Crítica | Minding the Gap

A adolescência é um período capaz de deixar marcas irreparáveis. Não apenas pela alta instabilidade emocional, mas também pela influência da criação. Entre os elementos que podem afetar a vida de um jovem, um dos principais é a violência, verbal ou física. Infelizmente, nessa idade, não é incomum presenciar brigas pesadas entre os pais ou ser vítima de correções agressivas. Nem todos crescem em volta de carinho.

Essas experiências negativas, mesmo que igualmente traumáticas, atingem cada um de maneira diferente. Um exemplo disso está no documentário Minding the Gap, visto que, além da amizade, os personagens da película compartilham infâncias tumultuadas, mas eles enfrentam o assunto de maneira distinta. O longa apresenta a relação de Keire Johnson, Zack Mulligan e Bing Liu, três skatistas. No fim da adolescência, eles se vêem diante de novos compromissos e precisam encarar medos antigos. Para Liu, a forma de enfrentar esses traumas é produzindo esse filme sobre seus amigos e si mesmo.

A premissa envolvendo skate, brilhantemente apresentada pela obra por intermédio de sequências dinâmicas que seguem os garotos realizando suas manobras, parecendo uma espécie de balé urbano, serve como símbolo da fuga que os personagens buscam. Como Keire comenta em determinado momento: “é uma espécie de droga de certa forma. Tipo, posso estar à beira de um colapso mental, mas enquanto for capaz de andar de skate estarei ótimo”.

Diante desse cenário, o documentário mostra-se um excepcional coming of age, mostrando como esses jovens reagem contra as responsabilidades, como a busca por um emprego, no caso de Keire, e o filho prestes a nascer, no caso de Zack. Portanto, o mérito do diretor Bing Liu está em captar uma percepção verdadeira dos garotos sobre suas vidas. Um exemplo disso ocorre quando Zack comenta a dificuldade de se enxergar maduro, dizendo: “sinto ansiedade sobre não me sentir como adulto”. Ou seja, para extrair esse tipo de fala, Liu mostra-se um grande entrevistador.

Aliás, é interessante que o realizador permita que o público ouça suas perguntas e não apenas as respostas dos entrevistados. A estratégia justifica-se porque, aos poucos, Liu revela como Minding the Gap trata-se de uma obra extremamente pessoal. Ele confronta seu passado por intermédio das entrevistas com a mãe, ambos vítimas de um homem cruel, o padrasto dele. Inclusive, vale ressaltar como, apesar do envolvimento pessoal com a película, Liu conduz essas sequências de maneira brilhante, se colocando em tela (um dos únicos momentos que isso acontece) e mantendo ele e a mãe fora do mesmo quadro, ressaltando a distância sentimental que há entre os dois, visto que ela permitiu todas as agressões do ex-marido.

Portanto, Liu apresenta aqui outra qualidade indispensável para um documentarista: coragem. No entanto, a valentia do diretor não está em denunciar fatos graves, como ocorre em diversas obras desse tipo, mas sim em expor, de maneira crua, a si mesmo e aqueles que ama. O realizador não esconde o próprio trauma, o rosto de vergonha da mãe, o choro de Keire ou o alcoolismo de Zack. Se os documentários são conhecidos por seu realismo, Minding the Gap eleva isso a outro patamar, sendo impossível não se envolver aqueles jovens.

Além de desenvolver os protagonistas, o roteiro ainda explora temas importantes socialmente através do arco de cada um, como o racismo, sofrido por Keire, e o machismo, que atinge Nina, namorada de Zack. Aliás, mesmo permanecendo em segundo plano, a garota é brilhantemente utilizada para ressaltar o valor que uma criação sentimental pode surtir, visto que ela foi carinhosamente acolhida pelos tios após ter seu filho. Como ela mesma diz: “pela forma como fui criada, ansiava desesperadamente por amor”. No fundo, é o que todos eles buscam, amor, sentimento negado na infância.

Já o trabalho de edição é preciso ao costurar as histórias de cada um daqueles jovens, ressaltando como cada um lida com os traumas passados. Keire se arrepende por não ter feito as pazes com o pai; Liu tornou-se introspectivo; e Zack vive alcoolizado. Comparando cada adolescente, o filme evidencia como algumas situações se repetem na vida de quem sofre abusos, mas os impactos distintos. A montagem ainda aproveita a semelhança temática dos arcos dos personagens para criar comentários brilhantes acerca da obra. Há uma cena, por exemplo, em que Zack justifica a agressão que cometeu contra a namorada e, em seguida, ocorre um corte para o rosto entristecido de Liu ouvindo a mãe dizendo que o ex-marido também era bom para ela; o momento ressalta não apenas o absurdo de justificar violência, mas também o tipo de homem nojento que o padrasto do diretor era e que seu amigo está se tornando, criando um paralelo entre os dois.

Falando nisso, alguns dos momentos mais impactantes do documentário envolvem Zack, visto que é o jovem mais destroçado por seu passado, tornando-se um adulto violento e viciado, mas que ainda luta para melhorar. Por isso, o longa poderia tratar com mais cuidado a criação do rapaz, não recebendo a mesma atenção que a infância dos outros personagens tiveram.

Mesmo aqueles que não tiveram uma infância tão traumática podem ver em seu grupo de amigos uma verdadeira família. Muitas vezes, parece que nossas amizades nos entendem melhor que qualquer um e, talvez, o vínculo afetivo com aqueles que nos criaram só surja na vida adulta. Em Minding the Gap, acompanhamos uma bela família formada por jovens skatistas, sendo o único local onde encontram o amor ausente na infância. Às vezes, a maior violência que alguém pode cometer é negar amor a quem tanto anseia.

Minding the Gap – EUA, 2018
Direção: Bing Liu
Roteiro: Bing Liu
Elenco: Keire Johnson, Zack Mulligan, Bing Liu
Duração: 93 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.