Crítica | Mississipi em Chamas

Em um ponto próximo ao desfecho de Mississipi em Chamas, a personagem de Frances McDormand faz uma terrível, mas elucidativa afirmação, ao investigador do FBI interpretado por Gene Hackman. No ponto alto de sua fala, ela diz que naquele local as pessoas vivem, dormem, bebem e “casam” com o “ódio”, numa alusão ao seu marido, um dos homens brancos envolvidos em questões de crimes racistas ocorridos na região. Em seu desabafo, a personagem expõe que as pessoas crescem assim, doutrinadas na escola e guiadas pelo desprezo e raiva diante das pessoas negras, numa região que se orgulha de ser um caso bem sucedido de segregação.

Noutro determinado ponto do filme, um encontro da Klu Klux Klan, travestido de comício político traz diversas pessoas com a “farda” do movimento, até mesmo crianças. O discurso de um dos representantes reforça que o Mississipi se orgulha de não permitir o surgimento de “mulatos”, os “vira-latas” que são fruto da mistura entre raças, algo não benéfico para nenhum dos lados envolvidos no surgimento de uma população mestiça, isto é, multicultural. Racismo puro e justificado pela palavra-chave do diálogo entre os personagens citados na abertura desta reflexão: ódio, palavra/conceito curta, mas poderosa, movedora de uma onda que inclusive, parece estar mais forte do que nunca na contemporaneidade.

Lançado em 1988, Mississipi em Chamas foi dirigido por Alan Parker, cineasta que teve o roteiro de Chris Gerolmo como guia de sua história baseada em acontecimentos ocorridos em 1964. Para contar a sua história, o diretor teve em sua equipe o design de produção de Philip Harrison e Geoffrey Kirkland, responsáveis por guiar o visual dos anos 1960, captados pela direção de fotografia de Peter Biziou, eficiente principalmente ao trabalhar as cenas noturnas, o que culminou na premiação de Melhor Direção de Fotografia no Oscar e no BAFTA, importantes premiações da indústria. Todos os setores são guiados pela condução musical de Trevor Jones, também eficiente.

Tenso, o filme traz a história de três jovens que militavam em prol dos Direitos Civis, mas desapareceram enquanto voltavam de um evento que buscava incentivar os negros na luta por direito ao voto. Interceptados por membros da Klu Klux Klan, organização permeada pelo poder, ao trazer em sua estrutura, membros da polícia e da política do local, os jovens são dados como desaparecidos, o que abre precedentes para a vinda de Rupert Anderson (Gene Hackman) e Alan Ward (William Dafoe), agentes do FBI encarregados na resolução do caso que ganhou dimensões internacionais. Mergulhados no clima sufocante da população branca sulista e segregada, os personagens assistem ao “espetáculo do horror racista” que traz em “seus números”, coações, assassinatos e outras manifestações irregulares de caráter e humanidade.

Assim, Alan Parker faz um bom trabalho ao comandar os três pontos nevrálgicos da narrativa: o interesse de Anderson pela senhora Pell (Frances McDormand), esposa branca que vai dar pistas do paradeiro dos jovens desaparecidos; o embate entre Anderson e Ward, policiais de temperamentos diferentes, bem com posturas antagônicas; e o principal, o desaparecimento dos militantes, dois jovens brancos e um negro, situação que levanta o seguinte questionamento: o FBI está ali por conta dos jovens brancos que sumiram ou por causa dos três desaparecidos?

Apesar de funcionar bem em sua abordagem crítica dos Direitos Civis, alguns militantes apontam problemas no filme, alguns coerentes, outros que talvez necessitem de ponderações. O primeiro ponto é bem importante de frisar: a aceleração na resolução dos problemas quando a mulher branca é hospitalizada depois de fornecer pistas sobre o caso investigado. O personagem de Gene Hackman, interessado e envolvido emocionalmente com a personagem, deixa-se levar pela ira e começa uma caça quase pessoal para pegar os culpados. Outra questão é a passividade do povo negro, supostamente tratado pelo filme como uma massa amorfa, passiva, quieta.

É preciso compreender, no entanto, que diferente das bifurcações dos centros urbanos, a vida daquelas pessoas funciona como uma espécie de aquário. Qualquer depoimento ou sinal de aproximação com os policiais do FBI era visto como ameaça pela população branca, o que resultava em perseguição posterior. Diante deste panorama, como não sentir medo e ficar acuado, pouco reativo? É algo para ser pensado. Creio que o personagem do filho do pastor, com suas palavras astutas e inteligentes, represente parcialmente esta “resistência”.

Para entender a disseminação de tanto ódio no desenvolvimento do roteiro, cabe trazer algumas considerações sobre a Klu Klux Klan, organização racista considerada anticonstitucional em 1882, mas que ganhou fôlego no século XX e ainda é incitada no século XXI, quando nos encontramos diante de debates segregacionistas e afins. Fundada no Tennessee, em 1866, a organização se ergueu juntamente com os veteranos que participaram da Guerra Civil Americana, na região Sul, o eixo “derrotado” da história.

Se a versão anterior oprimia os afroamericanos, a nova roupagem, reestabelecida em 1915, na Geórgia, perseguia também outras ralas, num deturpado sentimento de nacionalismo que funcionava como ode ao “Velho Sul”. Católicos, judeus e negros estavam na lista de extermínio da agenda KKK, “círculo” voltado ao ódio que chegou a ter em média quatro milhões se seguidores, representados pelas cruzes incendiadas como “logo” da marca. Novas configurações da velha instituição surgem com eficiência reflexiva em Tempo de Matar, de Joel Schumacher, lançado em 1996, tradução intersemiótica do romance homônimo de John Grisham.

Mississipi em Chamas (Mississipi Burning, Estados Unidos – 1988)
Direção: Alan Parker
Roteiro: Chris Gerolmo
Elenco: Daniel Chapman, Daniel Winford, Darius McCrary, Dawn Boyd, Dianne Lancaster, Doug Jackson, Dwight Boyd, Ed Geldart, Ethel L. Mayes, Everett Thrall, Frances McDormand, Frankie Faison, Frederick Zollo, Gailard Sartain, Gary Moody, Gene Hackman, R. Lee Ermey, Rick Washburn, Rick Zieff, Robert Erickson, Robert F. Colesberry, Robert Glaudini, Ron De Roxtra, Simeon Teague, Stanley W. Collins, Stephen Bridgewater, Stephen Tobolowsky, Thomas B. Mason, Tobin Bell, Tonea Stewart, Virginia Bennett, Willem Dafoe
Duração: 122 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.