Crítica | Miss Marvel: Vol. 1 – Parte 1 (1977 – 1978)

Mulheres! De onde elas tiraram a ideia de que elas seriam boas fora de uma cozinha, hein?
– Jameson, John Jonah

A jornada de Carol Danvers, de uma mera sidekick nas histórias do Capitão Marvel, até ela própria assumir a persona de Capitã Marvel foi longa e começou quando a personagem surgiu em Marvel Super-Heroes #13, de março de 1968, como especialista em segurança em uma base militar. Sempre aparecendo como coadjuvante nas histórias de Mar-Vell já em Capitão Marvel #1, de maio de 1968, a personagem sobreviveu a uma explosão na edição #18, que seria o gancho utilizado por Gerry Conway para criar Miss Marvel, super-heroína “derivada” do grande e saudoso guerreiro Kree. Miss Marvel é, então, introduzida em revista própria em janeiro de 1977 e, a partir daí, passaria a fazer parte do tecido evolutivo do Universo Marvel em várias capacidades diferentes, sendo inclusive responsável pela versão final da mutante Vampira.

As críticas abaixo são dos quatro primeiros arcos narrativos de sua primeira publicação solo, que durou 23 edições, de janeiro de 1977 a abril de 1979.

Miss Marvel #1 a 4
Esta mulher, esta guerreira
Enigma do Medo
Mas Quem Sou Eu?
Morte é Flagelus

No lugar de escrever uma história de origem linear, Gerry Conway resolveu variar, emprestando um pouco de frescor às quatro primeiras edições de Miss Marvel que lida com sua origem ou, pelo menos, boa parte dela. Sem perder tempo, o roteirista introduz a personagem pronta, já com uniforme claramente inspirado no do Capitão Marvel, mas com o indefectível cachecol, voando e prestes a lidar com um assalto em Nova York comandado pelo Escorpião, um dos mais clássicos inimigos do Homem-Aranha. Não é necessário muitos quadros para a crise passar e a então novíssima heroína saísse vencedora.

Em seguida, Conway nos reapresenta a Carol Danvers, agora não mais responsável pela segurança de uma base militar, mas sim assumindo a editoria da revista Mulher, de ninguém menos do que o grosseirão John Jonah Jameson, do Daily Bugle. Peter Parker faz uma ponta e Mary Jane Watson logo quer estabelecer laços de amizades com Carol. O que Conway quer fazer, por sua vez, é criar mistério, já que a conexão entre Miss Marvel e Carol Danvers simplesmente – em tese – não existe. Ou pelo menos não existe para os mais inocentes leitores da segunda metade dos anos 70, já que é mais do que evidente que ambas são a mesma pessoa, mesmo que uma não saiba da outra. E é nesse mistério quase psiquiátrico que reside boa parte do charme do que o autor escreve.

Nesse arco inicial, os vilões transitam entre o já mencionado escorpião, o Destruidor, personagem novo que tem interesse na tecnologia usada por Miss Marvel (calma que eu chego lá) e a I.M.A., entidade criminosa que tem uma base no subsolo de uma loja de departamentos de Nova York. Mas a grande verdade é que os vilões servem apenas de instrumentos para Conway – e, a partir da edição #3, Chris Claremont – contar-nos o mistério da heroína. Tanto Miss Marvel quanto Carol Danvers sentem fortes dores de cabeça, mas nenhuma das duas sabe o porquê. Não demora para que o leitor descubra que essas dores de cabeça são o “sétimo sentido” de Miss Marvel, avisando-lhe de perigos futuros, em visões premonitórias. Imaginem o “sentido-aranha”, só que muito mais sofisticado. Na forma de Danvers, essas visões a fazem inconscientemente transformar-se em Miss Marvel e entrar em ação.

