Crítica | Minha Rainha (1929)

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A História do Cinema está repleta de narrativas sobre diretores difíceis, sobre produções lendárias, sobre filmes pensados de uma forma mas finalizados de outra — ou nunca finalizados. E existe um diretor que certamente aparece em todas essas narrativas: Erich von Stroheim, o homem que a indústria amava odiar. Em Minha Rainha (Queen Kelly), sua produção iniciada em 1928 e jamais finalizada (mas lançada em 1929) muitas dessas histórias de bastidores, brigas e inúmeros conflitos de produção parecem se aglutinar e formar a grande motivação para a demissão do diretor por Gloria Swanson, atriz principal e coprodutora do filme.

Como sempre, em se tratando de roteiros escritos pelo diretor, o cerne do enredo aborda aspectos da natureza humana, em uma história que se passa num reino de caráter absolutista em algum lugar da Europa, governado pela Rainha Regina V (Seena Owen, em uma interpretação propositalmente afetada que não adiciona muito ao papel, além da ridicularização), que tem uma fixação pelo noivo e futuro esposo, o Príncipe Wolfram (Walter Byron, o charme em pessoa). Nos primeiros momentos, o diretor dedica todo o tempo possível para a apresentação do espaço do castelo, seu funcionamento, o comportamento tirano da Rainha Regina e a vida boêmia do Príncipe Wolfram, dito desde o começo que não ama a noiva. Com esses aspectos do roteiro já entendemos a deixa para brigas palacianas e um tipo político de “guerra dos sexos” a ser desenvolvido no decorrer da obra, algo que ocorre apenas parcialmente.

Pensada como uma produção de quatro horas de duração (e o fato de a versão mais completa, restaurada e lançada em 1985, ter menos de duas horas já diz muita coisa), Minha Rainha tem todos os ingredientes de um filme que passou por problemas de produção, indo desde sequências com pouco sentido narrativo — se comparadas às do mesmo ato –, até os destinos incompletos dos personagens, que evidentemente tornam parte da sessão frustrante e difícil de avaliar, já que a única coisa que sobrou dessas cenas foram fotografias e indicações do roteiro mais os intertítulos. A versão original, que estreou nos Estados Unidos em 1º de janeiro de 1929, certamente trazia ainda mais problemas, pois tinha apenas 75 minutos, contra os 101 da versão restaurada.

Embora cada ato do filme seja muito bem dirigido, a transição entre eles não é muito orgânica e o tempo inteiro temos a impressão de que faltam cenas de contexto para completar as sequências. Após a apresentação do palácio real e seus súditos, o ritmo do filme passa a ter uma série de lombadas, embora nenhuma delas tornem os blocos dramáticos ruins. O espectador consegue aproveitar bem a destreza de Stroheim em colocar personagens em ambientes totalmente distintos e fazer com que eles revelem uma faceta diferente de si nesses espaços, fincando pé no ideal de “queda de máscaras” que seus roteiros costumavam explorar. Mesmo no segmento do Convento, o mais fraco da primeira parte do filme, lidamos com cenas que chamam a nossa atenção e nos mantêm curiosos para o que acontecerá, já que a história de Kelly se torna rapidamente o centro das atenções e Gloria Swanson domina cada uma das cenas em que aparece, com forte emotividade.

O real problema da fita começa no bloco final, a “parte africana”, que narra o retorno de Kelly para a casa da tia moribunda, tendo que se casar com um infame que fingia ser um “bom homem” para a velha, dona de um bordel. Gloria Swanson disse que foi enganada pelo roteiro, que sugeria que sua personagem iria para a África e estaria à frente de uma Casa de Espetáculos. Foi durante as filmagens deste bloco que as exigências de Stroheim, já extenuantes para a equipe e estafante para os produtores, se tornaram inconciliáveis com a produção, o que acabou gerando a sua demissão. Incompleto, o filme seria lançado apenas com fotografias e intertítulos que informavam o destino do casal principal. Em 1932 um novo final, rodado em novembro do ano anterior, seria comercializado, com cenas dirigidas por Richard Boleslawski. Esta versão foi lançada apenas na Europa e na América do Sul por conta de questões contratuais.

Pensado como uma mega produção e interrompido pelas loucuras de seu diretor, Minha Rainha é um daqueles filmes que tem uma proposta e uma história de realização mais interessantes que a do próprio filme. Como já dito, parte disso se deve ao fato de o longa não ter sido completado, mas o material que temos já é instigante o bastante para gerar boas discussões e nos fazer conhecer mais um pouco do gênio impossível que era Erich von Stroheim.

Minha Rainha (Queen Kelly) — EUA, 1929
Direção: Erich von Stroheim
Roteiro: Erich von Stroheim
Elenco: Gloria Swanson, Walter Byron, Seena Owen, Sidney Bracey, Tully Marshall, Wilhelm von Brincken, Gordon Westcott, Sylvia Ashton, Wilson Benge, Rae Daggett, Florence Gibson, Madge Hunt, Ann Morgan
Duração: 101 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.