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Crítica | Miss Simpatia

por Leonardo Campos
6 views (a partir de agosto de 2020)

Mesmo que não atenda totalmente aos tópicos da pauta feminina contemporânea, Miss Simpatia, lançado em 2000, pode ser considerado um filme sobre empoderamento. Basta que não sejamos pessoas de comportamento totalizador. Diferente das comédias românticas da época, a produção investiu numa abordagem mais livre para a mulher que não precisa necessariamente ser salva por um homem no desfecho da história, algo que esteve no epicentro dramático de alguns filmes protagonizados por Sandra Bullock desde os anos 1990. Ela lutou por conta própria num esquema cibernético intenso em A Rede, assumiu o volante em Velocidade Máxima e protagonizou algumas passagens em Velocidade Máxima 2, mesmo que no final tenha dependido de um homem para salvá-la do perigo. Desta vez, ela conta com o apoio de sua equipe, principalmente do policial Eric Matthews (Benjamin Bratt), projeto de par amoroso necessário numa produção que se vende como entretenimento. Mas ainda assim, o filme é mais “avançado”.

Dirigido por Donald Petrie, cineasta guiado pelo roteiro escrito por Marc Lawrence, Katie Ford e Caryn Lucas, a narrativa acompanha a transformação da agente do FBI Gracie Hart (Bullock) na representante de New Jersey no concurso de Miss Estados Unidos, evento assombrado por suposta presença de um ataque terrorista. Victor Melling (Michael Caine) é quem recebe a missão de tornar a agressiva e desajeitada policial numa mulher estereotipada pelos trejeitos e comportamentos exigidos pela sociedade que ainda hoje, duas décadas depois do lançamento da comédia, define os padrões de homem e mulher, do que é bonito ou feio, ou o que pode ser aceitável e o que deve ser renegado. Ao longo de seus 109 minutos, somos testemunhas de suas conquistas e de como ela segue uma trajetória complexa para conseguir alcançar os objetivos almejados pela missão que lhe dará a redenção. Para entender como as coisas procedem, torna-se necessário que voltemos um pouco ao começo do filme.

Na abertura, Gracie é apresentada por meio de um flashback na escola. Esnobada por um colega grosseiro após agir de maneira solidária e carinhosa, a pequena já expõe ao mundo o seu recado, colocando o garoto em seu devido lugar, mesmo que para alguns a abordagem seja politicamente incorreta, etc. Precisamos compreender que estamos diante da espectatorialidade de uma comédia policial cheia de ação e momentos livres de preocupações excessivamente pedagógicas. A narrativa dá um salto e nos leva para uma ação de Gracie junto aos colegas do FBI. Ela, afoita, falha num momento crucial e coloca a vida de um dos agentes em perigo após um tiro. O resultado é representado por meio da postura de seu chefe, Harry McDonald (Ernie Hudson), o clichê do policial durão, respeitado pelos demais por seu posto e tom de voz ameaçador. Para os tempos atuais, McDonald exibe, salvaguardadas as devidas proporções comparativas, o que se convencionou a chamar de masculinidade tóxica.

Tendo em vista recuperar a sua credibilidade no bojo de um ambiente de trabalho dominado por homens machistas que a repelem, Gracie adentra na missão ao estilo Cinderela. Com o apoio de Victor Melling, ela é apresentada aos membros que organizam o evento cheio de garotas estereotipadas que vivem constantemente em processo de opressão. Controle do peso, cuidado excessivo com as roupas que vestem e a maneira como se expressam verbalmente, tudo milimetricamente calculado para não fazer feio nas rodas de pessoas com interesses afins. Logo, Gracie Hart precisará cuidar da pele, do cabelo, dos dentes, aprender a se alimentar de boca fechada, andar em saltos altíssimos e vestir manter o corpo dentro dos conformes para entrar nas roupas justas das etapas de seleção do concurso. Ela está sob o olhar ferrenho de Kathy Morningside (Candice Bergen) e do apresentador do evento, Stan Fields (William Shatner).  A dupla não quer ver a festividade deslumbrante eclipsada por ações arbitrárias.

Pressionada, Gracie adentra com deboche no ambiente novo, mas logo fará amizades e descobrirá outras formas de fazer as coisas acontecerem. A amizade mais próxima será com Cheryl (Heather Burns), inicialmente pegajosa demais, jovem que aos poucos conquista espaço na vida da durona interpretada com carisma por Sandra Bullock, numa ótima fase de sua carreira derrapada por fracassos comerciais e filmes de pouca expressão artística desde Velocidade Máxima 2. Em meio ao eficiente conjunto de piadas dos roteiristas, acompanhamos a saga da agente em busca de respostas para as ameaças no concurso em questão. Debochado, o roteiro flerta com o tema, mas também se entrega, num jogo de idas e vindas repleto de bons momentos, registrados pela direção de fotografia de Lazslo Kovacs, engajada em captar a personagem de Bullock em seus melhores ângulos.

Outro setor muito eficiente no desenvolvimento da atmosfera proposta pelo roteiro é o design de produção de Peter S. Larkin, em especial, os cenários de Barbara Haberecht e os figurinos de Susie DeSanto. Com regravações do ABBA e outros clássicos da música pop, o único setor estético que não envelheceu bem foram os efeitos visuais da equipe de John T. Van Vliet, especificamente nas cenas de explosão e coisas do tipo. Ademais, Miss Simpatia ganhou uma continuação tardia, lançada cinco anos depois, reciclagem das ideias já exauridas no filme ponto de partida. A proposta é até interessante, principalmente por flertar com Las Vegas como o espaço cênico das representações humanas, artificiais e vulneráveis, além do status de celebridade numa era prévia ao boom dos aplicativos e redes sociais. Como apontado, apenas uma proposta. Na prática não funcionou bem, nada que eclipse o brilho do filme em questão, uma das gratas surpresas no campo do entretenimento hollywoodiano do ano 2000.

Miss Simpatia (Miss Congeniality) — Estados Unidos, 2000
Direção: Donald Petriee
Roteiro: Katie Ford, Marc Lawrence
Elenco: Benjamin Bratt, Ernie Hudson, Michael Caine, Sandra Bullock, William Shatner, Heather Burns, Candice Bergen
Duração: 110 min.

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