Crítica | Miss Marvel: Vol 2 – Melhor das Melhores e Guerra Civil

Preâmbulo:

Carol Danvers foi criada como uma personagem coadjuvante no que viria a ser a publicação solo do Capitão Marvel (Mar-Vell), ainda em 1967. Ela permaneceu assim à margem do Universo Marvel até que, em 1977, Gerry Conway transformou-a em Miss Marvel, super-heroína derivada do Kree que adotou a Terra como seu novo lar. Essa publicação durou muito pouco tempo, até 1979, por apenas 23 edições (e mais duas publicadas postumamente, nos anos 90).

Depois desse período, Miss Marvel passou a figurar como coadjuvante dos Vingadores até ter seus poderes e sua memória retirados em definitivo (enquanto durou, claro) pela Vampira, então ainda da Irmandade dos Mutantes. Como passo seguinte, Danvers, apesar de sem poderes, foi revelada como tendo mantido a fisiologia Kree, o que, depois de passar por experimentos pela Ninhada, no arco conhecido como A Saga da Ninhada, a fez transformar-se na extremamente poderosa super-heroína Binária, que extraía seus poderes de um buraco branco.

Até esse ponto, é mais ou menos fácil acompanhar a história da personagem. No entanto, a partir da segunda metade da década de 80 até o começo dos anos 2000, ela, sem jamais ganhar uma nova publicação solo, participou com maior e menor proeminência em diversas histórias de outros heróis e grupos (notadamente de mutantes, como X-Men, Excalibur e Novos Mutantes) que seria complicado demais sequer tentar resumir.

Assim, arriscando ser conciso demais e, com isso, deixando detalhes de fora, foi mais ou menos o seguinte que aconteceu com ela:

  • Como resultado do arco Operação Tempestade Galática, ela perdeu sua conexão com o buraco branco, passando novamente a ter seus poderes originais de Miss Marvel mais os de absorção de energia e emissão de raios de fóton;
  • Ela volta para os Vingadores, desta vez com o codinome Warbird e enfrenta o alcoolismo e depressão pela perda de seus poderes cósmicos, depois provando-se digna de participar do grupo efetivamente;
  • Os Vingadores debandam e ela fica novamente sem lar, algo que só seria remediado com a recriação dos Poderosos Vingadores, grupo sancionado pelo governo depois de Guerra Civil;

É a partir desse ponto (antes de Poderosos Vingadores) que a história de Carol Danvers é mais fortemente retomada, com a volta de sua persona de Miss Marvel (mantendo o uniforme clássico composto pelo maiô preto, luvas longas e botas acima do joelho) tendo como gancho a saga Dinastia M, que leva à volta de seu título solo, de 50 edições, o mais longevo (ininterruptamente) até agora na história editorial de Carol Danvers. Abaixo, seguem as críticas das 10 primeiras edições, divididas em dois arcos e mais uma edição especial que funciona como prelúdio à série.

Giant-Size Miss Marvel #1

Essa edição one-shot serve como “reapresentação” de Miss Marvel aos leitores, com Brian Reed preparando o título solo da heroína que viria logo no mês seguinte. Composto de republicações de histórias anteriores da personagem, o que importa mesmo são 15 páginas escritas por Reed que são, no frigir dos ovos, um retcon de Dinastia M que nos relembra que, nessa realidade alternativa criada pela Feiticeira Escarlate, Miss Marvel tinha o codinome Capitã Marvel (primeira vez que Danvers oficialmente usa esse nome) e cria o mago Warren Traveler com vilão tradicional dela.

A história já determina o tom mais jocoso que Reed empregaria no primeiro arco da publicação solo e nos introduz ao gato que seria depois batizado de Chewie, que Miss Marvel surrealmente usa como “arma” para derrotar Traveler. É uma história definitivamente estranha e um tanto quanto perdida, e que só funciona de verdade se lida como prelúdio para a história que viria em seguida.

A arte de Roberto de la Torre é bonita, mas ele peca por tumultuar desnecessariamente as páginas, por vezes tornando difícil a compreensão imediata do caminho narrativo. Claro que os textos longos de Reed também não ajudam, assim como suas tentativas de fazer gracinhas o tempo todo, com todas as situações. No final das contas, a edição não funciona sozinha e também não completamente como uma introdução, já que tudo o que a dupla trabalha aqui poderia – e é – abordada também no arco solo imediatamente posterior da heroína.

