Crítica | Minha Vontade é Lei

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A primeira vez que eu ouvi falar de Minha Vontade é Lei (1959), filme de Edward Dmytryk escrito por Robert Alan Aurthur, foi pelos “motivos errados”, há muitos anos. Tratava-se de um debate acalorado sobre os personagens Clay Blaisedell (Henry Fonda) e Tom Morgan (Anthony Quinn) em que um lado da discussão afirmava categoricamente que não havia o mínimo indício de homossexualidade no roteiro ao explorar a amizade entre esses ois indivíduos, enquanto o outro dizia que sim, havia. E há mesmo: o próprio diretor falou sobre essa característica no filme, mas disse com todas as letras que “não foi algo intencional” de sua parte. Para quem assistiu ao filme, porém, fica um pouco difícil acreditar nisso… mas tudo bem. Esta é a afirmação do diretor.

A questão mesmo é que isso não importa. A ligação especial entre os dois amigos é apenas um aspecto do desenvolvimento desses personagens, enquanto a obra se ocupa, na verdade, de temas bem mais complexos. No texto, a vila de Warlock tem um recorrente problema com um perigoso bando sediado no Rancho San Pablo, que constantemente saqueia a cidade e segue matando ou expulsando os Xerifes dali. Uma reunião do Conselho local decide então contratar um experiente e famoso pistoleiro (personagem vivido de maneira brilhante por Henry Fonda) para agir como Xerife, embora isso não seja lá uma atitude oficial/legal, mas uma medida desesperada dos cidadãos. Esse contratado salvador impõe um série de regras aos cidadãos, entre elas, a presença de seu inseparável amigo (personagem também vivido de maneira brilhante por Anthony Quinn) e ambos irão iniciar sua trajetória de “colocar a cidade nos eixos”.

Edward Dmytryk faz um bom uso de sua larga experiência dramática para conduzir o soberbo elenco do filme, grupo que merece todos os elogios possíveis. Se a mesma direção perde a mão na condução das subtramas amorosas (a verdadeira pedra no sapato do filme) e não consegue juntar bem as muitas subtramas na parte final da fita (abrindo aí também um problema de ritmo pela montagem), é na direção de atores e na condução de cenas mais densas, com diálogos inteligentes e cheios de significado que o cineasta consegue as suas maiores conquistas. Aliado ao excelente trabalho do fotógrafo Joseph MacDonald com o CinemaScope, o diretor ainda consegue destaque na construção de belas cenas utilizando a paisagem, com destaque para a tentativa de roubo de uma diligência e um certo encontro romântico nos arredores da cidade.

Embora não deixe de representar características reconhecíveis dos westerns dos anos 1950Minha Vontade é Lei sai bastante da caixa, explorando questões psicológicas ou criando subtramas familiares e amorosas que ganham grande espaço no desenvolvimento da história, diminuindo consideravelmente os enfrentamentos, perseguições e fugas. A ação é majoritariamente centrada na cidade de Warlock e, à parte os dilemas humanos desenvolvidos em distintos núcleos, levanta questões sobre o exercício do direito (enforcamento, linchamento e licença para matar ou estabelecer o controle frente aos cidadãos são temas discutidos) e questões sociopolíticas que jogam com os dilemas morais de cada grupo social àquela época. Assim, vem à tona o caráter das mulheres e dos homens que elas amam; o desejo de um amigo para com o outro; a ânsia de ser herói, estar junto, morrer defendendo uma causa; ou a mudança de personagens dúbios ou foras-da-lei para o lado dos mocinhos. Estes são assuntos discutidos amplamente no filme, o que de certo modo o torna, como disseram alguns à época de seu lançamento, “cerebral demais“.

Há também muita espera nesse filme. Era ideal para a proposta do roteiro que os bandidos se mantivessem afastados boa parte do tempo e que o espectador visse algumas relações improváveis se construírem e outras aparentemente sólidas se desmancharem. Em diferentes atos essa evolução emotiva vai interferir nas ações de um ou outro personagem, gerando contendas que crescem até culminarem na eliminação do problema ou num acordo entre as partes. A plácida direção de Dmytryk, assim como a trilha sonora muito bem marcada por peças épicas e outras mais sentimentais conseguem um bom resultado diante disso. Até a fotografia tem uma marca definitiva nesta seara, ao final da obra, quando ilumina com forte cor azul um saloon incendiado, contrastando aquela sequência à paleta de todo o restante da fita.

Existe uma aparência anticlimática vinda com a resolução da obra, mas este certamento é um final esperado para um filme que o tempo inteiro discute a aplicação da lei versus os desejos e gostos dos personagens. Quando lançado, o longa não chamou muita atenção, mas teve o seu reconhecimento a posteriori. Um faroeste diferente, intenso, inteligente. Uma obra que certamente conseguiu fugir dos clichês de seu gênero.

Minha Vontade é Lei (Warlock) — EUA, 1959
Direção: Edward Dmytryk
Roteiro: Robert Alan Aurthur (baseado na obra de Oakley Hall)
Elenco: Richard Widmark, Henry Fonda, Anthony Quinn, Dorothy Malone, Dolores Michaels, Wallace Ford, Tom Drake, Richard Arlen, DeForest Kelley, Regis Toomey, Vaughn Taylor, Don Beddoe, Whit Bissell, Bartlett Robinson
Duração: 122 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.