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Crítica | Missy – 2ª Temporada

A mamãe está de volta!

por Luiz Santiago
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Lançada em julho de 2020, a segunda temporada da série Missy, produzida pela Big Finish, foi um pouco menos interessante em termos de construção das histórias, comparada ao ano anterior, mas conseguiu manter o altíssimo nível de interpretação de seus personagens centrais, com destaque máximo para Michelle Gomez no papel principal, seguida por Rufus Hound, em uma das mais interessantes encarnações do Monge, que conhecemos originalmente em The Black Hole, uma aventura com o 2º Doutor. Com quatro episódios, a temporada foca em diferentes aventuras de Missy pelo Universo, não exatamente como continuação uma da outra, embora existam claras relações entre personagens desta temporada com os da temporada anterior.

A abertura se dá com o maravilhoso e inesquecível The Lumiat, escrito por Lisa McMullin. É uma história que lança luzes sobre a sequência de regenerações do Mestre, e embora saibamos que decisões diferentes possam surgir na TV, pelo menos por enquanto temos as informações necessárias para preencher alguns buracos. Um deles já vinha sendo bem trabalhado no Universo Expandido desde The Doctor Falls, quando se estabeleceu que o Mestre Saxon se regenerou no corpo de Missy, o que é uma sequência poeticamente instigante, convenhamos. Até aqui, porém, o que tinha ficado em suspenso era o seguinte: o que aconteceu com o corpo de Missy após receber um tiro de carga completa, de sua encarnação anterior? Em The Lumiat, encontramos a resposta. Nos momentos antes de sua morte, Missy consegue dar início a um processo proibido, herético e extremamente doloroso chamado de Campo Elísio (Elysian Field).

Na mitologia grega os Campos Elíseos são o Paraíso, um lugar do mundo dos mortos governado por Hades, oposto ao Tártaro (lugar de eterno tormento e sofrimento). Nesses campos, os homens virtuosos repousavam dignamente, rodeados por paisagens verdes e floridas, dançando e se divertindo noite e dia. Em Doctor Who, um “Campo Elísio” é um processo misto de tecnologia e ritual que usa extração criogenética, permitindo a um Time Lord ou Lady quebrar completamente seu corpo em átomos e moléculas, reconstruindo-se em outro corpo logo a seguir, após editar sua personalidade. Foi assim que Missy conseguiu um novo ciclo de regenerações e acabou retirando, no processo, todos os elementos maléficos de seu íntimo. Isso gerou a encarnação da Lumiat (interpretada por Gina McKee), que é, para o Mestre, o equivalente ao Valeyard para o Doutor. Este não é apenas o melhor episódio da temporada, mas também aquele que nos dá uma excelente oportunidade de entender o que aconteceu com Missy após sua morte. A partir deste ponto, podemos pensar que o Spy Master de Sacha Dhawan talvez seja a encarnação do Mestre posterior à Lumiat (que aqui é morta por Missy e, em seguida, abandonada num planeta qualquer para se regenerar sozinha).

Os dois episódios do meio da temporada são os que eu menos gosto. Aliás, se não fossem o primeiro e o quarto capítulos, a minha visão geral sobre este ano seria muito menos positiva. E sim, com isto quero dizer que os capítulos que verdadeiramente valem a pena são esses dois das extremidades. Os do meio são “apenas ok“, com uma camada considerável de chatices, especialmente Brimstone and Terror. Escrito por Roy Gill, este traz os irmãos Oliver e Lucy Davis da 1ª Temporada, numa trama meio sem pé nem cabeça, onde Missy assume a diretoria de um internato na Escócia e quer montar um Exército com os garotos. Talvez o escritor e os diretores Sam Clemens e Ken Bentley quisessem emular tramas de clássicos cinematográficos como Zero de Comportamento ou, mais provavelmente, If…, mas definitivamente não tiveram um bom resultado com isso. Este é o pior episódio da temporada, para mim. Em seguida, temos Treason and Plot, que já sobe um pouquinho o nível. É uma trama que se passa durante a Conspiração da Pólvora (1605) e nos apresenta uma Time Agent chamada Rita Cooper, que é novata no cargo e está desesperada para pegar um “caso desafiador em um lugar tropical“. O papel de Missy na conspiração é pitoresco, terminando com um excelente gancho, onde ela é capturada por alguém que queria vingança por um enfrentamento que tiveram no passado: o Monge.

A temporada se encerra de maneira brilhante com o episódio Too Many Masters, de John Dorney. Trata-se de uma comédia de ficção científica, numa narrativa em estilo “comédia de erros” que é impagável. Inicialmente, o Monge captura Missy, tentando vingar-se dela pelo que aconteceu em Divorced, Beheaded, Regenerated, quando se encontraram pela primeira vez, na corte de Henrique VIII. Então repentinamente aparecem os Ogrons em cena, procurando liquidar uma antiga dívida que o Mestre tem com eles. E então, o caos está posto. A relação de Missy com o Monge é tragicômica, sempre mostrando os planos maleficamente idiotas do Time Lord e como ele é constantemente superado por Missy. O texto é hilário, traz boas reviravoltas e ainda consegue criar um gancho impagável para a 3ª Temporada, indicando que a dupla passará um tempo considerável juntos, já que Missy está sem TARDIS e a nave do Monge só pode ser operada pela dupla, após Missy alterar os padrões cerebrais ligados ao painel de controle.

A despeito dos dois episódios do meio, este segundo ano de Missy na Big Finish é um evento. Uma temporada cheia de ações inesperadas, atos de maldade, viagens no tempo, interferências na História da Terra, aliens vingativos e duas figuras impagáveis em contato com Missy: a Lumiat e o Monge. Não temos o mesmo nível da temporada anterior, onde os quatro episódios eram absurdamente fantásticos, mas ainda assim, estamos na parte alta da linha de qualidade. E independente de qualquer coisa, temos Michelle Gomez interpretando Missy, o que já valeria a temporada inteira, mesmo se a qualidade de todos os episódios não desse para o gasto.

Missy: Series Two (Reino Unido, 8 de Julho de 2020)
Direção: Sam Clemens, Ken Bentley
Roteiro: Lisa McMullin, Roy Gill, Gemma Arrowsmith, John Dorney
Elenco: Michelle Gomez, Gina McKee, Matthew Jacobs-Morgan, Eve Webster, John Banks, Dan Starkey, Oliver Clement, Bonnie Kingston, Alex Hope, Cameron Percival, Ony Uhiara, Ben Fox, Christopher Hatherall, Philip Pope, Rufus Hound, Ajjaz Awad, Helen Goldwyn, Robert Whitelock, Glen McCready
Duração: 50 a 61 min. cada episódio

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