uma “repetição” de seu dia-a-dia também em casa. A única vantagem disso é que Holt McCallany ganha um bom espaço na temporada, talvez até maior do que o de de Jonathan Groff, o que permite que ele deixe de vez aquela “casca” de “agente durão veterano” e seja revelado como um homem dedicado ao trabalho e à família que sofre ao ver o filho e esposa passando pelo que passam, sem realmente poder fazer muita coisa que não oferecer o máximo de carinho e compreensão que consegue diante do turbilhão que é seu trabalho, especialmente considerando as constantes viagens para Atlanta. Groff, por sua vez, mantém o seu papel padrão de especialista genial e obsessivo que só ouve a si mesmo e que tem zero de empatia e, portanto, de desenvolvimento, permanecendo exatamente igual ao que era ao final da temporada anterior já que nem mesmo os ataques de pânico de seu personagem são usados para realmente construir uma narrativa relevante para ele.

A segunda temporada de Mindhunter parece sem rumo, sem saber se quer ser um thriller psicológico ou uma série de ação, não conseguindo ser plenamente nem uma coisa, nem outra. Suas partes são melhores do que a colcha de retalhos que forma, sem saber dar espaço para sua única personagem feminina do grupo principal, com o caso de Atlanta sendo muito interessante pela sua pegada sócio-econômica, mas mesmo assim falhando como uma narrativa investigativa de qualidade diferenciada e que é artificialmente paralelizada com um caso pessoal de Tench que parece existir apenas para preencher espaço e com problemas para encaixar o contínuo trabalho da Divisão de Ciência Comportamental na narrativa. Mesmo que o caso do Assassino BTK continue presente, prometendo uma história interessante futuramente, a temporada não consegue aproveitar de verdade a mente sociopática para fincar sua bandeira para além de uma compilação anedotária de assassinos doentios.

Mindhunter – 2ª Temporada (EUA, 16 de agosto de 2019)
Criador e showrunner: Joe Penhall (baseado em obra de John E. Douglas e Mark Olshaker)
Direção: David Fincher, Andrew Dominik, Carl Franklin
Roteiro: Couternay Miles, Joshua Donen, Phillip Howze, Jason Johnson, Colin J. Louro, Pamela Cederquist, Liz Hannah, Alex Metcalf, Shaun Grant
Elenco: Jonathan Groff, Holt McCallany, Anna Torv, Cotter Smith, Stacey Roca, Joe Tuttle, Michael Cerveris, Lauren Glazier, Albert Jones, Sierra McClain, June Carryl, Sonny Valicenti, Regi Davis, Cameron Britton, Happy Anderson
Duração: 518 min. (9 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.