Todo esse malabarismo na origem da personagem faz sentido, já que o que Conway faz é espelhar o próprio Capitão Marvel, que “troca de lugar” com o jovem Rick Jones ao bater os braceletes. Todo o texto desse arco inicial nos dá a entender que Miss Marvel e Carol Danvers são pessoas diferentes, algo amplificado pelo cabelo curto da primeira e longo da segunda. Além disso, igual ao Capitão Marvel pré-uniforme vermelho e azul, o poder de voo de Miss Marvel, assim como boa parte de sua invulnerabilidade, é fruto de aparelhos eletrônicos inseridos em seu uniforme, que é justamente o que o Destruidor ambiciona. De poderes biofísicos mesmo, Miss Marvel tem apenas super-força e o sétimo sentido.

Conway e Claremont, nessas quatro primeiras edições, estabelecem as bases para boa parte da primeira publicação solo da heroína, com as futuras repetições de vilões e de situações, além de permitir sua evolução, como a nova rajada de energia Kree que Miss Marvel recebe ao final da edição #4 e que, na edição seguinte, lhe faz absorver os “poderes” de seu uniforme. Mas, para tornar essa base sólida, os autores exageram no texto expositivo, carregando as páginas de explicações que são repetidas diversas vezes, ainda que haja um bem-vindo subtexto – que não é nem tão “sub” assim – que tenta criticar o mundo masculino e machista onde a Miss Marvel tenta inserir-se como uma das poucas novas heroínas da Marvel Comics na época.

O primeiro arco de Miss Marvel, apesar de substancialmente confuso e carregado de informações, é, no final das contas, um bom arco introdutório para a heroína que tenta narrativamente algo novo em seu começo, além de trabalhar o legado do Capitão Marvel de maneira inteligente e respeitosa. Mesmo assim, a Miss Marvel que vemos aqui é bem diferente da futura Capitã Marvel de anos mais recentes, em um franco arco evolutivo para a personagem.

Miss Marvel #1 a 4 (EUA – 1977)
Roteiro: Gerry Conway (#1 e 2), Chris Claremont (#3, 4)
Arte: John Buscema, Jim Mooney, Joe Sinnot
Arte-final: Joe Sinnott
Letras: Joe Rosen, John Costanza, Irving Watanabe
Cores: Marie Severin, Don Warfield, Janice Cohen
Editoria: Archie Goodwin
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: janeiro a abril de 1977
Páginas: 18 (cada edição)

Miss Marvel #5 a 8
Ponte Sem Retorno
…e Grotesko matará você!
Pesadelo!
O Último Por-do-Sol…?

No segundo arco de Miss Marvel, que tem como maior ponto de conexão o interesse de M.O.D.O.K. na tecnologia utilizada pela heroína em seu uniforme, ela tem seu primeiro crossover efetivo com outro super-herói, no estilo clássico desses eventos. Com isso, na edição #5, um mal-entendido envolvendo a sabotagem de um caminhão extremamente seguro das Indústrias Stark que Miss Marvel prevê com seu sétimo sentido a coloca em rota de colisão com o Visão, somente para que, depois, os dois unam forças contra um inimigo em comum. Trata-se de um começo quase que integralmente solto em relação ao que vem em seguida, mas M.O.D.O.K. já se faz presente aqui, ainda que bem discretamente.

Em seguida, em outra aparente edição desconexa, ela enfrenta Grotesko, que quer vingar-se da humanidade. A importância da história é que, nela, o monstruoso ser faz com que o equipamento embutido no uniforme da Miss Marvel entre em curto e torne-se inoperante. Chris Claremont, já completamente sozinho na criação das histórias, tem um plano que começa aqui e se encerra na edição #7 em que, enfrentando M.O.D.O.K., Miss Marvel, sem seu uniforme, nota que manteve boa parte de seus poderes, deduzindo que a segunda onda de radiação que absorveu na edição #4 fez com que as habilidades mecânicas de seu uniforme fosse absorvidas por seu corpo. Claro que temos que aceitar a explicação simplista e completamente não-científica, além de ficarmos completamente sem explicação sobre a origem do uniforme da heroína.

