Crítica | Miss Marvel e os Vingadores (Anos 70 e 80)

O primeiro título solo de Miss Marvel teve vida curta, durando, apenas, 25 edições entre 1977 e 1979, com as duas últimas publicadas mais do que tardiamente, muito depois da publicação ser encerrada. Mas isso não quer dizer que a personagem foi esquecida. Aliás, muito pelo contrário, pois ela continuou tendo aparições constantes ao longo das décadas seguintes em diversas revistas, especialmente Os Vingadores e X-Men, inclusive ganhando e perdendo poderes e alterando uniformes e nomes.

O objetivo do presente compilado é trazer as histórias mais importantes para a heroína nos anos 70 e 80 no que diz respeito a sua relação com os Vingadores. Elegi não abordar arcos inteiros de aventuras do grupo em que ela era apenas mais uma participante, pois seriam muitos e suas participações não tão relevantes. Com isso, escolhi as edições que, de uma maneira ou de outra, marcaram a vida editorial de Miss Marvel nesse período.

Os Vingadores #171
…Onde os Anjos Temem Pisar

Importância da edição: primeira vez que Miss Marvel luta ao lado dos Vingadores.

Em Miss Marvel #16, a heroína invade a Mansão dos Vingadores para usar o laboratório de lá e salvar Namorita das garras do Tubarão-Tigre. É a primeira vez que ela contracena com alguns Vingadores, especialmente o Fera, com quem sai no braço, e Wanda, a Feiticeira Escarlate, que acaba apaziguando a situação. No entanto, a primeira vez em que ela luta mesmo ao lado dos Vingadores é em Os Vingadores #171, edição que faz parte do longo e celebrado arco conhecido hoje em dia como a Saga de Korvac, que envolve os Guardiões da Galáxia originais deslocados no tempo. No entanto, a história vista nessa edição, assim como na anterior, é um desvio narrativo que pouco se relaciona com a saga em si.

Aqui, vemos os Vingadores correndo pelas ruas de Nova York atrás da recém-ativada Jocasta, robô criada por Ultron a partir de sua “mãe” Janet Pym, a Vespa. A comoção causada que, aliás, é muito divertida pela surrealidade da coisa, com o Homem de Ferro e o Capitão América literalmente “esbarrando” nas pessoas e perguntando se viram uma “mulher robô” passando, acaba chamando atenção de Carol Danvers que está no provador de roupas de uma loja de departamentos e tem uma de suas visões. Sem hesitar, ela parte para apresentar-se aos Vingadores e para avisar sobre sua premonição, com o texto de Shooter aproveitando para fazer a conexão com a briga dela com o Fera, mas, sem perder tempo, avançando a narrativa ao colocar o grupo todo investigando um convento para onde eles desconfiam que Jocasta foi.

Aliás, Shooter estava afiado aqui e ainda dá uma fortíssima cutucada na religião católica quando Thor não se sente à vontade no convento porque a crença católica exclui a possibilidade da existência de qualquer outro deus. É evidente que Shooter usa essa religião apenas como um exemplo de intolerância religiosa, já que diversas outras também são assim, notadamente a muçulmana.

Apesar de ser estranhíssimo ver Ultron escondido em um convento, é isso que temos e ele prepara armadilhas para seus inimigos que, porém, estão preparados para seu mortal encéfalo-raio. Wanda, porém, a única capaz de manipular o rearranjador molecular dentro da armadura do robozão, seu ponto fraco (e que ele anuncia aos quatro ventos, claro!), é atraída para um labirinto de espelhos (sim, em um convento!) e fica em apuros. Não fosse a interferência direta de Miss Marvel, que previra essa situação em sua visão, a história teria um final diferente. A heroína derivada do Capitão Marvel, então, prova seu valor perante os Vingadores, o que abriria o caminho para outras aventuras com o grupo (a seguinte seria em Miss Marvel #18, logo no mês seguinte a Vingadores #171 em que, curiosamente, Wanda e Janet é que estão fazendo compras em uma loja de departamentos e deparam-se com Miss Marvel sendo atacada).

A arte é de George Pérez e não é necessário falar muito da capacidade do mestre em abordar um grande número de personagens simultaneamente. Apesar de ele ter pouco espaço para mostrar a majestade de sua arte, seu trabalho de diagramação de quadros e de utilização dos espaços por página é sempre um deleite.

