Crítica | Minha Fama de Mau

“Garota ir ao cinema
É uma coisa normal
Mas é que eu tenho
Que manter a minha
Fama de mau…”

Minha Fama de Mau, cinebiografia do músico Erasmo Carlos, possui personalidade. Conversando com a ótica do seu protagonista, enquanto jovem e dono de um caderninho que usava para ilustrações e composições, Lui Farias, o diretor do longa-metragem, decide transformar essas páginas em realidade. A obra, portanto, assume imediatamente uma estimulante estética de quadrinhos, assim como um acompanhamento musical marcado por canções icônicas – e um pouco clichês quando no intuito de estabelecer a década em questão, como é o caso de “Rock Around The Clock”. Mas é mais para frente, quando um cantor sai de um pôster e interage com Erasmo, aqui interpretado por Chay Suede, que Minha Fama de Mau se distancia completamente de outras produções do gênero. Já em contrapartida, o charme, inerente a um personagem – e um ator – que nos tenta seduzir constantemente, não consegue sustentar uma narrativa tão perdida.

Em primeira instância, fora as saídas estilísticas proporcionadas pela competente edição, trajando uma agilidade que permeia a primeira parte do longa-metragem, o que marca, acima de tudo, o cerne do projeto é a quebra da quarta parede. O uso é recorrente em vários momentos da fita, embora o terceiro ato seja um caso de exceção, com muito menos recursos dessa espécie acontecendo. Quem ganha, mais do qualquer outro afortunado, com essas interações entre a ficção e a realidade é Chay Suede, tornando-se mais próximo ao público. Com espaço para comportar mais carisma ainda, o ator convence o espectador do seu jeito com cara de “América”. Seus trejeitos, no começo do filme, a exemplo, imitam Elvis Presley e outros cantores, e o ator sabe como conquistar o público através dessa comparação visual quase imediata. Um outro ponto enaltecido é o humor do projeto, impulsionado posteriormente pela presença de Bruno de Luca.

Caso exista uma premissa mais concreta nesse início do enredo, essa seria uma mera permissão à juventude ser simplesmente jovem, vivendo a inocência de um período ainda inocente. Uma noção de construção de carreira na narrativa, no entanto, existe e continuará existindo até o término do longa, usufruindo de uma pretensão mais usual a obras como essa, cinebiografias comuns. A presença de Tião Maia (Vinícius Alexandre), nesse caso, é um contraponto muito forte à ingenuidade existente no começo desse filme, que carrega uma despretensão mais confortável. Caso fosse um mero personagem, Tião seria um complemento gracioso e ácido à identidade do projeto, uma espécie de Loucuras de Verão com jeito brasileiro, premeditando tempos sombrios futuros. Mas, pautando-se na narração de Erasmo, a sua saída na narrativa é mesclada a uma intervenção no enredo para apontar verborragicamente o que seria desse jovem ao crescer mais.

Quando amarra a progressão narrativa, acerca das carreiras, com esse espírito consciente da jovialidade dos anos cinquenta, preso a essa época mesmo, em termos de conteúdo e de essência, Minha Fama de Mau é certeiro em explorar carros, namoros e aventuras sem pressão em pensar o futuro. Reparem como Lui Farias, a exemplo, permite o público ter noção da sagacidade que existe nas composições do seu protagonista que são inspiradas em outras letras, nesse caso durante a sequência de “Splish Splash”. Erasmo Carlos, e uma grande quantidade dos compositores da época da Jovem Guarda, criariam versões de músicas estrangeiras. É um abrasileiramento extremamente claro, porém, por que isso tem que ser uma coisa ruim, senão, como já disse, descompromissada como era essa juventude? A anacronia, aproximando-se cada vez mais das manifestações sociais e culturais dos anos 60, que seria a contraposição derradeira.

O projeto, contudo, ignora o tempo passado, jovens que precisam crescer e se emancipar da sua própria juventude, para ser raso. Souberam viver, mas saberão? Torna-se, porém, uma confusão cronológica. Paralelamente, a obra esquece do seu poder para pensar a arte do seu protagonista de uma maneira menos supérflua, esquecível. Colocar Erasmo e Roberto Carlos (Gabriel Leone) para brincarem de compor música é uma jogada muito importante, um entretenimento puro que também serve como informação sobre o passado. Mas o enredo, enquanto o seu personagem principal cresce no ramo da música, ajudado por outros nomes e três acordes, perde-se. Nenhuma ideia de confronto é desenvolvida, por exemplo, quando a Jovem Guarda é formada e ganha prestígio entre os jovens. Ou seja, assim que uma ruptura acontece, associada com as questões sombrias premeditadas antes, o rompimento parece ser abrupto demais, sem peso. O que sobra?

O relacionamento amistoso entre Erasmo e Roberto, amigos de fé, irmãos camaradas, mostra ser a virtude que o longa-metragem mais se interessa, porque reúne o início e o fim do projeto em uníssono. Esqueça Wanderléa (Malu Rodrigues), a outra integrante da Jovem Guarda, que é uma coadjuvante escanteada imensamente pelo roteiro. Em um certo ponto até, curiosamente, Minha Fama de Mau exemplifica sua busca – fracassada – em não ser ordinário e vago em seus discursos. São pouco mais de 10 anos apenas comportados em quase duas horas de projeção, mostrando um recorte conciso. Primeiramente, a juventude estrangeira é interessante a esses jovens músicos, depois esses músicos influenciam a juventude brasileira, e mais tarde os jovens não mais querem ouvir o iê-iê-iê. Eis um claro encaminhamento ao amadurecimento, a crescer como artista e tornar-se algo novo. Minha Fama de Mau perde-se na ponte entre uma fase e outra.

A junção de várias amantes de Erasmo em uma só atriz, Bianca Comparato, mostraria, interessantemente, a efemeridade das experiências juvenis, mas caso o resto do filme também estivesse observando essa emancipação da juventude como sendo a jornada do personagem, sobre um tremendo homem que enfim torna-se “de família”. Afinal de contas, as festas de arromba poderiam continuar em um país que passava pela sua maior revolução musical até o momento? Em termos de aprofundamento desse raciocínio, Minha Fama de Mau, entretanto, permanece na área mais segura possível, na superfície que não impulsiona os conflitos o tanto quanto poderia. Enquanto Erasmo mantém a sua fama de mal e depois a “abandona”, sua cinebiografia é inócua demais para conseguir amarrar-se a isso. Quer se sobressair em autenticidade por causa do estilo, mas peca na coesão e no que possui a dizer sobre jovens inventando o que é ser jovem no Brasil.

Minha Fama de Mau – Brasil, 2019
Direção: Lui Farias
Roteiro: L.G. Bayão, Lui Farias, Letícia Mey
Elenco: Chay Suede, Malu Rodrigues, Gabriel Leone, Vinícius Alexandre, Bianca Comparato, Luca De Castro, Bruno de Luca, Felipe Frazão, Isabela Garcia, Paulo Machado, Duda Monteiro, João Vitor Silva, Paula Toller
Duração: 116 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.