O arco, na verdade, parece ter essa função apenas, já que M.O.D.O.K. e Grotesko revezam aparições desconectadas ao longo da narrativa que estabelece esse novo status quo para a heroína que, porém, ainda tem fortes dores de cabeça, sem controle sobre a transformação em Miss Marvel ou vice-versa, algo que seria corrigido logo mais para a frente. No entanto, sem precisar explicar essa condição muitas vezes, Claremont tem espaço para trabalhar de maneira mais fluida sua narrativa e consegue entregar um arco levemente mais agradável de se ler. Na arte, John Buscema, que criou Miss Marvel, largou o título (mas ele voltaria em seguida) abrindo espaço para Jim Mooney e Joe Sinnott que, porém, mantém o estilo do mestre e evita uma disrupção na leitura da história.

Miss Marvel #5 a 8 (EUA – 1977)
Roteiro: Chris Claremont
Arte: Jim Mooney, Joe Sinnott
Letras: John Costanza
Cores: Janice Cohen, Don Warfield
Editoria: Archie Goodwin
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: maio a agosto de 1977
Páginas: 18 (cada edição)

Miss Marvel #9 e 10
Chame-me Rapina!
Cry Murder — Cry MODOK

O pequeno arco seguinte, que traz de volta M.O.D.O.K. como vilão principal e introduz Rapina (primeira aparição da irmã de Lilandra, Imperatriz de Shiar, ainda que essa conexão não seja feita) como sua capanga, traz uma pequena grande modificação: o uniforme de Miss Marvel passa a ser menos revelador. Se o primeiro uniforme da heroína não só deixava suas pernas de fora, como também sua barriga e suas costas, quando Keith Pollard tomou a frente da arte, ele tratou de, juntamente com Janice Cohen, “colorir” de vermelho tudo acima da cintura de Miss Marvel, tornando seu uniforme ainda mais próximo do Capitão Marvel e retirando os desnecessários “buracos” no tecido que exageravam em sua sexualização (ainda que o uniforme seguinte seja talvez ainda mais revelador, mas essa é outra história).

De certa maneira, a história que Claremont conta pode ser considerada como parte do arco anterior, mas a presença de Rapina e tentativa de M.O.D.O.K. de subjugar o braço leste da I.M.A. criem, em minha cabeça, uma narrativa distinta. Nela, Carol Danvers, ao investigar, como jornalista, a loja de departamentos onde, no subsolo, fica a I.M.A., acaba ficando no fogo cruzado entre a entidade e M.O.D.O.K., tendo que tomar cuidado com sua identidade secreta, já que o cabeçudo voador a havia desmascarado no arco anterior sem, porém, conectar Miss Marvel com Danvers. Trata-se de uma narrativa simples e objetiva, sem maiores detalhamentos que encerra, pelo momento, a rivalidade entre a heroína e esse vilão.

Carol Danvers e Miss Marvel, apesar de uma saber que se transforma na outra, se consideram ainda entidades distintas, ainda que haja um pouco mais de controle sobre quando as transformações acontecem. Vê-se, porém, que Claremont preocupa-se com esse aspecto e torna-o relevante aqui já em preparação ao importante arco seguinte, em que ele resolve de uma vez por todas essa “situação” causada por Gerry Conway ao introduzir a heroína.

Miss Marvel #9, 10 (EUA – 1977)
Roteiro: Chris Claremont
Arte: Keith Pollard, John Buscema, Tom Palmer
Arte-final: Joe Sinnott, Sam Grainger
Letras: John Costanza
Cores: Janice Cohen, Phil Rachelson
Editoria: Archie Goodwin
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: setembro e outubro de 1977
Páginas: 18 (cada edição)

Miss Marvel #11 a 14
Dia do Anjo Negro!
A Guerreira e a Rainha-Bruxa
Volta para Casa!
Medo Espreita o 40º Andar

O quarto arco de Miss Marvel, compreendendo as edições #11 a 14, traz mais uma evolução para a personagem. No entanto, Chris Claremont, no lugar de simplificar, acaba dificultando a jornada e, mais do que isso, a leitura. Para começo de conversa, ele manda Carol Danvers para o Cabo Canaveral para cobrir o lançamento de um foguete com sua amiga Salia Petrie, a primeira mulher a ir ao espaço. No entanto, no lugar de focar nessa linha narrativa, ele introduz a vilã Hécate que, juntamente com os Elementais (Magno, Fogo do Inferno e Hidron, com Zefir fazendo um ponta), tentam achar o escaravelho de rubi em uma ilha próxima ao lançamento do foguete. A proximidade, porém, é o único ponto de conexão entre as histórias.