Roteiro: Jim Shooter
Arte: George Pérez
Arte-final: Pablo Marcos
Letras: Denise Wohl
Cores: Phil Rachelson
Editoria: Jim Shooter
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: maio de 1978
Páginas: 18

Os Vingadores #183 e 184
O Temível Retorno de Crusher Creel!
Morte no Hudson!

Importância da edição: Miss Marvel passa a integrar oficialmente os Vingadores.

Depois de cair de um prédio em sua forma envidraçada e “morrer” em O Incrível Hulk #209, de março de 1977, o Homem-Absorvente renasce em Os Vingadores #183, de mais de dois anos depois. Nessa mesma edição, Miss Marvel e Falcão passam a fazer parte do grupo de super-heróis oficialmente, a primeira substituindo Wanda Maximoff que, depois de um arco em que descobre sua (então) verdadeira origem, decide, junto com o irmão, afastar-se dos Vingadores por um tempo e, o segundo, literalmente “por quota”, depois que o insuportavelmente chato Henry Peter Gyrich passa a ser o braço governamental da equipe e exige que minorias seja contempladas (é sensacional quando o Falcão sugere ao Capitão mudar de nome para The Token!).

E a primeira missão dos dois novos integrantes dos Vingadores é, juntamente com os demais já velhos de guerra e mais o Gavião Arqueiro, que acabara de sair (também por culpa de Gyrich), lidar com Crusher Creel que simplesmente quer ir para a América do Sul, para parar de tomar pancada de super-heróis. Sem dúvida que a estreia oficial de Miss Marvel nos Vingadores poderia ser bem melhor e com mais destaque para ela que, aqui, não faz muito mais do que ser jogada dentro d’água pelo vilão em uma história em duas partes que poderia muito facilmente ser contada em apenas uma edição não fosse a necessidade narrativa de David Micheline de abordar as diversas modificações que os Vingadores estavam passando nessa época.

A grande surpresa é que, apesar de muito simples, o texto de Micheline é agradável e até comovente o suficiente (sim, fiquei com pena de Creel) para tornar a leitura muito fluida apesar dos aspectos burocráticos impostos por Gyrich e que “interrompem” a ação principal. Também ajuda muito que a arte tenha ficado com duas lendas dos quadrinhos: John Byrne no lápis e Klaus Janson nas tintas. Com eles, o texto mais carregado de Micheline torna-se um detalhe diante de desenhos dinâmicos, lutas bem coreografadas e situações das mais variadas que abrem espaço para que todos os heróis tenham nem que seja seus dois quadros de fama.

Roteiro: David Micheline
Arte: John Byrne
Arte-final: Klaus Janson
Letras: Jim Novak, Diana Albers
Cores: Bob Sharen
Editoria: Roger Stern
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: maio de 1979
Páginas: 18 (cada edição)

Os Vingadores #197 a 200
Prelúdio do War-Devil!
Melhor Vermelho do que Ronin!
Última Defesa em Long Island
ou
O Estupro de Miss Marvel

Importância da edição: Miss Marvel revela sua identidade secreta aos Vingadores, engravida e tem um filho.

David Micheline deveria ter vergonha de ter escrito o que escreveu aqui. E David Shooter, o editor-chefe da Marvel na época mais ainda, por ter aprovado a história. Em um arco de quatro números que culminou na edição comemorativa #200 de Os Vingadores, o roteirista inventou uma gravidez para Carol Danvers depois de ela ser essencialmente estuprada por Marcus, filho de Immortus, de forma que ele pudesse fugir do limbo, onde morava, e “nascer” na Terra. Na verdade, o problema maior dessa linha narrativa não é a Miss Marvel, criada como símbolo do movimento de emancipação feminina pela Marvel nos anos 70 ser estuprada e ter um filho do estuprador, já que isso, se seriamente abordado, poderia resultar em uma história magnífica, com fortíssimas lições a serem aprendidas. O problema maior é que, apesar de Carol Danvers ter sido estuprada – Marcus diz que a trouxe ao limbo e a cortejou, mas também utilizou as máquinas de seu pai para fazê-la apaixonar-se por ele! – Micheline não parece perceber isso e faz com que TODOS os Vingadores reajam ao acontecido como se estivessem testemunhando uma belíssima história de amor com um final alegre e positivo que faz com que Danvers escolha voltar ao limbo para viver feliz para sempre com Marcus por lá.

