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Crítica | Mirai

por Handerson Ornelas
170 views (a partir de agosto de 2020)

Mirai (未来) – nome em japonês para “o futuro”

Vez ou outra surge algum diretor/animador japonês que a indústria acusa como sucessor de Hayao Miyazaki. Um deles é Mamoru Hosoda. O diretor – que já quase trabalhou em um filme do mestre do Estúdio Ghibli, saindo por apresentar incompatibilidade com a metodologia do estúdio – vem ganhando cada vez mais prestígio nos últimos anos com seus trabalhos, chegando finalmente em 2019 com seu novo longa, Mirai, para concorrer a melhor animação na maior premiação do cinema, o Oscar. Uma marca e tanto sabendo que se trata do primeiro anime não Ghibli a concorrer na categoria.

O longa conta a história de Kun, um pequeno garoto que vê sua vida mudar completamente uma vez que ganha uma irmãzinha chamada Mirai. A partir daí, uma sequência de eventos fantasiosos passam a acontecer e o protagonista passa a viajar pelo passado e futuro em uma jornada que permitirá a ele compreender melhor a história de sua  própria família.

Mirai é assumidamente um filme sobre família, admirável por apresentar um foco muito grande no tema sem cair nos clichês das mil animações do mesmo tema presente por aí. Embora muito simples, é difícil apontar outros filmes que tenham executado o assunto com tanto frescor e naturalidade. A relação entre pais e filho e entre irmãos do longa é uma das mais verossímeis que já vi, principalmente no ramo das animações. Afinal, o diretor vai além dos meros estereótipos de brigas ou afeições, demonstrando o cerne dos sentimentos de uma criança com muita atenção, desde os primeiros sentimentos de ciúmes e raiva até a mais genuína empatia.

Embora muito bom, autêntico e com argumento muito bem trabalhado, Mirai ainda não é a obra definitiva de Hosoda. Enquanto em longas como O Rapaz e o Monstro e o excelente A Garota que Conquistou o Tempo (filme que o diretor já havia trabalhado viagem no tempo) o animador apresenta personagens com maior carisma e tempo de destaque, aqui grande parte deles são coadjuvantes demais e perdem força diante de um roteiro com estrutura bastante episódica. Claramente o foco principal é Kun, que possui uma jornada de aprendizado realizada com excelência, mas que por outro lado carece de carisma e deixa a desejar em relação aos interessantes coadjuvantes de aparição relativamente curta. O filme também abre mão de qualquer exposição para possibilitar uma ótima história de fantasia, apesar dessa mesma escolha atrapalhar o ritmo inconstante do longa.

Quanto a parte técnica da animação, o longa é executado com maestria. Realmente vivemos em uma ótima época para o gênero, misturando uma belíssima paleta de cores principalmente em seu terceiro ato, desafiando o conceito da estrutura que uma animação deve seguir, misturando diversos efeitos de camadas 2D e 3D, algo que estreita relação com o excelente Homem-Aranha no Aranhaverso (que compete com Mirai na mesma categoria no Oscar) e eleva esse conceito a um novo nível.

Mirai é claramente mais um acerto de Hosoda, que caminha como um dos mais promissores animadores japoneses da atualidade, apesar de necessitar comer muito arroz com feijão para validar qualquer comparação com Miyazaki, sobretudo necessitando aperfeiçoar a cadência de seus filmes e o trabalho com seus personagens. Não me leve a mal, acho tais comparações absurdas, nenhum artista deve viver à sombra de referências de outro. Até porque, acima de tudo, Mamoru Hosoda a esse ponto já deixa bem claro uma marca autoral forte e essa é sem dúvidas a maior vitória de todas.

Mirai – Japão, 2018
Direção: Mamoru Hosoda
Roteiro: Mamoru Hosoda
Elenco: Moka Kamishiraishi, Haru Kuroki, Gen Hoshino, Kumiko Aso, Mitsuo Yoshihar, Yoshiko Miyazaki, Koji Yakusho, Masaharu Fukuyama
Duração: 98 min

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4 comentários

Léon 19 de fevereiro de 2019 - 11:25

“Não me leve a mal, acho tais comparações absurdas, nenhum artista deve viver à sombra de referências de outro.” Aplaudo de pé e tiro o chapéu.

Também fico muito aborrecido quando as pessoas ficam dando esse tipo de classificação aos artistas. “O novo Stephen King.”, “A sucessora de Agatha Christie.”, “O substituto do fulano que criou o boneco-palito.” Gente, pelo AMOR de Deus. Parem. Acabam jogando competências, pressões e legados nas costas dessas pessoas que não dizem respeito a elas. Fora que desse jeito elas nunca acabam sendo reconhecidas por sua identidade próprias, seu estilo, sua visão, mas apenas como o sucessor de alguém – que muitos veem apenas como uma mera imitação. Claro, influências vão existir, afinidades de gostos, visões de mundo semelhantes entre artistas e muito mais, sendo impossível não haver comparações e intertextualidade entre as obras dos influenciados e dos influenciadores, mas deve-se parar por aí. Não jogar todo o legado de uma pessoa nas costas de outra que não tem nada a ver com isso, nunca pediu por isso e que, com toda a certeza do mundo, quer ser reconhecida pelo seu próprio legado.

Falei, falei e não comentei nada sobre a animação. Não a assisti. Sequer sabia de sua existência, todavia, já está na minha interminável e crescente lista de coisas para ler, assistir, ouvir, fazer, comentar, rever e muito mais antes de morrer…

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Handerson Ornelas. 19 de fevereiro de 2019 - 16:49

Excelente comentário. Aplausos são para você! Abraço!

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Camilo Lelis Ferreira da Silva 18 de fevereiro de 2019 - 20:58

Tem Previsão de ser lançado no país?

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Luiz Santiago 18 de fevereiro de 2019 - 22:34

Nada marcado ainda. O curioso é que no IMDB tem assim: “Brazil 2018 (internet premiere)”.

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