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Crítica | Mineirinho, de Clarice Lispector

por Marcelo Sobrinho
31 views (a partir de agosto de 2020)

Clarice Lispector, em sua última entrevista, afirmava que um de seus textos que mais lhe marcara era a crônica Mineirinho, motivada por uma notícia de jornal sobre a execução de um criminoso com treze tiros. Trata-se de um dos textos mais diretos da escritora, escrito como num ímpeto de desafogo e de alívio de algo que perturbara profundamente a autora. Clarice, movida por uma enorme sensibilidade aos horrores do mundo, faz uma crônica bem ao seu estilo – partindo de uma notícia real, ela examina longa e minuciosamente todo o mal que se escondia sob aquela execução que, para muitos, teria sido apenas algo merecido e que ofertaria à sociedade algum repouso diante do caos que amedronta a todos nós.

Das muitas crônicas que Clarice escreveu durante tantos anos para veículos como o Jornal do Brasil, certamente nenhuma é tão feroz quanto Mineirinho. É até curioso ver uma autora tão hábil em desvelar um mundo que se esconde nos pequenos acontecimentos do cotidiano (suas famosas epifanias) sendo tomada por algo tão mais impactante e brutal mesmo a olho nu. A morte do assassino que dá nome à crônica ganhou todos os noticiários da época e provocou todo tipo de reações da população em geral. Clarice parte de um tipo de leitmotiv pouco frequente em sua obra, mas o que desenvolve a partir daí é absolutamente clariceano.

A autora insere, de saída, uma personagem típica de seus contos e romances – a mulher comum, dona de casa, transtornada pela notícia e conversando sobre ela com sua própria empregada. Mais uma vez, a catarse é disparada no âmbito doméstico. É ali que ocorre a angústia e a transformação mais uma vez. Ambas as mulheres sentem-se perdidas com relação aos seus próprios sentimentos – deveriam sentir alívio por estarem mais seguras ou dor por uma vida, de quem quer que fosse, ter sido brutalmente retirada? É maravilhoso que a escritora demonstre um mal-estar comungado e que logo produz uma sentença. Mineirinho terá sido recebido no céu. “Mais do que muita gente que não matou”, arremata a narradora em primeira pessoa.

Nenhuma das duas sabe explicar, a princípio, a razão de terem chegado tão precocemente a essa sentença, mas elas a enunciam porque a sentem. Toda a crônica, com seu desenvolvimento de tirar o fôlego e sua análise fulgurante da humanidade que todos nós possuímos, busca responder a essa questão tão confusa e aflitiva – por que alguns de nós é capaz de sentir na própria pele a dor e a debacle que acomete o outro, mesmo sendo ele um “facínora”, como a própria narradora exprime no introito do texto? Clarice faz questão de ser imprecisa quanto a essa matéria interna que nos torna tão empáticos e por isso mesmo tão humanos. No famosíssimo parágrafo em que a personagem central narra o horror crescente que sentia a cada disparo dado, até chegar ao décimo terceiro, a autora sequer dá nome a esse sentimento de terror. “Há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, […]”, exclama a narradora. Essa “alguma coisa” precisa ser sentida pelo leitor, não nomeada. Clarice compreende que às vezes nomear é empobrecer.

Assim sendo, Mineirinho se transforma não em uma ode aos direitos humanos, mas em uma súplica por eles. Clarice constrói, com a densidade habitual, um texto que deixa claro que o que se tornara punhal em Mineirinho é o mesmo que se tornara benevolência e compaixão naqueles que, como nós, jamais mataram. O mais aterrador da magnífica crônica de Clarice Lispector é o diagnóstico de que Mineirinho é feito da mesma matéria de todos nós inclusive por ter feito o que jamais fizemos.

Mineirinho (revsista Sentor – Brasil, 1958)
Autora: Clarice Lispector
Número de páginas: 5.

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