Crítica | Miss Dollar, Luís Soares e A Mulher de Preto (Contos Fluminenses), de Machado de Assis

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Contos Fluminenses (1870) foi a primeira coletânea de contos do nosso grande Machado de Assis. O tema central do livro é o Rio de Janeiro, durante o Segundo Reinado, e as tramas desenvolvidas pelo autor aqui tinham por objetivo alcançar um público específico, os leitores do Jornal das Famílias, do editor B. L. Garnier, onde o autor publicou seis dos sete contos que formam esta coletânea: Miss Dollar, Luís SoaresA Mulher de PretoO Segredo de AugustaConfissões de Uma Viúva MoçaLinha Reta e Linha CurvaFrei Simão. No presente compilado, como o título já diz, trago análises para as três primeiras histórias do livro.

Abaixo, uma caricatura da Semana Illustrada, de 20 de fevereiro de 1870. Vemos uma brincadeira com o fato de Machado ter recebido 200 réis e ter conseguido uma tiragem de mil cópias — segundo apontamentos de Alexandra Santos Pinheiro, em Para além da amenidade: o Jornal das Famílias 1863 – 1878 — para esta que foi sua primeira obra em prosa publicada (ele já tinha poesia e teatro no mercado). Considerando que se tratava de uma coletânea de contos vindos de um jornal, em um momento onde escritores (já) enfrentavam dificuldades de publicação, a caricatura vai direto ao ponto.

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__ Dr. Semana: Estes Sete Contos do Machado de Assis honram-o sobremaneira, enriquecem a [?] literatura…
__ Moleque: … e também a bolsa do autor e do editor.

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Miss Dollar

Único conto desta coletânea que não recebeu publicação prévia no Jornal das Famílias, Miss Dollar abre essa jornada fluminense de Machado de Assis com uma história de costumes, tendo o jovem Dr. Mendonça, Miss Dollar e Margarida como personagens centrais. O conto é numa espécie de laço compartilhado entre esses indivíduos, cercados também pela velha tia Antônia, pelo amigo Andrade e pelo boêmio Jorge, filho de Antônia.

O texto aqui tem uma estrutura de folhetim, fortemente perceptível pela divisão em capítulos, focados no desenvolvimento de uma problemática específica, agarrando-se a pequenas linhas de ação individual ou mesmo em grandes detalhes que apenas dão suporte aos personagens, o que não significa que a gente sinta falta de muitas outras coisas na história. De maneira alguma.

A engenhosidade do texto de Machado, especialmente na apresentação de QUEM É a Miss Dollar do título, fornece tudo o que precisamos saber para nos acostumar com as pessoas e os animais da trama. Com o relevo dado ao cotidiano, o leitor pode montar uma sequência sólida de acontecimentos ao longo dos dias, onde alguns encontros, olhares e certas permissões guiam a história para um romance — mas um que não parece querer acontecer.

Passando da fina ironia do início, onde cada coluna da história é bem coloca, notamos que o texto começa a jogar com pequenas tragédias e incômodos atrás das máscaras sociais. O casamento por interesse é claramente posto como uma possibilidade; a fragilidade psicológica e emocional de homem e mulher é levantada; os compromissos duradouros apenas para manter uma “honra para demonstração social” e “impressão social positiva“, idem.

Machado segue guiando solidamente esses conceitos ao passo que cria conflitos entre os personagens, fazendo com que vejamos falhas de caráter e comportamentos questionáveis de um e outro, aqui e ali. Isso, até o capítulo final, especialmente as três ou quatro últimas páginas, onde um mar de breves explicações do destino dos indivíduos é inserido.

Isso evidentemente afeta (de maneira negativa) o resultado final do conto, até mesmo em comparação com o seu excelente início e bom desenvolvimento. Entretanto, a descida de alguns degraus não chegar a fazer de Miss Dollar um conto menos que ótimo, apesar de finalizado com pressa e através de uns destinos banais (ou colocados dessa forma para destacar uma linha de “altos e baixos da vida”, o que, a rigor, não consegue lá imenso peso) e que não fazem jus ao que lhe antecedeu.

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Luís Soares

E na sequência ao conto feminino temos a atenção do autor voltada para um homem, o avarento e covarde Luís Soares. Se a gente considerar que Machado de Assis escreveu uma obra como essas para o conservador e seleto Jornal das Famílias, o caráter do conto se tona ainda mais chamativo e irônico, pois é em torno da ânsia pelo dinheiro e pelo horror de perdê-lo que a vida do protagonista se assenta.

