Crítica | Minha História

Quando do lançamento da série documental Arremesso Final, sobre a era Michael Jordan no Chicago Bulls, o mestre documentarista Ken Burns afirmou que ter na produção não só a NBA, como também a produtora do próprio Jordan, retira muito do valor da obra, por não apresentar uma visão crítica. Em suma, tudo tornar-se-ia chapa branca, não muito mais do que publicidade dos retratados no documentário.

Claro que Burns tem razão, mas essa conclusão não é absoluta e, em sendo claro para o espectador que essa circunstância existe, o documentário pode continuar tendo seu próprio valor, até porque documentários não são – e nem devem ser – imparciais e isentos. Os melhores são aqueles que tentam expor todos os lados de determinada situação ou pessoa, mas que deixam evidentes seus posicionamentos.

Levantei Burns aqui, pois Minha História, documentário que funciona como material complementar à autobiografia homônima da ex-Primeira Dama dos Estados Unidos Michelle Obama (Becoming, no original), lançada em 2018, é uma produção da Higher Ground Productions, empresa do casal Obama que vem investindo forte em obras documentais e que já levou – sem merecer, diga-se de passagem – o Oscar de melhor nessa categoria com Indústria Americana. Portanto, a obra sob análise é feita com a plena autorização e, claro, veto, de Michelle e Barack Obama, o que, repito, não retira seus méritos ainda que, pessoalmente, eu sempre prefira algo “desautorizado”, por assim dizer.

O documentário dirigido por Nadia Hallgren, que estreia em longas, usa como trampolim a turnê de lançamento do mencionado livro para ouvir diretamente de Michelle Obama seus comentários e sentimentos sobre sua vida como Primeira Dama. A estrutura faz uso de filmagens de bastidores da turnê, assim como perguntas e respostas em talk shows variados que ela participou nos EUA para fazer o marketing de sua obra, além de outras variadas aparições dela em escolas, igrejas e reuniões. Isso garante, logo de cara, uma grande variedade narrativa que impede que o documentário caia na mesmice ao longo de seus quase 90 minutos.

Há espaço para os mais diversos assuntos que vão desde elementos biográficos de Michelle, como sua carreira que a levou a Princeton e Harvard, depois a uma escritório de advocacia e, finalmente, ao encontro com Barack, passando pela campanha presidencial e os ataques variados da imprensa à época que a marcaram, assim como suas filhas, lembranças de seu pai já falecido e conversas com sua mãe ainda firme e forte e as mais diversas anedotas sobre o que é ser uma Primeira Dama e, mais, o que é ser a primeira Primeira Dama afro-descendente dos EUA. Aliás, vale mencionar que não listei anteriormente os comentários de Michelle sobre ser negra em seu país como parte do que é o documentário, pois sua etnia é o documentário, com essa circunstância sempre presente de maneira muito elegante, mas assertiva, em cada resposta, cada afirmação, cada lembrança dela.

Na verdade, minto. O documentário não é caracterizado por sua etnia, mas sim por Michelle Obama. E uma coisa se confunde com a outra como deveriam mesmo se confundir, pois sua presença forte e carismática – com uma palinha de seu marido, que aparece descontraído em uma de suas apresentações – é o que sustenta a narrativa e mantém o interesse do espectador a todo tempo, mesmo quando por poucas vezes ela aborda trivialidades do dia-a-dia na Casa Branca.

Mas o documentário padece de sofreguidão ao querer fazer muito em relativamente pouco tempo, o que impede que os assuntos sejam abordados com a profundidade que alguns deles mereciam, notadamente a campanha presidencial e sua relação com seu pai. Com isso, percebe-se muita rigidez no controle do tempo pela diretora, que parece cronometrar o quanto vai mostrar sobre um assunto e outro, retirando muito da naturalidade e até de preciosos momentos de improviso e descontração de Michelle. Por diversas vezes, parece que Michelle está atuando como a Michelle idealizada, ainda Primeira Dama, que precisa cuidar de cada palavra que deixa escapar de sua boca.

Hallgren inexplicavelmente, também, investe em desvios narrativos para duas estudantes em momentos diferentes do documentário, alterando os pontos de vista sem que haja um objetivo muito claro para além de preencher precioso tempo com aspectos que não ganham desenvolvimento e nem enriquecem a narrativa, tirando um pouco do espaço que Michelle poderia ter para justamente dar mais atenção a questões que ela aborda somente en passant. Com certeza não é falta de material filmado para robustecer o documentário.

Por outro lado, Hallgren é muito feliz em capturar momentos muito bonitos em que o espectador observa mulheres de todas as etnias, mas especialmente mulheres negras genuinamente demonstrando felicidade e orgulho por encontrar ainda que brevemente com a ex-Primeira Dama. O grupo de senhorinhas na Igreja dando conselhos para Michelle nessa sua fase da vida fora da Casa Branca é, nesse aspecto, um belíssimo destaque, daqueles realmente emocionantes.

Minha História poderia ter ousado mais, dando espaço para Michelle Obama discorrer em detalhes sobre os mais controversos assuntos, mas a abordagem mais, digamos, segura de Nadia Hallgren continua resultando em uma ótima obra que deve ser encarada quase que como um “extra” de qualidade da autobiografia lançada em 2018. Sim, é chapa branca e um instrumento de marketing, não tenham dúvida, mas a qualidade é inegável, assim como seu valor intrínseco do que Michelle representou e ainda representa nos Estados Unidos e no mundo.

Minha História (Becoming, EUA – 06 de maio de 2020)
Direção: Nadia Hallgren
Com: Michelle Obama, Barack Obama, Phoebe Robinson, Gayle King, Marian Robinson, Melissa Winter, Sasha Obama, Elizabeth Cervantes, Stephen Colbert, Allen Tylor, Malia Obama
Duração: 89 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.