Na verdade, minto e estou sendo maldoso com Claremont. O autor, na verdade, quer estabelecer as gritantes diferenças entre as personalidades de Carol Danvers e Miss Marvel e, para isso, acaba criando essas duas tramas paralelas que se tangenciam levemente. Ele muito provavelmente poderia ter imaginado algo um pouco mais palatável e mais fortemente ligado, já que o destino de Petrie é, apenas com muita boa vontade, efetivamente ligado ao que está acontecendo na Terra e isso só porque Claremont faz uso de longos textos expositivos para estabelecer essa premissa. É que o uso do tal escaravelho de rubi interfere no cristal de cavorita usado no foguete de Petrie, fazendo com que Miss Marvel faça uma escolha por Carol Danvers: ela decide arriscar sacrificar Petrie para potencialmente salvar muito mais gente na Terra, ficando para enfrentar os Elementais que, a essa altura, há haviam se rebelado contra Hécate.

Essa “briga” de personalidades sem dúvida é interessante e deixa evidente o problema que Claremont busca resolver aqui: a dualidade de Miss Marvel/Carol Danvers. Ao final da edição #12, depois que Miss Marvel maneja o MacGuffin de rubi, ela volta a ser Carol Danvers e Hécate dá a entender que sabe o segredo delas.

No entanto, novamente em uma decisão estranha, Claremont, no lugar de abordar a questão de maneira lógica e direta na edição seguinte, resolve trabalhar o assunto em flashback, iniciando a #13 como Danvers chegando para visitar seus pais, o que deixa o leitor inicialmente confuso, somente para o autor, então, voltar ao passado recente para revelar que, conforme Hécate explica, Miss Marvel e Danvers sempre foram a mesma pessoa e que, agora, a transformação acontece conscientemente, quando Danvers quer. Pronto, o “problema” criado originalmente por Conway é resolvido aqui, com Claremont trazendo uma bem-vinda unicidade à Miss Marvel que a afasta um pouco da correlação que Conway queria fazer com o Capitão Marvel e sua “troca” de lugar com Rick Jones.

Para rechear a 13ª edição, porém, Claremont ainda faz uso de vilões genéricos atacando um navio e introduz a noção de que a construção onde o pai de Carol trabalha é insegura, algo que é resolvido apenas na edição seguinte, com o uso da segunda versão do vilão Britadeira (sim, há dois Britadeiras no Universo Marvel…), em mais uma história genérica que serve de porta de entrada para arcos futuros da heroína. O que começa muito bem com Hécate e seus minions acaba de maneira mais do que padrão, ainda que o resultado final continue positivo, especialmente por finalmente reunir Danvers à sua persona super-heroística. No quesito arte, de nota só há mesmo a introdução de Carmine Infantino na edição #14 que traz sua pegada característica para a heroína, sem preocupar-se em seguir o “estilo John Buscema de desenhar” e que acaba funcionando muito bem, mesmo que seja algo efêmero, já que o artista não volta para a edição seguinte.

Roteiro: Chris Claremont
Arte: John Buscema, Frank Giacoia, Joe Sinnott, Carmine Infantino (#14)
Arte-final: Steve Leialoha (#14)
Letras: Joe Rosen, Annette Kawecki, Pete Iro, John Costanza
Cores: Glynis Wein, George Roussos, Françoise Mouly, Janice Cohen
Editoria: Archie Goodwin
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: novembro e dezembro de 1977 e janeiro e fevereiro de 1978
Páginas: 18 (cada edição)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.