Crítica | Mirai

Mirai (未来) – nome em japonês para “o futuro”

Vez ou outra surge algum diretor/animador japonês que a indústria acusa como sucessor de Hayao Miyazaki. Um deles é Mamoru Hosoda. O diretor – que já quase trabalhou em um filme do mestre do Estúdio Ghibli, saindo por apresentar incompatibilidade com a metodologia do estúdio – vem ganhando cada vez mais prestígio nos últimos anos com seus trabalhos, chegando finalmente em 2019 com seu novo longa, Mirai, para concorrer a melhor animação na maior premiação do cinema, o Oscar. Uma marca e tanto sabendo que se trata do primeiro anime não Ghibli a concorrer na categoria.

O longa conta a história de Kun, um pequeno garoto que vê sua vida mudar completamente uma vez que ganha uma irmãzinha chamada Mirai. A partir daí, uma sequência de eventos fantasiosos passam a acontecer e o protagonista passa a viajar pelo passado e futuro em uma jornada que permitirá a ele compreender melhor a história de sua  própria família.

Mirai é assumidamente um filme sobre família, admirável por apresentar um foco muito grande no tema sem cair nos clichês das mil animações do mesmo tema presente por aí. Embora muito simples, é difícil apontar outros filmes que tenham executado o assunto com tanto frescor e naturalidade. A relação entre pais e filho e entre irmãos do longa é uma das mais verossímeis que já vi, principalmente no ramo das animações. Afinal, o diretor vai além dos meros estereótipos de brigas ou afeições, demonstrando o cerne dos sentimentos de uma criança com muita atenção, desde os primeiros sentimentos de ciúmes e raiva até a mais genuína empatia.

Embora muito bom, autêntico e com argumento muito bem trabalhado, Mirai ainda não é a obra definitiva de Hosoda. Enquanto em longas como O Rapaz e o Monstro e o excelente A Garota que Conquistou o Tempo (filme que o diretor já havia trabalhado viagem no tempo) o animador apresenta personagens com maior carisma e tempo de destaque, aqui grande parte deles são coadjuvantes demais e perdem força diante de um roteiro com estrutura bastante episódica. Claramente o foco principal é Kun, que possui uma jornada de aprendizado realizada com excelência, mas que por outro lado carece de carisma e deixa a desejar em relação aos interessantes coadjuvantes de aparição relativamente curta. O filme também abre mão de qualquer exposição para possibilitar uma ótima história de fantasia, apesar dessa mesma escolha atrapalhar o ritmo inconstante do longa.

Quanto a parte técnica da animação, o longa é executado com maestria. Realmente vivemos em uma ótima época para o gênero, misturando uma belíssima paleta de cores principalmente em seu terceiro ato, desafiando o conceito da estrutura que uma animação deve seguir, misturando diversos efeitos de camadas 2D e 3D, algo que estreita relação com o excelente Homem-Aranha no Aranhaverso (que compete com Mirai na mesma categoria no Oscar) e eleva esse conceito a um novo nível.

Mirai é claramente mais um acerto de Hosoda, que caminha como um dos mais promissores animadores japoneses da atualidade, apesar de necessitar comer muito arroz com feijão para validar qualquer comparação com Miyazaki, sobretudo necessitando aperfeiçoar a cadência de seus filmes e o trabalho com seus personagens. Não me leve a mal, acho tais comparações absurdas, nenhum artista deve viver à sombra de referências de outro. Até porque, acima de tudo, Mamoru Hosoda a esse ponto já deixa bem claro uma marca autoral forte e essa é sem dúvidas a maior vitória de todas.

Mirai – Japão, 2018
Direção: Mamoru Hosoda
Roteiro: Mamoru Hosoda
Elenco: Moka Kamishiraishi, Haru Kuroki, Gen Hoshino, Kumiko Aso, Mitsuo Yoshihar, Yoshiko Miyazaki, Koji Yakusho, Masaharu Fukuyama
Duração: 98 min

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.