Home QuadrinhosOne-Shot Crítica | Mister No – Especial Vol. 6: Dark Lady

Crítica | Mister No – Especial Vol. 6: Dark Lady

por Luiz Santiago
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Sabem aquele ambiente gostoso de amigos no bar, quando todos estão reunidos e as atenções recaem sobre um determinado indivíduo que deve saciar a curiosidade dos colegas a respeito de um assunto específico? Pois bem, é basicamente isso que temos nessa sexta edição da revista Mister No Especial, intitulada Dark Lady. A ação se passa “numa tarde como tantas outras” em Manaus, ou seja, em uma tarde quente e chuvosa, onde Mister No arruma briga seu amigo alemão Esse Esse, tudo por causa de uma mulher em quem supostamente Jerry havia dado em cima.

Como é comum encontrarmos nas histórias de Guido Nolitta, o protagonista não está afastado da ação e nem do humor. Há um forte senso de camaradagem no ar, o que abre as portas para o roteiro brincar com a intimidade entre os beberrões fofoqueiros e, dessa reunião, tirar uma lembrança interessante, que se passa em São Luís, Maranhão, pouco tempo depois de Mister No ter chegado ao Brasil. É um quase-noir em terras maranhenses, mas com um sabor de tramas de espionagem ambientadas em países latinos, aparência temperada por ondas de traição em diversos níveis no decorrer da aventura.

A irresistível Dark Lady do título é daquelas típicas mulheres fatais do cinema: sensual, convincente, manipuladora e conhecedora de muitos meios para poder se defender e fazer negócios. Como o autor não esconde essa faceta da personagem, nós sabemos desde o início que a proposta dela para Mister No está repleta de coisas ilegais, mas mesmo assim o piloto faz a travessia contratada porque a oferta em dinheiro é altíssima e a libido de Mister No tem um forte poder de fala nesse caso. Mesmo preocupado e depois com medo mesmo, o personagem segue em frente e acaba pagando parte do preço por se envolver nessa transação.

Tem algo aqui, porém, que me deixou ressabiado. O alemão da história é apelidado de Esse Esse e, pelo que ele diz a Mister No na página 127 (edição da Editora 85), confirma-se o fato de que serviu ao Terceiro Reich. O meu problema com isso não está na colocação do personagem na história — aliás, acho isso muito interessante –, mas no fato de não haver absolutamente nada que questione, que aponte algum tipo de crítica ou faça alusão ao passado nazista de Esse Esse. Me espanta que Mister No tenha ficado amigo dele, inclusive. Sim, eu sei que a aventura se passa em um tempo onde a informação não era exatamente a coisa mais compartilhada na sociedade, especialmente a brasileira, mas Mister No sabia muito mais do que a média no que diz respeito aos rumos da guerra. E o que temos aqui é um ex-oficial nazista que fugiu para o Brasil (o que é historicamente correto: tivemos muitos exemplos desse tipo de gente aqui e na Argentina) mas que não recebe nenhum tipo de alfinetada do autor. Sinceramente… não gostei.

À parte esse lado da trama ligada a Esse Esse, Dark Lady é uma história que sabe mesclar muito bem diferentes níveis de ação, um pouco de suspense e uma nota bem abrasileirada de confusão, vagabundagem, fofoca e criminalidade. Já falei em outras críticas dessa série e volto a repetir aqui: é impressionante como Guido Nolitta consegue passar muito bem o sabor brasileiro para suas histórias. É fato que compartilhamos certos aspectos culturais com os italianos, mas a maneira como Nolitta escreve é tão autêntica que passaria tranquilamente por um autor nacional da época escrevendo para esse icônico personagem. E isso é um baita elogio.

Speciale Mister No #6: Dark Lady (Itália, julho de 1991)
Publicação original:
 Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Editora 85 (Mister No – Especial Nº5, 2020)
Roteiro: Guido Nolitta
Arte: Roberto Diso
Capa: Roberto Diso
148 páginas

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