Miss Marvel
Melhor das Melhores

Inaugurando a segunda publicação solo contínua de Miss Marvel em 27 anos, Brian Reed resume a heroína a alguém que não se contenta em ser o que é. Ela precisa de sucesso, de reconhecimento, de fama. Essa abordagem é terrivelmente frívola e desnecessária não só para a personagem, como também para qualquer outro super-herói que se preze. A desculpa que ele usa são as lembranças da Dinastia M que Carol ainda retem, pois, naquela realidade, usando o codinome Capitã Marvel, ela era extremamente conhecida e adorada por todos.

Para alcançar seu intento, Carol contrata a relações públicas Sarah Day que imediatamente começa a maquinar maneiras de focar a atenção do público em sua mais nova cliente. Essa narativa, devo reconhecer, é metalinguística, já que Miss Marvel tinha, à época, pouquíssima proeminência na Marvel Comics, sendo desconhecida de muitos leitores. Ainda que isso seja uma ideia interessante de Reed, a grande verdade é que ele poderia ter alcançado o objetivo sem transformar Danvers em uma mulher vazia, vã.

Mas, enquanto Sarah Day corre atrás dos holofotes para Miss Marvel, a heroína detecta o que parece uma nave caindo em direção à Terra. Quando ela chega ao lugar do impacto, ela se depara com a Ninhada, outra piscadela de Reed ao passado de Danvers com os monstros na já mencionada Saga da Ninhada. Aqui, na verdade, eles estão fugindo de Cru, outro monstro que os caça e que eles querem destruir usando o carregamento de cavorita de uma base militar próxima mesmo que isso signifique a destruição de boa parte da Terra.

A história, contada em apenas três edições – que deixa consequências para serem tratadas no futuro – é, porém, apressada e confusa, sem criar senso de perigo e, ao lidar com tragédia, abordando-a de maneira banal, quase que periférica. Nas duas edições seguintes, que fecham o arco, mas que na verdade contam outra história sem relação com a Ninhada, Miss Marvel enfrenta o tal mago Warren Traveler, inventado na Giant-Size Miss Marvel #1, com a ajuda do Doutro Estranho. Novamente, vemos a marca registrada de Reed: correria e confusão.

A arte de Roberto de la Torre não ajuda em nada para dissipar a impressão de bagunça e, apesar dos bonitos traços, o que impera é a desordem, além das cores digitais de Chris Sotomayor serem pasteurizadas demais, quase como se ele estivesse se inspirando na “arte” típica dos quadrinhos dos anos 90. Em outras palavras, o primeiro arco da volta da publicação solo de Miss Marvel poderia ter sido muito melhor…

Miss Marvel
Guerra Civil

Não existe nada mais irritante do que quando publicações solo são sequestradas e transformadas em tie-ins de grandes sagas, especialmente quando as referida publicações estão ainda em seu começo. É o que acontece logo no segundo arco de Miss Marvel, que se transforma em uma sidequest relacionada com Guerra Civil. E não dá nem para culpar somente Brian Reed por isso, pois ele só estava seguindo ordens da editora.

Mas ele poderia ter feito algo um pouquinho melhor do que uma história padrão que contrasta “o que é melhor” e “o que é certo”, tema central de Guerra Civil e que é repetido exaustivamente, literalmente a cada página aqui. Tomando o lado errado da briga, ou seja, o de Tony Stark, Miss Marvel juntamente com Magnum passam a caçar heróis não registrados ao mesmo tempo em que enfrentam a traição de Arachne, a terceira do grupo que decide virar casaca para ajudar seu namorado, Mortalha.

As dúvidas colocadas em cena fazem sentido, mas o texto de Reed é inábil ao tornar isso algo mais interessante do que trabalhar momentos que não permitem tons de cinza, quando por exemplo Miss Marvel separa Arachne de sua filha pequena. A sutileza vai pela janela, assim como a paciência de qualquer um para ler isso. O arco até tenta se salvar com a volta de Vampira nos dois números finais para uma historieta com ares misteriosos, mas, a essa altura, o leite já tinha sido derramado.

Miss Marvel: Vol 2 – Melhor das Melhores e Guerra Civil (Miss Marvel: Vol. 2: Best of the Best e Civil War, EUA – 2006/7)
Contendo: Giant-Size Miss Marvel #1 e Miss Marvel (Vol. 2) #1 a 10
Roteiro: Brian Reed
Arte: Roberto de la Torre, Mike Wieringo (#9 e 10)
Arte-final: Jimmy Palmiotti, Jon Sibal (#6 a 8), Wade von Grawbadger (#9 e 10)
Cores: Chris Sotomayor
Letras: Dave Sharpe
Editoria: Andy Schmidt
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: abril a dezembro de 2006 e janeiro e fevereiro de 2007
Páginas: 23 por edição

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.