Crítica | Mister Roberts

“Como você conseguiu entrar na Marinha? Como você chegou ao nosso lado? Seu ignorante, arrogante, ambicioso…”

A guerra está terminando, e o Mr. Roberts (Henry Fonda) não lutou nela como gostaria de ter lutado, objetivamente ao invés de indiretamente. Para o patriota, eis um pecado não ter pego nas armas e defendido o seu país, como fez os seus outros irmãos, alguns mortos e alguns ainda vivos. Com o que o navio cargueiro Reluctant pode contribuir para os Aliados na Segunda Guerra Mundial, enquanto estacionado no Pacífico? O protagonista-homônimo a esse longa-metragem de John Ford, portanto, requer constantemente ao “Capitão” Morton, vivido por James Cagney, transferência, sempre negada. O antagonismo, então, não é o Eixo, mas anseios restringidos. É o sonho do personagem, poder até mesmo morrer, mas morrer em vista de uma bandeira. Essa jornada quer, acima de tudo, engrandecer o seu protagonista, menor, ao posto dos notáveis heróis.

E Mister Roberts é um excelente exemplar na sugestão ao heroísmo – próprio de sua época – existente no ser, mesmo sendo mais coerente dentro da visão da tripulação ao protagonista e não vice-versa. Henry Fonda encarna um homem que diz o que pensa, luta pelo que acredita ser certo e é capaz até mesmo de sacrificar-se perante a isso. Suas vontades podem não ser saciadas, mas quem disse que as dos outros também terão que ser privadas? Enquanto é aprisionado nesse balde marítimo pelo Capitão, um vilão com traços cômicos, porém, irritante e desprezível, Doug Roberts sempre busca trazer o melhor para os seus, apesar de riscos comprometerem o seu futuro. Esse Mr. Roberts não será um herói para a América. Em contrapartida, o protagonista, vivido com charme por Fonda, será um herói para os sessenta e dois membros parte da tripulação.

Uma permissão a privilégios até que vulgares para esse grupo, espiando as enfermeiras de um hospital, caso comparada com o que o protagonista abdicou ou abdicará por isso, contudo, nunca soa estar em pé de igualdade. Faz parte de uma estrutura narrativa, por um lado, competente. Fonda nos permite crer na necessidade desse homens em terem a companhia de mulheres. No entanto, os relacionamentos tornam-se impessoais, com exceção de um único personagem, mais próximo a Doug. Crer num vínculo que mostre o quanto Roberts, agora em diante, é orgulhoso desses seus “iguais” torna-se um pouco impossível, portanto. Já num quesito mais subversivo, acerca das gozações transviadas, o longa-metragem funciona muito melhor e é mais coerente. O Capitão, que é antagônico a todos os membros da tripulação, une-os sob um só ponto em comum.

A guerra está terminando, mas esse navio possui pouca noção do que foram as mortes causadas. Um ingênuo humor era possível, e esse certeiro viés cômico tem Jack Lemmon, vivendo Frank Pulver, como auge. O curioso é que Ford, mantendo rixas com o seu elenco, participou de poucas filmagens. Muitas cenas foram gravadas por outros diretores, optando por emular o prestigiado cineasta. Mas o elenco mostrou-se coeso e a direção, em várias passagens, consegue se emancipar dos problemas tão graves. Uma cena remete às comédias do cinema mudo, contribuindo com a jocosidade do momento. Já o ápice do tom dramático surge na última, uma mudança de perspectiva, já beirando o pós-guerra. A câmera se aproxima ao rosto de Pulver com cuidado. Encontra, no imediatismo, uma metamorfose: é a vontade por abraçar um grande legado.

Com essa enervante passagem de bastão, Mister Roberts consegue enaltecer o poder de uma importante imagem do patriotismo. Importante para poucas pessoas, mas que, entretanto, foram eternamente transformadas em seres menos passivos e submissos, mesmo que tardiamente. O pós-guerra não irá durar para sempre. Urge o empoderamento do soldado frente a injustiças, nem que seja uma mera proibição de tirar camisas ou a negação ao combate pessoal contra os supostos inimigos. Essa é uma obra, adaptando os materiais originais, sobre pequenos heróis que não sobreviveram e não se importaram em sobreviver, entrecortando muitos risos, passados e atuais, com os necessários combates às ignorâncias, quer seja o nazismo, os japoneses ou a inocência. Eles não irão envelhecer, enquanto outros enfrentarão as consequências de sobreviver.

Mister Roberts – EUA, 1955
Direção: John Ford, Mervyn LeRoy, Joshua Logan
Roteiro: Frank S. Nugent, Joshua Logan, Thomas Heggen
Elenco: Henry Fonda, James Cagney, William Powell, Jack Lemmon, Betsy Palmer, Ward Bond, Philip Carey, Nick Adams, Perry Lopez, Ken Curtis, Robert Roark, Harry Carey Jr.
Duração: 123 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.