Micheline não só foi um imbecil e insensível completo aqui como transportou sua imbecilidade e insensibilidade para os mais importantes heróis da editora, incluindo o Capitão América e o Homem de Ferro, além da Vespa e da Feiticeira Escarlate, duas mulheres, diga-se de passagem. É tão revoltante ver a reação alegre dos Vingadores quando todo o segredo da gravidez misteriosa de três dias de Danvers é revelado que toda a divertida história envolvendo o robozão gigante Ronin Vermelho, criado pela S.H.I.E.L.D. para enfrentar Godzilla (sim, a Marvel Comics já teve licença e publicou diversas histórias do Lagarto Atômico), roubado pelo Dr. Cowan para causar a Terceira Guerra Mundial, é prontamente esquecida, como se não tivesse acontecido. E, nessa mesma linha, toda a arte tanto de Carmine Infantino quanto a de George Pérez acaba não chegando nem próximo de “curar” um absurdo desses.

Confesso que não tenho muito mais o que escrever sobre esse mais do que polêmico arco dos Vingadores focado em Miss Marvel. Que vergonha, Marvel!

Roteiro: David Micheline
Arte: Carmine Infantino, George Pérez
Arte-final: Dan Green
Letras: John Costanza
Cores: Bob Sharen, Ben Sean
Editoria: Jim Salicrup
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: julho a outubro de 1980
Páginas: 19 (#197 a #199) e 37 (#200)

Os Vingadores: Anual #10
Traída… por Amigos!

Importância da edição: O estupro de Miss Marvel ganha reconhecimento como tal.

Chris Claremont, você é meu herói!

O grande escritor que fez carreira na Marvel Comics ficou tão revoltado com a história do estupro de Miss Marvel, personagem cuja primeira publicação solo ele escreveu quase que desde o primeiro número, que ele dedicou 39 páginas – o 10º Anual dos Vingadores todinho! – para lidar com a questão. Seria natural se ele tivesse decidido desfazer o arco da gravidez de Carol Danvers como um pesadelo que nunca aconteceu de verdade ou algo semelhante, literalmente apagando a narrativa da continuidade dos Vingadores e, principalmente, da Miss Marvel. Mas ele foi mais corajoso ainda e escreveu uma aventura para dar uma lição de moral em Micheline e em Shooter, os responsáveis por essa atrocidade.

A história começa com a Mulher-Aranha salvando alguém que parece ter sido jogada da ponte Golden Gate. Não demora e descobrimos que é ninguém menos do que Carol Danvers, mas com sua mente completamente vazia. Jessica Drew, então, liga para o Professor X, dos X-Men, de forma que ele a ajude. Corta para Nova York e lidamos com Mística executando um plano para libertar seus colegas da Irmandade dos Mutantes da prisão, o que envolve paralisar o Homem de Ferro e usá-lo como míssil e fazer com que Vampira (em sua primeira aparição editorial – pois cronologicamente foi em Miss Marvel #25 (publicada apenas em 1992, apesar de escrito em 1979) absorvesse os poderes e habilidades do Capitão América e de Magnum. Com isso, o foco volta para os Vingadores e Danvers fica em segundo plano por grande parte da edição, só realmente voltando ao centro das atenções em seu final, quando os Vingadores vão visitá-la na escola de mutantes, já com sua mente parcialmente restaurada.

E é aqui que vem o gigantesco momento de catarse de Carol Danvers diante daqueles que deveriam ter sido seus amigos quando ela mais precisou. Chris Claremont é inclemente, destruidor, violento mesmo ao usar cada palavra que Micheline usara em Os Vingadores #200 para mostrar o quão absurda foi a reação do super-grupo. Cada palavra de Claremont pela boca de Danvers é um tapa na cara de seu colega de profissão e também na de Shooter e de toda a Marvel Comics pelo absurdo que foi publicado. Não sobra pedra sobre pedra e o leitor acaba a última página triste por relembrar o assunto, mas também feliz por Claremont ter lavado nossa alma.

Roteiro: Chris Claremont
Arte: Michael Golden
Arte-final: Armando Gil
Letras: Joe Rosen
Cores: Michael Golden
Editoria: David Anthony Kraft
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 1981
Páginas: 39

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.