Sagaz observador da sociedade, Machado começa a história com uma dificuldade íntima do protagonista, a de elencar as suas atividades pessoais durante o dia. A troca de turnos (algo que pessoalmente eu adoraria fazer) é colocada no texto de maneira cômica, mas o narrador não zomba de Soares. Há até uma pontada de elemento sociológico do século XIX à guisa de leve justificativa para sua disposição noturna (sem Sol e com temperatura amena), diferente da estafa e indisposição completa no escaldante Sol do Rio de Janeiro ao meio-dia…

Essa introdução serve para nos familiarizar com o espaço do personagem. Seus luxos e gastos desordenados também aparecem logo no início, acendendo uma luz de preocupação para o leitor, algo que o narrador faz questão de ironizar aqui e ali, até chegar o momento fatídico da revelação; o momento em que Luís Soares descobre que a quantidade de dinheiro que lhe sobra não o permite viver com os luxos de antes. Ele está à beira da pobreza.

A partir daí temos um tipo de Blue Jasmine do Império do Brasil, com o texto ganhando fôlego nas questões pessoais, nos arranjos para o casamento (algo também presente em Miss Dollar, mas em outra camada), no desnude do protagonista, cuja roda da fortuna vira um brinquedo nas mãos cruéis de Machado, que aproveita a situação para escancarar certas buscas por vida fácil, conflitos e rápido entendimento entre gerações + as já conhecidas traições de amigos interesseiros.

Uma jornada trágica e em tudo melancólica sobre alguém que não podia lidar com a ideia de que a vida não é exatamente a nossa fonte de prazeres e riquezas a todo o tempo. Nossas ações e estilo de vida têm um preço, seja em dinheiro ou não. Mas Luís Sores nunca entendeu isso. Como muita gente em nossos dias também parece não entender.

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A Mulher de Preto

E o tema da suposta traição da mulher e paranoia do homem se faz presente na literatura de Machado de Assis mesmo antes da publicação de Dom Casmurro… Aqui em A Mulher de Preto, o autor nos faz olhar para a personagem feminina (Madalena) a partir de um ponto de vista misterioso, especialmente porque o leitor não sabe qual será o caminho que o autor usará para desenvolver a personagem — se falando sobre sua viuvez ou explorando a relação com um “pé atrás” da parte dela para com o Dr. Estêvão Soares.

O tom realista do conto faz com que a dupla de amigos improváveis que se forma no início (Estêvão e o deputado Meneses) ganhe a nossa atenção pela particularidade da amizade. O médico parece quebrar todas as barreiras que as pessoas diziam que o deputado tinha, e se não fosse um conto brasileiro de 1870, escrito por Machado de Assis, a relação até poderia ser interpretada de uma maneira mais amorosa e não fraterna, já que o texto não esconde os sentimentos dos dois amigos e a facilidade de conexão, os frequentes encontros, as longas conversas e o “sentir-se à vontade um com o outro” aqui. Entende-se que há um mistério em torno de Menezes, mas o público não faz ideia que a trama iria guinar para algo tão mais comum e conveniente como o que temos ao fim.

Não gosto do princípio que justifica o contato e o subterfúgio utilizado por Madalena, mas no fim das contas, esse tipo de jogo psicológico serve bem ao propósito geral da história, inclusive ressaltando a visão misteriosa da “mulher de preto” que então revela um grande segredo e acaba colocando uma série de esperanças e desejos por água abaixo. Encontramos, no processo, elementos de idealização romântica, mas isso aqui só vem quando o protagonista está entregue ao improvável objeto de desejo que quebrou todas as barreiras que tinha em relação ao casamento (pena que Machado desaparece com o Padre Luís. Seria interessante ver ele conversar com Estêvão sobre isso…).

No meio dessa malfadada história de amor e de amizade, o conto explora a nobreza de alguns valores morais, olhando com simpatia para o sacrifício dos prazeres pessoais de um, para ver a felicidade de outro. Vê-se também a tentativa de se promover (a parte do literato é engraçada e muitíssimo verdadeira, hoje facilmente identificada no meio de influenciadores digitais) e o uso de alguém para fins não diretamente comunicados, algo que dá mais uma camada à personagem feminina da história.

A Mulher de Preto é um pequeno estudo de comportamento feminino, de certos costumes da abastada classe da cidade do Rio de Janeiro e de como ideias e sentimentos podem mudar radicalmente, mesmo para aqueles que sempre se mostraram muito duros e certos de suas convicções. Para Machado, é só encontrar o gatilho emocional certo para derrubá-los belissimamente.

Contos Fluminenses (Brasil, 1870)
Autor: Machado de Assis
Publicação original: Jornal das Famílias, junho de 1864 a janeiro de 1870.
Edição lida para a crítica: Nostrum Editora, 26 de maio de 2014.
213 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.