Crítica | Mister No – Especial Vol.1: Magia Negra

Lançado em julho de 1986 pela Sergio Bonelli EditoreMagia Negra estreou a linha de publicações Especiais de Mister No na casa italiana, aparecendo 11 anos depois da criação do personagem. Neste primeiro volume da série de especiais, encontramos o protagonista de volta a Salvador, Bahia, onde o vemos aproveitar, nas primeiras páginas, o pôr do Sol em Itapoã e mais tarde falar de negócios no Hotel da Barra. É um começo tranquilo, sem muitas justificativas do por quê do retorno à Bahia, mas esta é uma informação da qual o leitor não sente falta, já que a introdução do personagem e seu dia a dia no local são bem feitas no roteiro de Guido Nolitta (Sergio Bonelli).

Como é comum nas histórias de Mister No, sua fama o precede e ele mais uma é contratado para fazer um trabalho difícil, por uma quantia considerável. Já nos primeiros momentos, um clima de ameaça aparece, misturado com o primeiro elemento místico dessa história, uma sessão mediúnica nos moldes europeus, onde o contratante de Mister No tinha uma reunião marcada. Ali seria o lugar em que ele encontraria indícios do paradeiro do filho, ou seja, o local até onde Mister No deveria guiá-lo. É então que entra na história o professor Albert Polansky, alguém que dedicou a vida a desmascarar sacerdotes e místicos que supostamente operavam milagres e faziam coisas aparecerem do nada.

O sentimento do leitor em relação ao professor, logo de início, é misto. O contexto em que ele faz a sua grande exposição de fraude aqui é mais propício a mostrar que ele estava certo, embora a discussão sobre isso possa ser um pouco mais longa  meio tabu. Quando se encontra com Jerry depois da confusão, as coisas começam a ficar mais sérias. Ao longo de todo esse trajeto, a história se mostra interessante, divertida de ler, e o leitor já percebe a brincadeira que Nolitta faz com os serviços prometidos mas não pagos a Mister No nesta saga, e tudo por motivos bem peculiares. Quando o professor contrata Mister No para guiá-lo pelos terreiros da cidade, com a promessa de que “não causaria confusão com os sacerdotes de macumba“, o leitor sente que tem algo maior vindo pela frente e que a aventura está construindo, passo a passo, o seu grande conflito.

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Aqui são citadas práticas de umbanda, candomblé, catimbó e quimbanda, esta última, o verdadeiro culto escolhido para o clímax da edição, o rito (com direito a uma macabra sequência no cemitério, guiada pelo babalaô Congo Vevê, com suas oferendas a Exu) do qual Mister No apresentou medo desde o início e que o professor Polansky insistiu em conhecer e, como sempre, desmascarar. Chega uma hora que o leitor sente imensa raiva do professor, por não considerar um só momento a possibilidade de algo místico ou além de sua compreensão atingir-lhe fatalmente, além do desrespeito dele aos lugares que visita e o que faz na frente das pessoas — a sequência no catimbó é enervante por si só. Como disse antes, a discussão sobre desmascarar milagres ou feitos místicos pode ser longa, mas o contexto dado aqui para as ações do professor deixam pouca margem para defesa dele.

Eu gostei bastante da trama pelo menos até a sua penúltima cena, após o clímax no cemitério. Em seguida, o texto nos traz uma interrupção daqueles eventos e segue com um encerramento didático, na maneira como retrata o desrespeito de alguns estrangeiros à cultura brasileira, algo que já havia sido exposto de maneira bem mais interessante ao longo da edição. Para mim, esse final burocrático acabou tendo um grande peso na qualidade da história. O que fica de bom aqui é o desenvolvimento meio cronista e meio investigativo das andanças de Mister No por Salvador em torno de práticas de religiões de matriz africana. Uma baita premissa interessante com um ótimo desenvolvimento, mas um final que parece ter sido escrito para selar uma aproximação e entendimento cultural e moral que me pareceu forçado e deslocado. Não estraga o Especial, mas impede que ele seja, em avaliação total, ainda melhor do que é.

Speciale Mister No #1: Magia Nera (Itália, julho de 1986)
Publicação original:
Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Editora 85 (2018)
Roteiro: Guido Nolitta
Arte: Roberto Diso
Capa: Roberto Diso
132 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.